Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



sábado, 30 de novembro de 2013

Outra vez...



Novamente me sento e escrevo
palavras soltas que quero dizer
com amor e sinceridade,
olhos limpos,
coração puro
com a simples brevidade
de uma coisa que passa.

Novamente me sento e escrevo
e deixo atrás de mim
os pequenos temores
que me apoquentam
as manchas negras que me invadem
todos os dias que levo.

Sento-me e escrevo assim,
a própria vontade de estar sozinho
e a face limpa de nervuras
que me impedem o caminho
sem deixar
de incomodar
meu coração.

Porto,  78

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Rigor



Nem sempre se escreve
o que se quer
ou deseja.

Quase nunca
se transpira
o suor intimo
da alma insatisfeita.

Raro se dá forma
escrita
ao que se estramente
arquitecta.

Quase nunca
um poeta
é.

Só que
quando se escreve
com fé
se descreve
um pouco a tristeza
e a íntima
pobreza.

Porto,  78

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Inevitabilidade



Não posso acreditar
que este passear
de cá para lá
na vida que levo
seja por acaso.

Acontece
sim
acontece.

Amanhece
e é outro dia
mas eu
que tenho os olhos mortos
da noite que me escureceu
não acredito
em auroras
nem rebates
nem sinais.

Tudo é assim
tal qual
nada mais.

Porto, 78 

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Motivo



Escrever um verso
não é compor
rimar palavra a palavra
o eco de uma disposição
interior.

É antes um deixar a mão
discorrer sem reflexão
em papel branco e puro
qualquer coisa de gráfico
duro
e consistente.

Mente quem disser
que se escreve por querer.

Escrever
é ter a dita
de acabar com cada palavra,
é suicidar-se com a pena
na escrita
da sina rápida e constante
da vida tão curta e leve.

Aqui está
porque se escreve.

Porto,  78

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Meu Pai!

Ali, naquela cama, está um homem
que um dia foi erecto,
forte, corajoso. audaz
carácter solidamente recto
vontade férrea e pertinaz
ali, naquele leito, está esse homem.

Pálida imagem
do que um dia foi
do que, por tantos dias conseguiu

(setenta e nove anos foi quantos serviu
a sua imagem de chefe impoluto)

que foi um chefe, autêntico e verdadeiro
destes todos previamente de luto,
das casas que construiu,
dos filhos que teve,
dos livros que escreveu,
das milhentas árvores que plantou.

Ali, naquele leito, está esse homem
na agonia do golpe que o prostrou,
lutando ainda como sempre lutou
pela vida que agora se lhe nega.

Ali, naquele leito está um homem
subjugado, enfim, pelo peso que carrega
há setenta e nove anos de vida plena
está ali, sem um queixume, sem um ai.
O meu coração amargura-se com a pena
de ver naquele homem, ali, o meu Pai.

Porto, 26 de Julho de  78

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Impassibilidade



O som da musica que oiço
e entendo
como fazendo bem
ao meu estro
ao que dentro de mim
sequestro
todas as tardes.

Frente à lareira
o meu descontentamento
é mais solene
e deixa amargamente coisas poucas
a que comummente
chamo nadas.

Esta musica que não fiz
nem compus hoje de tarde
fica por mim ouvida
gasta e esquecida
de outros ouvidos não tão ávidos
como são estes
que esta tarde
me permanecem impávidos.

Porto,  78

domingo, 24 de novembro de 2013

Sujeição



As quintas particulares
de cada um dos meus patrões,
dão vinho amargo
e pão ázimo.

Nelas me recreio ódios,
cevo tempestades intimas
querelas pessoais que não transmito
sem querer
ou mesmo querendo.

As quintas particulares
dos meus donos e senhores
dão frutos podres
e água salobra.

Nelas me destruo singularmente
sem querer olhar vergéis
ou colinas
plainos ou pinheirais
que não desejo meus
nem hoje nem nunca mais. 

As quintas particulares
dos meus possuidores
dão tudo o que eu não quero
nem posso desejar afinal
porque querê-lo já me fez tanto mal.

Porto,  78

sábado, 23 de novembro de 2013

Estrela



Diz-me onde vais
estrela fulgente
que trajectória fantástica
traças no universo real
que poesia de repente
levantas nos astros
que te rodeiam.

Diz-me tu que sabes tudo
se este querer falar
e não poder
é facto consumado de estar mudo
ou é apenas vontade e querer
não voltar a sofrer.

Sim que eu sofri muito por falar
ouvir contar e dizer
todas as coisas que sujeito
todas as queixas e lágrimas
que trago sufocadas no peito.

Porto,  78

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Portugal VIII



Este País que é meu
e foi levado para tão longe
do sitio onde nasceu
a Fé o Império e outras coisas
importantes e vitais
que ficaram esquecidas
na poeira dos desvarios,
nos sulcos profundos das picadas,
nas profundezas dos rios,
nas águas turvas afogadas.

Este País que é meu
só porque aqui nasci
e me deram alento.

Aqui onde o primeiro lamento
de homem vivo soltei
está agora assim derretido
neste cadinho de coisas loucas,
neste grito que milhares de bocas
soltam constantemente.

Este País que ainda quero
mas em que desespero.

Porto,  78

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Sangria



Pronto
fechou, acabei
fiz o meu exercício
escalpelizei-me
e dei
cabo de mim.

Neste açougue particular
que é este papel em que escrevo
e me descrevo,
cumpri o ritual
da minha macumba
particularíssima.

Quer lá saber
que isto tudo não sirva
para coisíssima
nenhuma.

Foi
e é
uma consoada
da minha própria
missa negra
em que me dou o direito de sacerdote e vitima.

Assopro,
apago as velas todas
e nestas fumaças
que no ar espiralam
vão os perfumes raros
que os meus desejos exalam.

Trapaças
truques
artimanhas
coisas finíssimas tamanhas
de que me sirvo ás vezes
para me enganar
e sacrificar
no meu altar
particular.

Como não tenho padrinhos
nem ajudantes
nem praticantes
para iniciar
isto fica por aqui
sem crédito e sem consequência.

É um caso de consciência
intima e visceral.

Tenho de sangrar-me no meu vaso
queimar-me na minha pira
esfumar-me no meu incenso.

E,
se tudo isto
parece (e talvez seja) um contra-senso
ou, pior ainda, loucura
manda a decência
consequente
que fique mal visto
e seja olhado
suspeitosamente.

Porto,  78

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Pecadilho



Basto-me a mim próprio
como narcisisticamente
me imponho
espelhado em mim.

É triste pecadilho
de horas mortas
em que tristemente
me encontro sozinho
pensando que penso bem
sem saber em quê
ou em quem.

É por isto que eu
sou como sou
nem me basto
nem me uso
completamente
e o abuso
que comummente
faço de mim mesmo
é uma violentação
antiga e frustrada
de quem nunca foi capaz
de escolher e andar
a sua própria e escolhida
estrada
por mais estreita e sofrida
que fosse.
E esta é a verdade
nua
crua
e dormente.

O resto...
o resto são coisas vãs
que digo e escrevo
para me enganar
ou tentar
fazê-lo.

Sou louco sem selo
sem carimbo ou rótulo
nem sequer oficial reconhecimento
do pouco merecimento
que tem isto tudo.

Se escrevo
é porque não posso
vulgarmente
exprimir
de outra forma constante
a fórmula pensante
de um turbilhão vivo
minuto a minuto
em continuo sobressalto
que me cansa e envelhece
prematuramente.

António, meu amigo,
esquece
quem és para onde vais
onde longe tentas ir
deixa-te simplesmente ficar
assim mais ou menos
a dormir
sem tentar
voar.

Não cair,
pelo menos
não tombar de muito alto,
tem de ser  importante.

Lá fora...

Lá fora é mundo, é gente,
comboios, rios e pássaros,
políticas coisas e loisas...

Deixa António, deixa lá.

Eu digo isto e escrevo
eu sei lá
porquê...

Não sinto que seja assim
não quero que por mim
não se faça
não aconteça
não tenha fim
não amanheça
não de não.

Mas, se eu puder,
ou melhor,
se eu de facto quiser,
com ou sem amor,
hei-de amanhecer
e iluminar
e ler
para ensinar
como sou e penso.

Se for sequer
um pouco interessante
isso,
quer dizer,
se me lerem
ou ouvirem
nem que seja só
um bocadinho,
então eu sei,
que nunca mais
estarei sozinho.

Porto,  78

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Ser e não ser



Sou por ser
e não por dever
tenho por oferta
e não por cobertura
destino de sina
que não atina
nem rima.

Sou como sou
fui como vou
passam e estou
vejo-me no que passou
e é tudo.

Fico
cego
mudo
e mouco.

Mas nego
que isto tudo
seja de louco.

Porto,  78

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Engano



Nesta lareira que me dá calor
encontro o som que me acompanha
e me dá virtude que não me deixa
sem ver e sem falar
naquilo que quero deixar.

Ai que leve me sinto
nesta guerra fugaz
em que me escrevo e minto
do muito que sou capaz
de falar e contar
sem dizer nada de novo
ou que não saiba já.

Palavras alinhadas a eito
sem forma, cuidado ou jeito
ou preocupação de ser.

Poeta sou por acaso
não por feliz obrigação
que não posso como queria
fazer disto vocação.

Tenho outro fim, outra meta
que não posso perder de vista
em qualquer esteira de cometa
que passe fulgente
no meu espaço limitado
e deixe num repente
todo o meu ser iluminado.

Sou pouco profundo afinal
pouco denso ou substancial
vogo muito ao sabor das ondas
que me deixam coisinhas poucas
que não filtro nem bebo
com medo de indigestão.

Sou anémona errantemente morta
que morro todas as manhãs
nas praias nuas das margens
da minha poesia amorfa.

Tudo isto não tem sentido
e é também um pouco
louco.

Fico calado portanto
que mais não posso nem sei
do que tinha tudo dei,
do que me resta e guardo
hei-de fazer um leilão
em feira que não preste
para fazer grande negócio
nem para consumir ócio
ou gastar uma ilusão.

Sou assim penso eu
e, no fim, engano-me, talvez,
mas escrevo quer queira
quer não.

Seja desta maneira
mais digno de compaixão.

Porto,   78