Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Amor da minha vida II



Não te escrevo poesia
para te deleitar
ou acarinhar
os meus próprios sentimentos.

Em doze anos, dia a dia,
dediquei-me a acalentar
e a aumentar
os nossos simples entendimentos.

Por estranha alquimia
do processo de amar
e respeitar os individuais pensamentos.

Não necessito todavia
de escrever ou de cantar
e fazer constar
nossos íntimos momentos.

Porto,  78

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Brincadeiras



Ajeitando o boné no alto da cabeça, o chefe Fagundes disse com ar de poucos amigos:
_ Você, seu… seu… pensa que eu estou para brincadeiras? Olhe que isto é a sério, está a perceber? Muito sério mesmo! Você está metido num sarilho dos grandes e ou acaba com o ‘faz de conta’ ou eu meto-o no calabouço e só de lá sai daqui a vinte e quatro horas! Está a perceber seu… seu…
O outro estava a perceber de maneira que resolveu adoptar uma atitude mais prudente.
_ Senhor chefe Fagundes, caramba! Faz favor de desculpar se me entendeu mal. Longe de mim de brincar com coisas sérias, mas, caramba chefe… quando me está acusar de bater na minha mulher… olhe… dá-me vontade de rir.
_ Ai dá? E pode dizer-me onde é que está a graça, seu… seu…
_ Pois… a graça está em que o senhor chefe não conhece a minha mulher, isto de certeza, porque se a conhecesse…
_ Ora essa! Então os vizinhos não se vieram queixar da barulheira, da pancadaria em sua casa?
_ Pode ser, senhor chefe, mas garanto-lhe que eu não estava a bater na minha mulher.
_ Então como é? Era a sua mulher que lhe estava a bater a si?
_ Pois claro, é isso mesmo! O Senhor chefe não faz ideia o que é aquilo! Não é uma mulher, é um tanque de guerra, uma Chaimite, um cilindro compressor. Pesa quase cento e vinte quilos, tem uns braços como presuntos e umas mãos que parecem pás de forno de cozer pão. Quando lhe dá na moina, o que é frequente, é capaz de me arriar forte e feio e, eu, se não fujo, apanho pela medida grande.
O chefe Fagundes olhou bem o homem que tinha à sua frente do lado de lá do balcão da Esquadra. Ajeitando, outra vez, o boné no alto da cabeça, [1] atentou na fraca figura do sujeito: magrinho como um espeto, quando muito um metro e sessenta e cinco de altura, enfim… um dez reis de gente.
O sujeito sacou da carteira de plástico azul uma fotografia do casamento. Nela estavam os noivos – ele e a sua amada – à saída da Igreja. Parecia estar a ver a fotografia de um guarda-fatos e de um cabide…
_ Mas… oiça lá! Há quanto tempo foi isto?
_ Já lá vão doze tristes penosos anos, chefe Fagundes! Doze!!! Imagine se ela era assim nessa altura o que é agora passado todo este tempo sempre a comer torresmos e a empanturrar-se fritos!!!

_ Homem… você desculpe… eu não sabia… vá-se lá embora… não… espere aí, eu vou consigo, é só despir a farda e convido-o para beber uns copos que, você seu… seu… bem merece.

(ama, Porto, 2013)




[1] Isto compreende-se porque o boné era de tamanho duas medidas abaixo do que deveria ser.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Amor da minha vida I



Não te amo
por acaso
nem é impunemente
que te chamo
minha.

Diariamente,
Fernandinha,
vivo a nossa vida
maduramente
como coisa apetecida.

Porto,  78

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Indiferença



Quero lá saber
de mim não gostam
e quando dizem que sim
que amam
e sentem por mim
algum, pouco, amor,
eu acredito triunfante
que sou grande,
O MAIOR!

Não é assim que chego
seja a que parte for
e constantemente nego
que não seja isto a dor
e sim o prazer
de não ter
amor.

Porto,  78

Retribuição



Não quero que sejas
para mim
a amante satisfeita
e sei que não desejas
ter por fim
uma união perfeita.

Quero antes que me retribuas
tudo quanto te fiz
das coisas que são tuas
e que há doze anos quis.

Porto,  78

domingo, 27 de outubro de 2013

Derrota



Sonho inconstante e fácil
diariamente vivido
sumamente arquitectado.

Tudo é vão e esfumado
na têmpera dos dias passados
sem acontecer nada de novo.

Dos inúteis esforços que movo
para me ultrapassar
não consigo colher frutos
que satisfaçam meu desejo.

Aproveito qualquer ensejo
de estudar novas hipóteses
que incansavelmente proponho
ao meu espirito cansado.

Acabo aqui derrotado
dentro do meu próprio sonho
e sem descobrir o que fazer
para mudar este viver.

Porto,  78

sábado, 26 de outubro de 2013

Doçura



É a hora
para que a minha alma
de fora,
exprima outra vez
o ultimo pensamento.

É agora
que me invade a calma
e tenho respostas aos porquês
do comum sentimento
que nos mantém unidos.

E, por ora,
não necessito dizer mais nada
já que todos os sentidos
me dizem o que não escondo.

(E, por ora,
mais não quero dizer
já que todos os meus sentidos
que sinto por dentro a vibrar
me impelem a escrever
o doce verbo amar).

Porto,  78

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Escolha



Versos curtos e fáceis
posso escrever sem parar
sem que consiga satisfazer
minha ânsia de escutar
algo de novo e diferente
nas próprias palavras que escrevo.

Mas, teimoso, sigo em frente
tentando pagar o que devo
a mim próprio de saudade
por aquilo que um dia fui
jovem sem rancor ou maldade
puro, dinâmico e estimado.

Não que me não queiram já
estando eu assim modificado,
e a prova é que ainda está
mantendo-se firme a meu lado
quem um dia me escolheu.

(ou... quem fez a escolha fui eu?)

Porto,  78

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Futuro

É assim o futuro
dia a dia construído
no passo dado
no gesto desabrido
e deslocado
de quem se debate
na confusão
do querer
e do não querer
abrir a mão
ao que vier.

Porto,  78

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Dor, Grito, Peso.

A solidão dolente
de uma vida
vivida
amargamente
sem futuro que se deseje intimamente.

A pobreza gritante
de um destino
em desatino
constante
sem recurso que se anteveja diante.

A tristeza pesada
de uma sina
que não atina
nada
que seja coisa verdadeiramente desejada.

Porto,  78

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Esta vida



Sei lá que mais desejar
para que longes terras ir
donde me virá o alento
para assim continuar
cada dia que há-de vir
mais pobre e mais confuso
que aquele que o antecedeu.

Bem sei que sou obtuso
em querer assim modificar
o que tenho por destino meu,
não tenho senão que aceitar
esta vida que Deus me deu.

Porto,  78

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Projectos, Quimeras, Sonhos.

Projectos
leva-os o vento
que carrega as nuvens
do meu descontentamento.

Quimeras
diluem-se no tempo
assassino implacável
do meu fantasioso pensamento.

Sonhos
esbatem-se no dia
que nasce todas as manhãs
sem o meu consentimento.

Porto,  78

domingo, 20 de outubro de 2013

Paixão



Já passavam vinte minutos da meia-noite e ela ainda não tinha aparecido. Já estava habituado aos atrasos constantes mas, desta vez, era um bocado demais. Tinham combinado encontrar-se às onze menos um quarto.
Seria a última vez! Estava farto!
Se continuava ali enregelado no passeio em frente da cafetaria à muito fechada, era apenas para lhe dizer que tudo acabara entre eles.
Tinha o discurso bem ensaiado, aliás, só meia dúzia de palavras que, tentaria, soassem calmas, decididas, finais.

Aquela estranha atracção que sentia estava a matá-lo aos poucos. Quase não comia, passava as noites em claro, não conseguia concentrar-se no trabalho, olhava-se no espelho de manhã quando se barbeava, e via o ar macilento, as faces encovadas, os círculos negros à volta dos olhos.
Estava um ‘caco’!
E, tudo isto, porquê?
Sabia a resposta mas teimava em negar-se a reconhecê-la; durante os quatro meses que aquele suplício já levava, a sua vida dera uma volta de cento e oitenta graus.
Não se revia no homem que se habituara a ser, que julgara ser, seguro de si, convicções firmes, ideias claras, decisões rápidas, sempre seguro do caminho a seguir em qualquer circunstância.
Claro, já ouvira falar de paixões que se tornam doentias e de tal forma avassaladoras que as pessoas se transformam por completo mas, só agora, que já passavam vinte minutos da meia-noite e ela ainda não tinha aparecido, é que descobria ser exactamente isso mesmo que lhe acontecera.
Mentalmente revia como se tinham conhecido no intervalo de uma sessão de teatro e uma troca de olhares rápido tivera tantas consequências.
Amara-a instantaneamente como se tivesse descoberto a mulher da sua vida e, passados poucos dias dissera-lho.
Ela rira-se sem grande convicção como se não estivesse habituada a ouvir declarações tão ardorosas e íntimas.
Nos encontros seguintes a que comparecera sempre com consideráveis atrasos, a sua atitude de alguma incredulidade ou, talvez, desconfiança não mudara. Repetira vezes sem conto que as suas intenções eram as melhores, as mais sérias e correctas mas os encontros acabavam sempre da mesma forma, ela falando de um compromisso urgente e uma despedida algo fria e fugaz.
Não! Isto tinha de acabar e de uma vez por todas.
Olhou uma vez mais o relógio. Já passava da uma da manhã!

A umas dezenas de metros ouviu um automóvel fazer uma travagem brusca seguida de um pequeno grito meio abafado. Correu a ver o que se passava.

Meio enrolada sobre si mesma, sangrando abundantemente de várias escoriações, sobretudo uma na cabeça, sem dar acordo, estava a sua amada.
O condutor do automóvel que a atropelara falava nervosa mente pelo telemóvel chamando a Polícia, o INEM.
Quando se aproximou do corpo – a pobre rapariga era já um cadáver – reparou em algo que o fez parar de chofre.

Completamente separado do corpo um braço inteiro com mão e tudo, jazia a uns metros mas, estranhamente, não sangrava, antes apresentava um aspecto absolutamente normal.

Ficou mesmerizado assistindo à chegada da ambulância, a recolha do cadáver e, finalmente da prótese perfeita que ela nunca revelara ter.

(ama, 2013)


sábado, 19 de outubro de 2013

Triste vida

Triste vida esta
em que nem odeio
nada
nem consigo ter raiva
nem amargor.

Conformismo exagerado
numa esperança diária
numa renovação constante
o que nunca acontece
o que nunca vem.

E se vier um dia
quando já for velho
e já não houver remédio
mesmo no fim
será para mim
um prémio.

Porto,  78

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Tentativa

Não posso
de maneira nenhuma
escrever para outros
(seja quem for).

Não me entenderão
e eu ficarei preocupado
com isso.

As coisas são o que são,
as palavras têm um significado
que não mente
e eu seria prejudicado
ao ser lido vulgarmente.

Tenho uma certa lentidão
de entendimento
e só agora começo a compreender
a limitação
da minha poesia.

Isto são coisas minhas
que não interessam a ninguém.

Se um dia
porém,
se quiser um historial
do que fiz,
do que pensei,
não dará muito trabalho
encontrar-me aos bocadinhos
repartido em frases soltas
um pouco tolas
algo vaidosas
muito convencidas.

Escrevo porque me apetece
digo o que quero
e como quero
e acho que ninguém
tem nada com isso.

Influências estranhas
sei lá,
um Régio, um Carneiro,
um Nobre, talvez.

Por amor de Deus!

Eu tento ser verdadeiro!

Porto,  78

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Asas

Tivesse eu asas
para voar sozinho
sem ajudas
nem timoneiros,
com ventos fortes
ou favoráveis,
voar céus fora
da minha mente atribulada.

Tivesse eu asas,
asas de nada
só com vontade de voar
partir de vez e chegar
onde quis sempre ir.

Tivesse eu asas
e o meu infinito
seria aqui hoje e agora
juntinho de mim mesmo
sem espaços nem áreas
aqui, fechado na mão
junto do meu intelectual
coração.

Tivesse eu asas
para voar baixinho
junto às ondas do meu mar
particular
salpicado pelas ondas bravas
sem me molhar
na espuma do meu ser.

Tivesse eu asas...

Por as não ter
é que fico aqui amarrado
detestavelmente parado
sem poder
voar.

Porto,  78

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Reflexo

De agora em diante,
faço questão,
todos os meses,
hei-de escrever um verso,
uma confissão,
um escorrer do estro
numa folha de papel
em que a mão febril
deixará em tropel
ideias, pecados e coisas vãs
que me interessa legar
a mim.

O meu espólio escrito
será assim vasto
e consequente
com a vida que levei
e levo.

Morrerei
mas de mim ficará
a pálida reflexão
de uma vaga e triste
inexactidão.

Porto,  78

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Exercício simples

Vamos lá escrever um bocado
penso eu satisfeito,
como se isto de escrever
fosse um jeito
natural e fácil
que nada custasse pôr em marcha.

É assim como uma máquina
sofisticada
cara
onde passam em fita gravada
as ideias,
as coisas,
as quiméricas previsões
de amanhã.

Não escrevo nada, não,
exercito apenas
a minha mão.

Porto,  78

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Verdade e mentira

Não é possível
escrever muito
e muito menos escrever bem.

Isto de escrever
não é coisa rítmica
ou repetida,
é antes acto renovado
e sentidamente necessário
todas as vezes que falta
algo no conjunto
das metafísicas que nos compõem.

É um acto puro
um pouco insensato
e desculpávelmente absorvente.

Nele se é a um tempo
duro
e timorato,
se diz a verdade
e se mente.

Porto,  78