Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Comunhão Solene

Hoje, nove de Junho,
Jesus está presente na minha casa.

No Corpo físico,
na Alma empírica
na Realidade concreta.

A Marta e a Mafalda
são hoje sacrários
vivos e puros
que eu sinto e vibro
em alegria familiar.

A minha Marta
a minha Mafalda
o meu Jesus
que em mim renasce
no corpo e no espírito
das minhas filhas queridas.

Que tenha eu e tu, Fernandinha,
a graça e o merecimento
desta dádiva solene e importante
deste Hóspede de cerimónia suprema
que hoje nos visita e cumprimenta
inundando de luz o nosso lar.

Visita de que a Marta e a Mafalda
hão-de garantir o ficar.

Porto, 77

domingo, 29 de setembro de 2013

Sexta-Feira Santa

Tu, Senhor,
morresTe há pouco,
no Calvário, na Cruz
redimindo-me a mim.

O raio de luz
que me atrai neste momento
tem o seu nascimento
neste pobre coração
amargurado
pelo sofrimento
desta hora.

Quem sou,
o que tenho feito,
o que farei ainda.

Estas interrogações
a que não encontro resposta
têm
doloroso significado
esta Sexta Feira.

Sou culpado
de tudo.

Da ambição,
do orgulho,
da falta de generosidade,
da vaidade
de ser assim.

Este sofrimento,
meu Deus,
que me invade a alma
é quase insuportável
e insano.

Quem, melhor que Tu,
avaliará esta verdade
e se o que sinto
é na realidade
exame de consciência,
profundidade,
ou se ainda minto,
tentando teatralmente
impingir-me arrependido.

Do mal que fiz
peço perdão,
do que, mal de mim,
vier a praticar
peço já,
benevolência.

Não me faltes,
não me abandones,
na clemência
da Tua Paixão
encontrarás para mim
perdão
e caridade.

Eu me confesso,
sou como sou
serei como Tu quiseres
que seja.

No futuro
que é amanhã
dá-me apoio
forte e firme,
refúgio e consolação,
eu to peço e imploro
nesta dolorosa
Sexta Feira da Paixão.

Porto,  77

sábado, 28 de setembro de 2013

Agonia

Invade-me a alma
um sofrimento novo
uma chama que não se extingue
um estar vivo por não querer
uma sofreguidão de ar puro
uma vastidão de ser
imensamente.

Sou eu António
que para meu mal
me sinto e me toco
sou eu, afinal,
quem me suicido
diariamente
impuro,
insensato.

Sou eu quem cabe dentro de mim
quem satisfaz completamente por fim
sofrendo e chorando de todas as maneiras
quem bebe este cálice amargurado
neste triste e soturno Jardim das Oliveiras.

Porto,  77

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Certeza

Não posso escrever mais
o coração não manda
e a mente não quer.
A mão não obedece
a temperatura sobe
o ar aquece
e eu sufoco.

Sofro, comummente, igual.

Dou-me por acaso
e, para meu mal,
sem merecimento.

Deus me acompanha
e dá,
amor.

Tudo isto é pobre
e sem sentido
e eu não posso
nem quero
ser ouvido, lido
escutado.

Quero só ser apoiado
por Aquele a Quem pertenço
o meu Senhor e Rei
donde venho
e para onde
finalmente
irei.

Porto,  77

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Exame

Nunca será inútil
escrever coisas de nós
mesmo
que não sejam lisonjeiras.

Quem vier depois
e as encontrar
perdidas no meio dos despojos,
recreará o espírito
lendo e meditando.

Talvez até
com admiração
constate uma verdade:

Não é em vão que se escreve;
não é por veleidade
também.

Talvez um hábito
ou talvez não.

Mas o que interessa
a essência,
é que quem escreve
faz quase sempre
exame de consciência.

Porto,  77

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Diferença

É porque na realidade
não tenho jeito
ou a destreza
que eu consigo com o que escrevo
satisfazer-me a mim próprio.

Sou comum,
normal,
apaziguador das minhas tempestades
íntimas.

Sou diferente
todavia,
da maravilhosa grandeza d'alma
dos que sentem na pena
o vibrátil desejo
incontível
de escrever
para o futuro.

Porto,  77

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Portugal III

Da suprema vergonha
que diariamente
para mim constitui,
o viver
e ser
este País que é meu.

Destes homens podres
que todas as horas
conspiram
e estupidamente
me traem as esperanças.

Dos amigos feridos
na carne e na alma
só por serem diferentes
e mais ousados.

De tudo isto
que é tétrico e esgotante
tão absurdo
que é quase irreal
quando apenas a amargura
de ser Portugal
o meu País.

Dê-me Deus a força
de não olhar para trás,
dê-me a mão o gesto
de arrebatar as gentes,
dê-me o pensamento
o ideário
para arrastar multidões,
dê-me, eu próprio,
a mim mesmo,
a necessidade de continuar vivo
para assistir
finalmente,
à morte irremediável
desta loucura colectiva
e irrecuperável.

Porto,  77

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Inutilidade

Não me considero
tão importante
que imponha uma obra.

Julgo no entanto
que devo
deixar algo de mim
aos que por mim
se interessam.

Quanto mais não seja
para que se veja
que sempre
sempre
me confessei.

Foi um hábito
e é uma regra,
assim
posso afirmar
que me conheço
inteiramente.

Deixo estes escritos
para que achem bem
e com valor.

Alguns são belos
outros têm calor
mas todos
são verdadeiros
e, nisto,
está o seu interesse.

Qualquer psicólogo
profissional
ou familiar
poderá sem receio
afirmar:

Isto
é o António.

Isto,
sou eu
e eu sei
que o sou
e é por isso
que eu lhes dou
tanto valor.

O que eu valho
está aqui,
é papel,
é escrita,
é frágil
e talvez fútil,
mas não será
com certeza
inútil.

Stº Tirso,  72

domingo, 22 de setembro de 2013

Portugal II

Borraram-me a cara
de alvaiade,
carcomiram-me a farda velha
gastaram-me as ilusões.

Cuspiram-me nojo
ódio e desfortuna
apalparam-me o cérebro
varreram-me a esperança.

Despedaçaram-me a memória
pisaram-me os pendões
estafaram-me os músculos
válidos.

Cegaram os olhos
e os membros esquálidos
já não servem.

Queimaram a minha raiz
destruíram
envergonharam
traíram
o meu País.

Porto,  77

sábado, 21 de setembro de 2013

Acidente

Foi assim
brutal e rápido
como um raio fulgente.

Dei por mim
e não era eu.

Onde estava ?

Que aconteceu?

Como?

Como foi?

Perguntas insatisfeitas
a que não tinha resposta

(a que não tenho resposta).

Meio latente
em mim
permanece a dúvida
da suprema vitória.

O preço de estar vivo,
a troca de não ter entrado
na Permanente Glória
foi, suponho, sem alegria,
a vida cortada cerce
do João Maria.

Porto,  77

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Incapacidade

É apenas
por não ser capaz
que eu não escrevo como queria.

Nada me detém
nem a mão,
nem o espírito.

Só a habilidade tacanha
o inconformado disparate
do meu estro bizarro.

É assim
que a minha poesia
como o fumo de um cigarro
se desvanece
no ar
e se esquece
de permanecer,
ficar.

Porto,  77

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Porque é que se escreve?

Escreve-se porquê
ou para quê?

Será um devaneio
apenas,
uma fuga rebuscada
no âmago de um ser,
uma habilidade
psíquica de pessoa só
no seio da multidão?

Será um grito de alarme
contra si próprio,
quem sente desvanecer
o espirito ou o estro
e se confundem
em trevas
seus pensamentos?

Será uma convulsão
uma forma frenética
de provar que se vive,
uma expressão
facilitada
por circunstâncias especiais
de importância própria
e com fundamento
particular?

Será apenas,
por breves espaços,
a procura insistente
de algo mais duradoiro
que permaneça e fique,
reste,
no fim de tudo
e para alem de tudo?

Será quebranto
de uma mente cansada,
uma asa quebrada,
o fim de um canto,
uma virtude
ou, simplesmente,
estar-se um pouco
cansado e farto
de solitude?

Escrever será
mecânico e habitual
acto,
programado ritual
de facto,
expectante existência
própria, ou, simplesmente,
uma insistência
de um homem que tenta
entrar
dentro de si próprio
sem sangrar?

Porto,  77

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sei lá porque escrevo!

Sei lá porque escrevo
e se o que escrevo
é fundamental.

Razões profundas,
empíricas,
cósmicas,
fazer da minha própria vida
em cenas satíricas
elevadas,
sem interesse pessoal.

Soa-me mal
escrever sozinho,
preferia ter-me a mim
próprio
a meu lado constantemente.

Assim,
separado diariamente
de mim mesmo,
não tenho alternativa
senão escrever
para chegar ao ponto final
de me esquecer
e  um de mim
acabar mal.

Vendo-me como sou,
sem máscaras,
sem disfarces,
sem possibilidades
ou recursos, na demagógica atitude
de quem já teve
e perdeu,
recusar-me dentro
dos meus limites
como quem já morreu.

Porto,  77