Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Fernandinha



Os dias que me deixaste,
sozinho
sem a tua companhia,
valeram bem a alegria
de voltar a ver-te.

Agora, ao receber-te,
esqueço
o espaço vazio
que no meu leito mais frio
me recordava de ti.

Hoje, de novo aqui,
sorrio,
esqueço todos os meus cansaços,
abro-te amoroso os braços
e, com alguma saudade ainda,
digo-te
que és bem vinda.

Porto,  79

domingo, 22 de dezembro de 2013

Merecimento



Deus sabe bem
a amargura imensa
que me invade a alma
e a tristeza profunda
que sinto.

Tudo é negro à minha volta
e nem o sorriso inocente
da minha pequenina
filha
me alegra por momentos.

É tão grave esta hora,
estou tão só
que me sinto mal.

Meu Deus
que vida tão atribulada,
que desgostos tão grandes
tens permitido
eu ter.

E,
no entanto,
isto nada é
comparado com o que tenho feito
de mal
e tanto tem sido! 

Não é senão
o justo castigo
que mereço
e reconheço
não estar completo.

Porto,  79

sábado, 21 de dezembro de 2013

Vida



Tenho no meu peito
boas novas
de esperança
e claridade.

São coisas pequenas
que, sem alarde,
me dão conforto.

Plantei há pouco tempo
no meu horto
particular
umas plantas pequeninas
que começam agora
a brotar.

Nisto a esperança
renasce-me
de ver o verde outra vez
e, sem tardança,
reflorir meu passal.

Nele me recolho
de tarde,
quando me rezo
os meus corões
e me entrelaço as mãos
e desfaço os cordões
que me cingem.

Os meus olhos riem
no antegozo
desta novidade.

A minha língua solta-se
e eu canto
com suavidade
o encanto
da vida.

É aqui que estou
todos os dias que tenho
ainda para viver,
junto de mim
sem me repartir
noutro jardim.

Porto,  78

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Pai II



Bem hajas Pai
por:

Nos teres dado vida
e calor.

A esta terra querida
dado valor.

Esta casa familiar
ter construído.

A este numeroso lar
estremecido.

Esta vida de exemplo
ter legado.

Esta família que contemplo
ter liderado.

Este amor enorme
que de ti recebemos
e que está conforme
o que te demos. 

Bem hajas Pai
por mais este Natal
em que na casa de Monte Real
tens juntos todos os teus
unidos na esperança e na fé
que têm no coração bem acesa
de ver-te em breve de pé
tomando o teu lugar à mesa.

Monte Real, Natal de 1978

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Aniversário




Fazer quarenta anos
deve ser
a coisa mais parva que existe
na vida de um homem novo.

Mesmo com todos de volta,
os manos,
os amigos de hoje e ontem,
com tristeza, com chiste,
as coisas não são
como nós pensamos
que são:
banais,
habituais,
rituais.

Nada disso!

É um acto grave
uma circunstância quebrada,
um varrer de vida,
uma alma pesada
e sopesada
na balança do que se foi
do que se virá a ser.

Ninguém pensa
aos quarenta anos
morrer,
mas também,
quando se fazem vinte,
ou só dez,
se pensa nisso.

Não,
não é esse o problema,
não é essa a questão.

O que sucede é mais vasto,
mais complicado.

A gente
sente
o coração
de fora do peito,
batendo num jeito
acelerado
e tenta perceber
se o caminho andado
chegou aqui - ao virar da esquina -
rítmico e igual
ou, ao contrário,
descompassado
e sem valer a pena.

É isto que é grave,
ou essencial:

Saber o bem e o mal
dos quarenta anos vividos.

Sei lá eu quem sou.

Os meus entes mais queridos
que tão perto de mim
pensam em mim,
sabem,
melhor que eu,
quem sou
e o que faço
e
mais,
se o que faço por bem,
ás vezes mal feito,
é em tempo
e a propósito.

Mas... António, sou eu
não são eles, nem podiam ser!

Basta um!

Basta um!

Dá-me tanto trabalho
pensar em mim
e no que valho

(valerei alguma coisa,
terei eu préstimo,
 interesse,
serei só aleivosia,
quimera,
pássaro que nunca poisa,
árvore sem fruto,
água sem corrente,
moinho sem vela,
luz sem fulgor,
adro sem igreja,
coração sem calor,
vontade sem querer?)

Não...
isto, não pode ser!

Este António com quarenta anos
que não conheço
e que, no fundo
não tenho vontade
de conhecer,
não pode julgar-se assim,
sozinho e alarve,
martirizando-se num papel
que não lhe cabe
ou sequer vai bem.

Nada disso interessa a quem vê,
chega,
ou parte
do pé de mim

Querem apenas o pó,
suor,
uma lágrima
(quando for caso disso)
trabalho profícuo.

O resto...

O resto é a vida,
o ter de ser
por não querer
ou poder
ser de outra maneira.

Mais valia
penso eu
(como sempre muito recto)
ter ficado quieto.

Porto, 12 Abril  80

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Aniversário



Estes
são os pobres versos
que faço
com quarenta anos
acabados de fazer.

Quantos anos
quantos cabelos brancos
horas mortas
mas vividas
minuto a minuto.

Quantos sobressaltos
tremores
impotências.

Tantas penitências
contrastes
desvios.

Quantas alegrias
corações loucos
ternuras às mãos cheias.

Tantas teimosias
devaneios
desistências.

Quantas dissensões
intenções
segundos sentidos.
Tantas vezes
sem cumprir
sem dizer
e mentir.

Quero lá saber
se o que escrevo
não tem importância.

Apetece-me escrever
e pronto...
escrevo.

Mas,
que escrevo eu?

Tem isto sentido?

Tem isto razão?

Que quer isto dizer
no fundo?

Suponho eu
que quer dizer simplesmente
a vontade de permanecer acordado
e assistir a essa coisa inerte
e sublime
que é estar vivo.

No fundo,
mas muito no fundo,
quero lá saber do mundo
dos outros
de mim mesmo.

Adiante de mim
não sei o que está,
desconheço o que existe
que estrada devo andar,
que flor terei de colher.

É por tudo isto
que eu sei
que se vivo,
agora, hoje e aqui,
não é por mim
ou por alguém
(mesmo os meus)
é sim
por graça de Deus.

Esta afirmação
que não é futuro
nem pretérito
mas ilação
da total ausência
do meu mérito.

Porto, 12 Abril  80

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Aniversário



Fazer anos, assim, é grave
quando se tem na mão
um estrela candente
um pouco murcha e velha
cortada do espaço sideral
sem emoção.

É triste esta sensação
de encontrar afinal
a face que se assemelha
ao rubro langor poente
que antecede a escuridão.

Fazer anos, assim, é grave!

Não por mim ou para mim
tão pouco sem mim ou comigo
o que é certo é que  o fim
afastar não consigo.

Coisas que a gente sabe
de ciência infusa
perdido o estreito canal
a música a semi-fusa
só resta para nosso mal,
um pouco de luz difusa.

Porto, 11  79

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Experiência



Que culpa tenho eu,
Deus meu,
de ser assim
como sou?

Atrás de mim
deixo sempre um rasto
dolorido.

É descabido
pensar
que sou assim por natureza,
ou que em mim
há algo de errado.

É sem surpresa
que, tempos volvidos,
tudo volta a acontecer,
tudo igual
a momentos já vividos.

Isto passa,
digo eu,
isto passa;
daqui a pouco
é como se nada tivesse acontecido,
só que fico sempre
um pouco mais esclarecido
quanto a homens e a coisas.

Isto, no fim, não vale nada
não,
eu cá nunca aprendo a lição.

Porto,  79

domingo, 15 de dezembro de 2013

Irreverência



Os fantasmas loucos,

os gritos roucos
que aos poucos
me pervertem
e submetem
a uma terrível análise.

Esta diálise
de mim mesmo
que, a esmo,
me vou encrespando
em mares possíveis,
em ondas vulgares,
em alquimias toscas.

Estou de vago,
disponível,
às moscas.

Comigo só trago
o impossível
modo de viver
sem rei nem roque,
espinha dorsal,
altivez que toque
no espaço sideral.
  
Não me vergo nem me curvo,
antes ergo
bem alto, no espaço, a mão direita
fazendo o gesto maldito,
ou, então,
com um e outro braço,
faço
um manguito.

 Porto,  79

sábado, 14 de dezembro de 2013

Não vale a pena



Meu Deus:

Se eu sou como sou
e não como querem que seja
é porque
sou parco
e pobre
e não posso comigo mesmo.

Sem querer
e sem valer
grande coisa
pouco posso desejar
que não tivesse já feito
embora mal.

Porto,  79