Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



quarta-feira, 31 de julho de 2013

Recomeçar?

Queria hoje,
não sei porquê
ou para quê,
deixar-me de evasivas
e pôr as coisas
a claro,
às abertas,
escancaradas.

As patacoadas
que tenho impingido
aqui
e ali
não deixam ficar quietas
as fumaças de alguém
que nunca fui.

É sem querer
que me confesso
e que talvez
me deixo examinar
e, completamente nu
suplico
que me vistam
outra vez.

Lisboa,  67

terça-feira, 30 de julho de 2013

Não sei nada

Sei lá
que mãos tristes
pediram esmola por mim
ou para mim
em sítios escuros.

Sei lá
que lágrimas se choraram
por olhos doces
e compassivos
ternos
mas obscuros.

Sei lá,
meu Deus,
quem deixou no meu peito
este langor dormente
de ser quem sou
assim, sem jeito,
sem vontade
ou querer.

Sei lá
tudo quanto me pergunto
e que hoje,
passado tanto tempo,
me interrogo
e fico indeciso.

Sei lá
que diferenças sinto
no ambiente próprio
ou circunstancial
em que uma mão
acaricia
e deixa ficar ternura
e amor.

Sei lá
sem me dar conta
do que sou
ou para que sou.

Sei lá
quem no meu caminho
de repente,
por isto ou aquilo
de quietude e paz
de amor por mim
e sentimentos de benquisto.

Sei lá
porque afinal
sei
que vivo
amo
e existo
realmente.

Sei lá
que isso é que é real
e importa
finalmente.

Lisboa,  67

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Viagem.

Tenho algumas coisas
de que não preciso
que me não fazem falta
nem quero para a viagem.

Sei lá onde guardá-las
ou deitá-las fora,
ao mar
ou para a rua.

Não quero parecer
perdulário
ou importante
ao ponto de não querer
mais que poucas coisas;
quero apenas
ficar com alguns defeitos
para, assim,
me ser mais fácil
conhecê-los e aproveitá-los
e, isto,
no fim,
é apenas
comodidade.

Ambriz,  64

domingo, 28 de julho de 2013

Se eu fosse outro!

Fora eu outro
que não eu,
e já esta pena
não corria assim.

Eu mesmo
tenho pena de mim
e isto
é um sentimento já antigo
até me faz mal.

Soubera eu escrever
e não sei
se aproveitaria melhor
tudo o que hoje
me escapa miseravelmente.

Se afinal,
sendo eu isto somente
nada mais posso,
a nada mais sou obrigado,
nem pretendo impor-me
quaisquer outras regras.

Assim,
acabou-se o estro, a musa e o verso,
calo-me e não me escuto,
esqueço os dias que vivi
e, pronto,
findei,
acabei,
morri.

Ambriz,  64

sábado, 27 de julho de 2013

Insistência

Há tanto tempo
que não escrevo
que não sei já
nem a forma
nem o gesto
de um verso.

Aliás que importa,
falhei como poeta
nem as musas
me abrirão jamais a porta.

Porquê insistir neste ramo
se sei que nada
posso valer.

Vou mudar definitivamente,
explorar-me noutro campo
e, assim, talvez,
me convença inteiramente
que não sirvo como poeta,
ou escrivão,
ou alinhador de frases
ocas e vazias,
sem sentido ou ritmo
que nada valem
ou são alguma coisa.

Ambriz,  64

sexta-feira, 26 de julho de 2013

(Em memória do m. Comandante e do Cap. Boura Ferreira, abatidos pelo enimigo, encontrando assim, a Morte e a Glória.)

Sem dúvida
que a meu lado
as pedras soltas
dos muros caídos
começam já
a cobrir-se de musgos,
e pós das estradas.

Sem dúvida
que muitos dias já passaram
desde aquele dia
derradeiro.

Lá...
foi o FIM,
a META,
o HORIZONTE.

Meus pobres passos perdidos
não sei onde
nem porquê,
guiados não sei por quem,
lá ficaram
também.

A Morte
é sempre a ultima
visita
desta estranha cerimónia
para me fiz convidado.

Os dedos esguios
estendidos para o Céu
travaram de chofre
a rota,
o caminho.

Tinham eles
que sei eu,
restos de esperanças
ou, em ardente cadinho,
pedaços de Glória.

Mas, da dádiva
sangrenta e fera,
ficou apenas a verdade:

Os restos informes dos que
a ultima estrada andaram
e, pela própria virtude
dela se libertaram
legando-me apenas a saudade.

Ambriz,  64

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O que quero dizer...

Os dias passam
sem importância
e com eles
vão bocados de mim.

Como uma cadeia
as coisas sucedem-se
e mantêm-me amarrado
afastando-me ao mesmo tempo
que se distanciam.

As coisas
etc. e tal.

Até eu, não passo
para meu mal,
de qualquer coisa,
sei lá,
por exemplo:

(era o que faltava,
eu dar exemplos de mim,
pois se eu sou único,
pelo menos
ainda não me encontrei
em parte nenhuma
e me disse:

"Tem graça,
como eu sou parecido comigo..."

Alem disso
era estúpido,
não tinha
nem pés
nem cabeça
assim,
fico mais satisfeito
por estar quieto
sem andar por aí
de peito feito,
anelante
e estúpido
à procura de mim.)

Lembra-me a mitologia,
a gramática
e, até,

(engraçado)

a pacata e sagaz ciência
do "foge que te agarro".

Assim, chego ao momento,
dramático
e aproveitável,
em que fico só eu
sem mais nada
que eu mesmo.

O que quer dizer
NADA!

Ambriz,  64

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Saudades!

Passou mais um dia
e o estendal inútil
continua na corda suja
da vida estúpida.

Estou “c'oa neura"
digo eu,
para justificar atitudes.

Eu sei que, afinal,
a angustia
e este estranho nó no peito
não é senão saudade.

Saudade de ti
que não sei quem és
nem a quem pertences
por hora,
mas que sei,
no espaço
esperas por mim
para seres possuída.

Saudade de tudo quanto amo
e como amo!
e que tão longe
vive em mim

(coisa que julgara impossível)

Saudade de mim mesmo
e do que fui
daquilo que era.

Saudade de nada também
já que a saudade
é apenas
a louca veleidade
de reter
na palavra
e no gesto,
a migalha
o resto
da mesa do banquete passado.

Outro repasto se oferece
e eu nem conheço o anfitrião,
sei apenas
que os criados,
graves e distintos,
vão servindo pratos variados:

Aqui e acolá
manchas na toalha
de que não adivinho
a cor.

Jantar estranho
que não é de cerimónia.

Heis-me aqui:

Eu sei estar à mesa,
penso eu,
mas, por vezes,
pesadelo,
abandono a posição correcta
e, então,
toda a gente repara.
Estranha gente
que dá a impressão,
talvez falsa,
que está à vontade.

Só eu
que diabo,
me sinto inevitavelmente,
fatalmente,
a mais.

Mas vá lá eu
levantar-me por momentos...

Nem me deixam
aproximar da porta.

Devem ter medo
que eu fuja
e que não fique para a sobremesa.

Apenas posso ver
sem tocar,
as curiosidades
que estão expostas.

E eu estou farto,
empanturrado,
não tenho
nem vontade
nem paciência
queria ir-me embora,
sair,
tomar ar,
o jardim...

lá fora...
o céu...
e,
possivelmente,
eu mesmo...

Ambriz,  64

terça-feira, 23 de julho de 2013

Eu... sou assim!

Insistentemente
recordo-me do que não sou
e do que (Deus me ajude)
quereria alguma vez
vir a ser:

Frio e impessoal
impávido
estático.

Não sou, para meu mal,
e deste fadário assim
se construiu afinal
a segunda parte de mim.

Que eu
sou dois,
quer dizer,
não sei bem o que sou
e ando à minha procura
sem me encontrar
já lá vão anos
(trinta e sete!).

É pena
que assim seja,
desafortunado indiscreto
do meu próprio ser.

Sou como sou
e para onde vou
sirvo assim.

Sempre quero ver,
quando morrer,
se conseguem dizer
de mim:

- O António ?

Bom...

O António…

era assim...

Porto,  77

Sinfonia (outra vez)

Passados os dias
de solene e estudada
exaltação febril,
de novo a calma
rotineira
toma conta de mim.

A minha alma
em manhãs de sol
novamente se impõe
e eu sei que a sinfonia
do não saber o que fazer
e do estar a mais
e do sentir-me só
vai começar outra vez.

Atenção tenho eu,
os olhos postos,
nas pequenas batutas
que com as mãos estáticas
e expressões seráficas
os meus maestros
particulares
empunham atenciosos.

Recosto-me na minha cadeira
e, serenamente,
confio em mim
e no meu sentido musical,
que saberei,
a devido tempo,
apontar o que estiver mal.

As minhas orquestras
contratadas em noites sós,
vão começar...

Aliso o vinco das calças
do meu smoking novo,
o meu rosto inexpressivo
é uma máscara.

A meu lado não há ninguém
e, atrás de mim,
também.

A sala é vasta
mas a acústica é má,
nos camarotes,
solenes e discretos,
estão os meus convidados
habituais.

Apagam-se as luzes
e a coisa começa:

Sons afora, musica sem notas
nem semifusas,
em ondas estranhas
e evoluções confusas
que não consigo determinar.

Há falta de instrumentos,
eu levanto-me,
bato as palmas,
mando parar.
E é então que tudo se complica:
ninguém me ouve,
das portas dos lados,
do fundo dos bastidores,
da boca de cena,
saem músicos
e atacam com frenesim
a sinfonia que eu mais detesto:

"CHEGOU O TEU FIM"

E, depois,
o resto,
é uma loucura.

Doido e infeliz
fujo da sala
deixando atrás de mim
um coro de gargalhadas,
nem vou ao bengaleiro,
saio mesmo sem chapéu,
e, assim, louco e febril,
casaco desabotoado
e a cabeça ao léu,
na pose mais trágica e obsoleta
inclino-me, solene e triste,
e vomito tudo na sarjeta.

Ambriz,  64