Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Marta

Fazes anos, hoje, minha filha,
como ontem, és e serás a desejada
forma do meu ser
e da tua Mãe.
Por isso és tão amada.

São tão importantes os teus anos,
para ti,
como para mim.

Vê lá...

Tu sabes porquê... mas eu digo:

É que ver-te crescer,
transformar-te em mulher,
saudável e alegre, graças a Deus,
dá-me força e a vontade
de seguir para a frente na vida,
dá-me a alegria e o contentamento
de ver tomar forma os desejos,
os íntimos anseios e planos
que tão plenamente eu e a Mãe
construímos e lutamos dia a dia
em perfeita sintonia
hoje, como há dezasseis anos,
pela primeira vez que te amámos,
logo que tu nasceste.

Há outra razão:

Nós ainda não somos os Pais que escolheste,
mas tu és a filha mais velha que desejámos.

Por isto tudo, e porque o teu Pai é assim,
e julgo útil e, talvez, um dever,
te escrevo coisas tais que, um dia,
se te proporcionar, ou te apetecer,
falar do teu Pai - "jurar" por mim,
possas, minha querida
dizer:

- Eu, fui a única Marta da sua vida!

Porto, 5 de Maio de  83

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Mudança

Quarenta e três anos
de coisas várias e estranhas
metidas pelos olhos dentro
como punhais
e eu sem ver
aparentemente.
Mas tudo vai mudar
digo eu e penso, contrito.

A partir de agora, não mais aflito
ficarei no dia a dia que passa,
na hora confusa que nem sei
se bate,
ou esbate
no relógio que gostaria de ter
porque o namoro na montra.

Tenho o que quero ter
de vez em quando.

E até vale a pena ser só assim
limitado
nesta estranha coisa, baia estreita
que é o dinheiro,
o poder comprar, adquirir,
ter,
possuir.

E depois do prazer
de ter
e não o usufruir.

Quem sabe o que mais vale
se muito ter sem ser seu
que ter muito para dar
como eu
julgo ter.

Porto,  83

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Significado

Mentindo a mim mesmo
tenho passado a vida sonhando
quimeras arquitectadas
sem nexo,
vantagens das virtudes
que não possuo,
descrições de atitudes
que nunca tomei.
A vida assim é-me correcta,
direita, simples e indiscreta,
pois todos sabem,
sem que me dê conta,
dos benefícios enormes para a humanidade
da grande dita,
que a minha simples presença
neste mundo
significa.

Porto  83

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Inutilidade

Deste-me o Sol num lampejo
do teu olhar tão doce
e fico estático e revejo
um ocaso precoce.
No crepúsculo do amor
que nos consumiu em nada,
que repartimos sem calor,
vejo uma claridade de madrugada.

Simplesmente porque não sei
que mais te diga ou que fazer,
já que tudo aquilo que te dei
foi construído sem prazer.

Por isso mesmo não construímos,
nem conseguimos saltar o fosso,
na realidade só destruímos
o que nunca tivemos como nosso.

Porto,  83

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Incompreensão

Deste-me a entender que não querias,
que não te interessava,
falar comigo,
e eu fiquei assim sem jeito,
sem saber o que fazer,
ou dizer.
Porquê, meu Deus, tal coisa estranha
entre dois seres que se amam
realmente,
será verdade que quanto mais se ama
mais se prejudica a imagem?

Porto,  83

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Perfumes e odores

Tinhas-me dito para ficar inerte,
não me mexer ao menos por um instante,
querias ver minha alma de fora,
aberta, deslizando calmamente.
Eu, triunfante,
por conseguir prender tua atenção,
completamente tolo, fui-me embora
dizer a todos o que conseguira,
finalmente.

Em vez de ficar como me pediras,
ali, estático, feito coisa amorfa,
pus-me a correr sem destino
e num desatino
sem explicação lógica.

Que escrever mais,
que páginas encher,
que palavras alinhavar
numa busca de algo que sei por dentro
mas teima
em não desabrochar.

Na flor que é esta caneta
o perfume não evola nem flui,
lavro, rego e adubo o papel,
mas, não possui
a qualidade, o olor
odor,
que faz de uma dor,
flor.

Porto,  83

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Valorização

O valor das coisas tem a ver
com a realidade
intrínseca das mesmas.
Poderia eu escrever
folhas de papel, resmas
inteiras sem conseguir
definir melhor
esta verdade.

Sei, e para mais, de cor,
que tudo quanto se diz
e faz convencido
que se é assim feliz.

Está assim definido
o que é o valor do que fazemos,
construímos ou deixamos
para os que nos seguirem

(nós que tanto queremos
que aqueles que mais amamos
nos admirem).

Vistas bem, as coisas são
aquilo que nós queremos que sejam.

Porto,  83


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Fernandinha

Sentia-te a meu lado fisicamente,
podia tocar teu corpo quente do sono,
os escuros do quarto eram brilhantes,
pássaros de fogo passavam fugazes
e eu, amorfo como quem não sente,
ficando-me assim em abandono
à beira de precipícios, abertos, hiantes,
laivos roxos, verdes e lilases,
tantas coisas estranhas contigo, ali
a meu lado, como sempre estiveste
e eu, algures distante no espaço,
sem saber de mim nem de nada,
nem mesmo um pouco de ti,
se me amas, se alguma vez me quiseste,
daquilo que fiz e que ainda faço,
quando fico assim até de madrugada.
Sentia-te por fora mas não por dentro,
que no teu sono mais imóvel estavas
que o costume todos os dias todos
que comigo tens vivido e consumido,
eu, como esfera e tu, como centro
dos meus pensamentos e atenções escravas
com que correspondo aos teus maus modos,
com que me lembro que sou esquecido.

Porto,  83

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Fernandinha

Um entendimento sexual das coisas
mais íntimas que regem nossos dias,
os meus pensamentos tão expostos às claras
como límpidos são os teus olhos
postos nos meus.
Vejo e revejo o brilho do chão que poisas
apostado no teu regresso quando partias,
guardando teus bens e coisas caras,
desviando do teu caminho os escolhos,
como se fosse Deus.

Mas não sou senão mortal e pequeno,
nem posso dar-te mais que aquilo que tenho,
embora deseje para ti tudo o que possível for,
com tantas coisas belas e dias claros
como no Verão. 

Fico-me quedo e sereno,
aguardando que me pagues com o mesmo empenho
tudo quanto fiz e com tanto ardor
e que os teus beijos sempre tão avaros
por tudo valerão.

Porto,  83

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Insónia

Eram três horas e ela dormia,
a meu lado, descansada,
eu, acordado, sentia
coisas vagas passarem-me na mente,
névoas estranhas que de repente
se esfumavam em nada.
Largo tempo fiquei assim,
sem ousar mexer-me no meu canto,
retraído por dentro de mim,
suando frio de indisposição,
debatendo-me entre o sim e o não,
esforçando-me por não romper em pranto.

Do que pensei naqueles minutos dolorosos
pouco me lembro agora,
sei só que de mim, por ansiosos,
meus desejos quedaram insatisfeitos,
meus sonhos quiméricos foram desfeitos
e fiquei acordado pela noite fora.

 

Porto,  83

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Coluna vertebral

Vontades mais fortes que a minha
quiseram
e não puderam
fazer mais do que eu fiz.
Um homem pode dobrar-se
até um certo ponto
de encontro
com realidades que o transcendem.

Não pode indefinidamente
ficar escondido
esperando uma coisa diferente
que nem sabe o que é
nem sente
que tenha valor até.

Pois...,

Estas coisas não acontecem
por obra do acaso,
isto tudo é programado,
levado a sério,
composto
e descomposto
com o ritmo habitual
que eu bem conheço e sei,
etc. e tal.

Acabei!

Porto, 82

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sinais

Faz anos que não vejo
um sinal no céu
que me diga algo de diferente.
Este poderia ser um tema
para iniciar
um poema.

A gente lê cada coisa
nos jornais
naquelas folhas "literárias"
em que se expandem
incoerências tais
que custa a crer
no que estamos a ler.

Mas, é verdade, infelizmente,
escreve-se tudo
e, sobretudo
aquilo que não se deveria
nunca
escrever
mesmo mal escrito.

Porto,  82

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Velhice

Quando eu for mais velho
sensato e disposto a perder tempo,
hei-de sentar-me atento
em frente de um espelho
para me inspeccionar
cuidadosamente.
Não sei
o que verei,
nem mesmo se o meu olhar
será convenientemente
perspicaz
e capaz.

Tenho coisas secretas que, nas rugas
de um rosto cansado,
poderão ser transparentes
e de fácil leitura.

Ainda bem que a minha juventude
ainda dura!

 Porto,  82

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Tema

Há tanto tempo
que não escrevo
em verso de prosa
ou poema!
Tem-me faltado o nervo
e o tema.

O primeiro
indispensável à produção,
o segundo, obviamente,
por ilação.

Não é que não tenha querido
muitas vezes
sentar-me e escrever,
mas... querer
é uma coisa diferente
de desejo
e este só sucede
com o ensejo.

Porto,  82

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pelo final da tarde

Na vida
que já não é breve
detida por tantos anos cheios
plenos de tudo o que os homens
têm
em si,
algo ainda faltava
acontecer.
Temos sempre algo que falta
nas coisas simples
nas correcções discretas
dos momentos a mais.

É difícil ter,
por si só,
uma constância decente e irréprochable…

Eu, que nem sei o que digo
ou escrevo,
excito-me assim
à procura de mim
nas palavras que alinhavo à la diable
sem ordem nem destino,
numa espécie de desatino
em que não ligo à forma
ao gesto, ao conteúdo.

Exercício de fim de tarde
e é tudo.

Porto,  82

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Possibilidade

Bem pobre sou eu
quando escrevo,
mais o que quero
que o que, inspirado, 
deixo escorrer da pena.
Sem julgar-me
posso avaliar-me
em “termos”
(como se diz agora)
de veleidade poética.

Valer-nos
de coisas comuns
é coisa fácil e acessível
mas para mim,
como, para alguns,
é impossível.

Monte Real, 1982

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pai III

Os alfinetes de gravata
que a minha Mãe hoje me deu,
eram do meu Pai!
Os alfinetes
do meu Pai
deu-mos a minha Mãe,
hoje.

Foi
assim:

_ Já viste o que tens no teu quarto?

E, eu,
quarenta e dois anos feitos,
fui escada acima
a correr, anelante,
para ver
o que é que tinha
recebido dela.

Ninguém entende.

Nem quem lê
nem quem ouve.

Só quem dá e recebe
pode saber
que não se sente por dentro
como se quer
nem se tem virtude
por querer.

Graças a Deus!

Os alfinetes de gravata
que eram de meu Pai...

São agora meus...

Monte Real,   1982