Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



sexta-feira, 31 de março de 2017

Tranquilidade

Poemas últimos anos
Tranquilidade




A dor no peito
O nó na garganta
A lágrima teimosa
O gesto sofrido
A persistente saudade...



A falta de jeito
Enorme e tanta
Que me tolhe e espanta...



Como tenho querido
Vencer a impossibilidade
De ser persistente...



O Senhor trouxe-me a Malta
Como prémio que não mereço
Dando-me um novo começo
Do que fazia tanta falta...



A tranquilidade!


Malta, 2015.01.23

quinta-feira, 30 de março de 2017

Coisas simples – 8

Centro de Saúde

Enquanto espero atendido ponho-me a pensar - sem nenhum esforço - no anacronismo do nome.

Realmente, quem aqui comparece não vem tratar da saúde, mas sim da falta dela: uma doença, mal-estar, deficiência.

Ou seja, se me sentir bem não vejo aqui fazer nada.

Mas se me sentir mal, então venho cá para que me encontrem uma solução.

Evidentemente que chamar a este local "Centro de Doença" pareceria um bocado estranho ou, pelo menos, definitivo.

Realmente quando se vem aqui tem-se a secreta esperança que nos mandem embora com um: "Não tem nada, isso já passa, não se preocupe."

Chegado a este ponto concluo que é melhor deixar as coisas como estão.


(AMA, coisas simples, 20.03.2017

quarta-feira, 29 de março de 2017

Noites em que te conheci

Poemas da minha vida 

Últimos anos


Noites em que te conheci





Todas as noites que conheci

Foram o fim anunciado

De algo vivido

A sério e intensamente

Ou sem um querer determinado

Lenta ou brevemente

Propositadamente
Ou por engano

Como esta de fim de ano.



2014.12.31

terça-feira, 28 de março de 2017

Coisas simples – 7

Palavras desnecessárias

É comum ouvir ou ler palavras desnecessárias, que não acrescentam nada ao discurso, gastam tempo - e espaço -, não têm qualquer serventia.

O Artur caiu pela escada abaixo!

Claro, não podia de modo nenhum cair pela escada acima!

O Adalberto meteu-se no elevador e carregou no botão.
É evidente, se não pressionasse o botão ficaria ali até que alguém o fizesse.

Repare-se que disse 'pressionar o botão' em vez de "carregar no botão", isto pela simples razão que "carregar" significa levar, transportar, arcar com algo.

Ora, evidentemente, ninguém, por princípio, transporta o botão do elevador para lado nenhum - aliás, seria tarefa difícil e um acto de vandalismo - por isso, pressiona não carrega.

Havemos de voltar a este tema tão interessante.


(AMA, coisas simples, 18.03.2017)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Dia Oito de Dezembro

Poemas da minha vida 

Últimos anos




Dia Oito de Dezembro



Que tenho de escrever!

Porquê, pergunto-me inquieto

Porque sei a resposta de antemão.



Porque ela está à espera

Que lhe leias o que já deverias ter escrito.



Olha, Fernandinha, começo,

Hoje, não escrevi nada

Um medo inexplicável,

Ou talvez não,

De enfrentar o inevitável

Refrão:

Há quarenta e nove anos!



E tu sabes bem

Sempre, soubeste, como sou cobarde!



Por isso, por que sou assim,

Não me importo de fazer alarde

Desta cobardia teimosa.



Não escrevo nada

Não digo nada

Nem de agora

Nem do que vivi

A teu lado!



Agora, quase indolor,

Só penso em ti!

Meu Amor!



Dez 2014 dia 8

domingo, 26 de março de 2017

Coisas simples – 5

Bacalhau

Tenho de confessar a que estou preocupado, dizer o que for sobre bacalhau não é tarefa fácil.

Eu e o bacalhau mantemos uma relação de grande intimidade.

Gosto de bacalhau e esta confissão trás consigo uma responsabilidade acrescida.

É fundamental saber o que é bacalhau a sério, não umas coisas que dizem "asa branca" ou "da Noruega" é semelhantes.

Bacalhau é bacalhau e pronto, não precisa de definições extra que não servem para nada.

Bom, deixemos as memórias das "secas de bacalhau" com o dito exposto ao sol em fileiras intermináveis, um espectáculo que só os saudosos como eu lembram com saborosa saudade.

Um bacalhau vive no mar e não no espaço sideral, logo, não tem asas, tem barbatanas.

Da Noruega? Sei lá!  A mim o que interessa é que o bacalhau seja... Bacalhau.

Há, dizem, mil receitas de bacalhau…

Mas isso fica para uma próxima reflexão sobre o dito.


AMA, 17.03.2017

sábado, 25 de março de 2017

Repto

Poemas da minha vida 

Últimos anos



Repto



Devia estar inquieto

Mas a verdade

É que uma estranha calma me invade

Lançando-me um repto:



Queres ou não estar assim?



Por mim

Nem sei a resposta

E o que mais me desgosta

É que ninguém diz a verdade:



Porquê esta calma me invade!



2014.12.21

sexta-feira, 24 de março de 2017

Coisas simples – 6

Andar a cavalo ou andar de cavalo? 

Esta questão é de uma importância muito relativa, mas tem o seu quê de curioso.

Para mim, andar a cavalo é escarranchar-se em cima do animal - seja ele o que for desde que aguente com o nosso peso – e ir para qualquer lado.
Se ficar parado no mesmo sítio não está a “andar a cavalo” e, na verdade se se mover é este – o cavalo – que anda e não quem lhe carrega os lombos.

Este pequeno detalhe tem solução se disser que vai “montar um cavalo”.

E, este alvitre, é muito sagaz e apropriado porque, uma vez montado no cavalo pode – o cavalo – andar, mas, também pode correr, saltar obstáculos, trotar.

Assim, “andar de cavalo” só se deve usar como expressão completa que é:

“Andar de cavalo para burro” que, como muitíssima gente sabe, acontece frequentemente.

Só que – na minha exclusiva e inteiramente livre opinião – não se deve dizer tal coisa com base em dois axiomas:

O primeiro é que existe uma quantidade apreciável de “burros” que fazem vida de cavalo, têm privilégios de cavalo, são considerados “puro-sangue”.

O segundo é que o animal que conhecemos pelo nome de “burro” é muitíssimo mais nobre que o cavalo, porque, além de saber muito bem o que quer e só fazer o que muito bem lhe apetece, quando lhe apetece, apareceu nesta terra muitíssimo antes do cavalo o que lhe confere um estatuto não despiciendo.

Chegado aqui, sou forçado a concluir que mais vale ser burro do que fingir que se é cavalo.


(AMA, coisas simples, 17.03.2017)

quinta-feira, 23 de março de 2017

Tem de ser!

Poemas da minha vida 

Últimos anos


Tem de ser!



Parece que voltei a um tempo antigo

Em que não era eu que mandava em mim

Forçando-me a escrever sem qualquer fim

Que não fosse esmagar o estro.



Eu bem quero e esforço, mas não consigo

Ser outro, mais velho e mais prudente

Não ceder mais ao impulso ingente

E libertar-me deste estranho sequestro.



O sono vai-se para não voltar mais

Não me deixando alternativa que levantar-me

E vir para aqui sozinho e sentar-me

À mesa do meu desconsolo e dos meus ais.



E deixo correr a mão célere e frenética

Extravasando o que vai cá dentro e não cabe

Como quem faz a única coisa que sabe

Acalma a tremenda e ingente dialética:



Tem de ser…

Tenho de escrever…


Porto, 15.10.2014

quarta-feira, 22 de março de 2017

Coisas simples – 4

Queijo

Tenho uma relação com o queijo de enorme e muito terna intimidade.

Digamos que eu e o queijo partilhamos muita coisa que não pode ser descrita em palavras que se desejam breves.

Na minha memória dos tempos de jovem avultam os queijos de três quilos a secar ao sol na nossa casa de Carvide.
Feitos com o leite das nossas vacas leiteiras eram qualquer coisa de lamber os beiços.

Hoje em dia não faltam queijos de todas as qualidades e proveniências e até há quem se atreva a fazer “queijo de mistura”, isto é, com leite de cabra, vaca e ovelha.

Considero tal coisa um verdadeiro atentado ao queijo.

Tenho comido queijo em muitos lugares do mundo, mas, a verdade nua e crua é que não há melhor queijo que o português.

Tem tal importância que até já entrou na política com um tal "limiano", que, como a política, é uma mistela intragável.

Se puder, resista à tentação de comprar um queijo "tipo serra", não passa de um pastel a escorrer leite e que passados dois dias se atira para o lixo.

Estamos no supermercado no local dos queijos e, aquilo é um festival de aldrabices e confusões. Origem daqui e dali produzido pela quinta não sei de onde, com ervas, sem sal, com pimenta e, até - imagine-se com bocadinhos de presunto!

Passo pelo local como por vinha vindimada, sei muito bem o que quero.

Escolho o meu queijo com os olhos, não preciso de apalpar, dar umas pancadinhas com a palma da mão - como vejo fazer a alguns "entendidos", - não! Basta-me olhar e dizer: quero este!

Digo: comprar um queijo é algo sério, íntimo, pessoal, não pode ser feito de animo leve, não!

Quando sair de casa pense duas vezes:

'Hoje será dia para comprar queijo?'


(AMA, coisas simples, 16.03.2017)

terça-feira, 21 de março de 2017

Saudade!

Poemas da minha vida 

Últimos anos


Saudade!



Um mês!

Insatisfeita

Voltou uma vez mais

Desta vez batendo fundo,

Ah! Tão fundo!



Mas não penses que me vences!

Não!

O mundo,

O meu mundo

Não acaba aqui

Eu não me rendo.



Choro, claro que choro

E muito

E faço coro com o Dies irae

Porque, seja como for

Sou mais forte

Que tu, morte!



Leva-me parte de mim

Mas, o que fica e resta

(que não sei o que vale ou para que presta)

Fica a gritar a voz plena

Convicta, serena:

Não me vences

Não me convences!



Não vales nada!

Por muito que te esforces

Batas e firas, martelando este pobre coração,

Eu, António, vivo e sereno

Não me sujeitando a ti.



Vivo como nunca vivi

A certeza mais absoluta e concreta

Que Ele sabe mais o que me convém

E que sempre, sempre é para meu bem.


Porto, 04 Setembro, 2014

segunda-feira, 20 de março de 2017

Coisas Simples – 3

Entrevista no hospital

Para quem entra num hospital a fim de ser sujeito a uma cirurgia, atrevo-me a pensar que o que vou escrever pode ter – pelo menos algum – interesse.

É absolutamente fundamental revestir-se de uma paciência a toda a prova de forma a que nada possa alterar o seu estado de espírito e levá-lo a ter alguma reacção cujas consequências podem ser um “amargo de boca” que nem me atrevo a imaginar.

Dou um exemplo:

Quando há umas semanas fui ao hospital para uma cirurgia, fui – depois de pouco tempo de espera, confesso – atendido por uma enfermeira para uma entrevista.

Em cima da mesa à sua frente descansava uma volumosa pasta contendo documentos. Abriu a primeira e começou o interrogatório – a entrevista é, efectivamente um interrogatório -:

‘Como se chama?’
Respondi, evidentemente.

‘Que idade tem!’
Novamente, respondi.

Voltando mais uma página, declarou:
‘Tem aqui um processo volumoso e muito completo sobre as suas “estadias” neste hospital.
Fiquei sossegado, afinal sabiam tudo a meu respeito.

Nova pergunta:
‘Usa alguma prótese?’
Disse que sim, que tinha o que chama – os incultos como eu – uns quantos destes postiços, ou seja: uma dentadura.

A pergunta seguinte surpreendeu-me deveras:
´Quanto pesa?’
Fiquei atónito e respondi: Não faço a menor ideia!

A diligente funcionária retrucou com acidez não disfarçável:
‘Há alguma coisa que saiba a seu respeito?’

Fez-se luz e atrevi-me a responder:
‘Como estávamos a falar da prótese que tenho na boca pensei que me perguntava quanto pesava a dita cuja e, isso, de facto não sei.’

A acidez na voz tornou-se autêntica bílis:
‘Está a fazer-se engraçado?’

Aí, confesso, a paciência acabou-se e respondi educadamente, mas com firmeza:
‘A senhora está a fazer-me perguntas cujas respostas estão aí à sua frente nesse montão de papeis; se quer confirmar a minha identidade, a minha altura, o meu peso, as doenças que tive, basta-lhe consultar a papelada e pronto, se por outro lado, quer ter a certeza de que eu sou quem digo ser, peça-me o meu Bilhete de Identidade.’

A resposta foi:
‘Não preciso de mais nada. Queira aguardar que o chamem’ e, fechando a pasta com a papelada, levantou-se e foi-se embora.

Fiquei a pensar que, provavelmente, estava “tramado” porque não segui o avisado conselho que um dia me deram:

«Nunca argumentes com um Guarda Republicano que quer multar-te ou com um funcionário do Estado»

(AMA, coisas simples, 16.03.2017)



domingo, 19 de março de 2017

Catarse

Poemas da minha vida 

Últimos anos

Catarse

Alguns, poucos, todavia,
Dizem-me solidários:
Coragem!
Há que seguir em frente!

Eu compreendo e aceito
Mas pergunto-me:

Em frente? Qual frente?
A dos solitários
Que se tentam consolar dentro de si
Como que num mar sem fundo,
Ou na abstracção
De um rotundo NÃO!

Quero ficar aqui!

Compreendo que não é solução
Parar e ficar
E por muito que custe
(E se custa…)
Há que continuar…

No dia-a-dia
No minuto que passa
E que nem sequer é importante
Na débil e escassa
Vontade que se abate sobre mim
Percebo que não é relevante
Lembrar!!!

E, então, ferozmente, quase
Dedico-me a amar
Procurando um definitivo fim
Tentando ultrapassar a fase
Da piedade própria
Da catarse
De mim!


Cascais, 2014.08.19

sábado, 18 de março de 2017

Coisas Simples – 2

Identidade pessoal

A nossa identidade pessoal conhece inúmeros cambiantes sem que possamos fazer nada a favor ou contra.

Por exemplo:
Se uma pessoa vai no autocarro é um passageiro;
Se no Centro de Saúde é um utente;
Se numa loja chamam-lhe cliente;
Se tem sessenta anos de idade é um sexagenário;
Se já ultrapassou os sessenta passa a ser um idoso;

Resumindo, a mesma pessoa tem, para os outros, uma identidade que lhe confere um estatuto, uma posição social, sempre diferente, conforme as circunstâncias em que se encontra.

Mas, o curioso, é que somos sempre a mesma pessoa – António, Elsa, Francisco… -

Lembro-me de um antigo filme português em que o actor principal dizia ao contra-cenante:

‘Oh Carlos… mas tu és… dois! Então? Está-se a ver: Carlos!’

Chegado aqui, penso que o melhor é acabar com isto não vá acontecer que alguém da inteligência governamental se lembre de nos atribuir uma série infindável de Bilhetes de Identidade devidamente registados para uso obrigatório consoante seja determinado.


(AMA, coisas simples, 16.03.2017)

sexta-feira, 17 de março de 2017

Confusion

Poemas da minha vida 

Últimos anos


Confusion



This same guy that crossed me on the street

Keep me on and on like a clam

On a shore’s rock.

Waves coming and going

In a tremendous and tedious ritm

Call me again and again

I don’t hear him very well

The wind blows from hell

Ferocious and vicious giving no rest

Or even a small hint of a nest

Where to stay

Away

From the tempest.

That some guy I really don’t reckon

Keep calling my name.



Who’s this strange and dissimulated fellow?

I really don’t can say for sure

But, after some laborious thinking

I’m arrived to the obvious conclusion

That he knows me well

Like the mirrored image of myself

Projected in the depts of confusion.



Cascais, 19 Agosto 2014