Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



domingo, 30 de junho de 2013

Amor



Eu não queria
que o dia nascesse
sem eu te falar de novo.

Eu não queria que a paz
que o momento doce
e compassivo
que antecede o parto
e a alegria
que me traz
o primeiro alvor
não fosse teu
meu amor.

Eu sei sim
que por vezes conspurco
e maculo
a solenidade de tal acto.

Mas sei também
que de facto,
não pretendo ser
inquisidor
ou malévolo.

Simplesmente amor,
eu quero dar-te a primícia
de cada dia que nasce
já que a blandícia
de uma noite
está tão gasta
e deturpada.

Assim
à ténue luz da alvorada,
eu sento-me
e escrevo-te
e sinto-te
ainda adormecida,
deitada na cama
que nunca conheceste.

Ouve amor:

Eu olho para ti
e sorrio-te
e tu,
doce
e compassivamente
sorris... sorris...
e eu sei
que sem ter culpa
ou pretender que seja assim
tu dormes,
sorris,
e lembras-te de mim.

O verso
é triste
e apagado,
desculparás amor,
estou com sono
e cansado
da batalha
travada durante a noite.

A derrota
já tocou na trombeta
do arauto perdido
da festa que ainda dura,
mas eu sei,
Ah! eu sei,
que perdura
o sentido imaculado
que me trouxe
e me leva a escrever-te.

Olha amor:

Se eu vier a perder-te,
levanta-te ao menos
uma vez
de madrugada,
e lembra-te
que  a minha caneta
percorreu febril
folhas e folhas de papel,
tentando deter o tropel
do amor insano que me invade.

E assim amor
eu sei
que a minha alma
etérea e feliz
será sempre tua
como eu sempre quis.


Bessa Monteiro,  63

sábado, 29 de junho de 2013

Morrer



Eu sei
que hoje
mais uma vez,
eu vou morrer.

O Sol
radiante e luminoso
está para nascer
e o realismo odioso
de mais um dia
não tarda
em tomar conta de mim.

É a minha morte amor
assim,
dia a dia,
desde o começo,
desde que me conheço,
eu morro,
solene e triste,
sabendo
que afinal
não existe
qualquer razão
para que ainda bata
o meu pobre e cansado
coração.

Bessa Monteiro,  63

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Life's a game



O vendaval que tem sido a minha vida
tem deixado
profundas marcas
no meu ser.

Passo
a passo,
cheguei à meta final
e alquebrado
e inútil
vejo o caminho errado
e fútil
tantas vezes trilhado.

Afinal
acabando sempre
para meu mal,
dolorido,
cansado,
meio morto,
os pés cobertos
pelo pó da estrada,
deitar as contas,
fazer resumos,
e ver sempre
que não tenho nada.

Bessa Monteiro,  63

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Morrer.



Não sei porquê,
no meu peito,
o coração bate descompassado.

Eu tenho-me esforçado
por ser calmo
e certo
mas, inúmeras rugas
sulcam minha fronte
quando vejo de perto
a morte,
o fim do meu salmo.

Não que me assuste morrer,
não,
é só
porque, sem querer,
posso tirar o lugar a outro
sem que tenha merecimento
ou qualquer vantagem.

E quando a quente aragem
das tardes, começa a soprar,
eu penso que a minha coragem
não passa de um simples  esperar
que algo aconteça
assim como a morte
assim como amanheça
pondo fim à noite.

Tomboco,  63

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Nihil



Eu sei que mais valia
não gastar tanto papel
e passar dia após dia
sem tentar deter este tropel.

Um dia
lembrar-me-ei que nasci nu
e que fui nada,
era principio,
e então,
só então,
com a alma em pedaços
ajoelharei no chão
e pedirei aos gritos:

- Que os meus passos
doloridos da viagem
sejam apagados da estrada
e que os traços
da minha passagem
fiquem como eu:

Em nada.

Bessa Monteiro,  63

terça-feira, 25 de junho de 2013

Quatro personagens de fato castanho

Os quatro personagens estavam há longo tempo na mesma posição. De cócoras na borda do passeio, pareciam pescadores chineses num lago de jardim público, como se costuma ver nas peças de teatro popular que costumam percorrer as terreolas do norte da China.
Não se sabe muito bem onde é o norte da China porque, aquilo, não é um país normal, é autêntico continente!
Mas, por puro raciocínio, compreende-se que fique do lado oposto ao Sul.
Donde — e para abreviar —, sabendo onde fica um pode presumir-se saber onde fica o outro.

Claro que a finalidade desta escrita não é sobre geografia nem especificações mais ou menos técnicas, mas tão só observar astutamente, pormenores e outras minudências, sobre um povo e um país que se conhece muito deficientemente.

Não foi contudo para falar sobre a China que me dispus a escrever isto.
Não conheço a China, nunca lá fui, não tenciono ir lá. As minhas preocupações com a China são exactamente as mesmas que a China tem com a minha pessoa, ou seja...zero!

Posto isto, peço desculpa daquela imagem usada atrás sobre os fulanos de fato castanho de cócoras no passeio de uma rua qualquer não sei onde.
Quer dizer... eu até sei, porque se não soubesse não estaria a escrever sobre o assunto, mas não interessa nada para o caso o facto de eu saber ou não saber em que terra vila, aldeia ou cidade fica a tal rua em cujo passeio estão de cócoras quatro personagens vestidas de castanho.

Reparei agora que já escrevi que me fartei e ainda não disse nada.

Confesso que estou a apurar esta técnica que me parece muito actual e com enorme uso por cada vez mais promitentes escrevinhadores. E não só! Também uns técnicos encartados que têm lugar fixo nos comentários televisivos, falam que se fartam sobre tudo e mais alguma coisa e, no fundo, não dizem nadinha. Ou por outra, dizem mas é igual ao litro, quer dizer, se estivessem calados o resultado seria exactamente o mesmo embora com uma ligeira nuance: poupavam-nos umas estopadas valentes.

Com isto tudo, chegado a este ponto, tenho de fazer uma súbita e entranhada confissão: já não me lembro da história que queria contar sobre os quatro personagens vestidos de castanho, de cócoras na borda do passeio.

Paciência… fica para uma próxima ocasião.

ama, 2013


segunda-feira, 24 de junho de 2013

Dicotomia



Relutantemente
considero-me falso
e ainda,
o que é pior,
sem querer abandonar
esta minha atitude.

Os marasmos
de boa vontade
que amiúde
me assaltam
lembram-me os sarcasmos
que eram minhas promessas.

Ah!

Mas eu já nada prometo
nem faço projectos,
nem construo mapas
e se o pensamento obsoleto
de tentar modificar-me
ás vezes me ocorre,
não é por fantasia
ou cobardia
ou tentativa de reconciliação
com o meu antigo ego.

É por isto que eu sei que sou falso
e que se agora me afirmo
logo me nego.

Bessa Monteiro, 63

domingo, 23 de junho de 2013

Pensar



Pensei:

O que é pensar?

É ferir-me
a mim mesmo
descascar os olhos
em lágrimas ardentes
retorcer os dedos dormentes,
sobressaltos,
ranger de dentes,
rítmico
e descontrolado,
certo
e descompassado,
até ficar agoniado
de mim mesmo,
de pensar
e, a esmo,
sem senso
pensar que penso.

Tomboco, 63

sábado, 22 de junho de 2013

Solidão



Profundamente,
soturno,
cavo,
desconfiado.

Comummente,
reunido,
amigável,
atormentado.

Igualmente,
aos pares,
acasalado.

Mas sempre só
e amargo.

Tomboco, 63

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Inutilidade



Eu sei que os meus versos
pouca verdade têm
se não fosse a veleidade
de querer fazer bem
a mim mesmo
pensando que é verdade
aquilo que escrevo a esmo.

Eu sei que mais valia
não gastar tanto papel
e passar dia após dia
sem tentar deter o tropel
das ideias que me assaltam.

Ah! deixa correr a pena
que o tempo é coisa fútil,
não foi para ser poeta
que eu nasci um inútil.

Tomboco,  63

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Tabuleta



Dantes era fácil aquilo que escrevia
sem necessidade de turbilhão,
hoje, quer queira quer não
a minha musa
não volta a dar-me a mão.

Sinal de mente obtusa?
Pergunto-me eu circunspecto
e, sem me preocupar com o aspecto
pouco natural numa vedeta
de grande valor artístico,
todos os dias Um,
escrevo o grande dístico:

Aqui vive um poeta!

Posso não ser verdadeiro

(forma educada
de me chamar mentiroso)

mas durante um mês inteiro
posso sentir-me orgulhoso
da minha tabuleta à entrada.

Tomboco,  63

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Life's a game



Da verdade que tento esconder-me

(eu consigo sempre o que quero)

tenho uma pálida lembrança
que nem chega a ofender-me.

Eu sei que fugir não é cobardia

(ou tento convencer-me disso)

e avançar sem saber porquê
ou para quê

(que estúpido é ser soldado)

é um privilégio raro.

Viver-se sozinho
custa caro
e paga-se bem o valor de um caminho
quando afinal tendo tudo
sem ter nada
cobiçamos sempre o do vizinho.

A verdade de que tento esconder-me
é a única capaz de vencer-me

(esta certeza final
nem chega a ofender-me
ou sequer a fazer-me mal.)

Tomboco,  63

terça-feira, 18 de junho de 2013

Ramiro de Sousa Elmano



 
Ramiro de Sousa Elmano era um homem. Esta afirmação é importante para ficarmos a saber do que estamos a falar [1].

Não fizera a tropa o que lhe dava uma sensação de estranha inferioridade em relação aos outros fulanos da sua idade. Quando se punham a falar do que tinham feito – ou diziam que tinham feito – ficava caladíssimo pois não tinha absolutamente nada para contar. Isto era um aborrecimento muito grande porque quase todos os amigos do Ramiro, tinham – a mal ou a bem – feito o serviço militar.
Imaginava constantemente o que lhe teria acontecido se, também ele, não tivesse usado a ‘cunha’ do amigo do Tio Augusto para se livrar na inspecção e tivesse embarcado para o Ultramar onde durante, pelo menos dois anos, andaria aos tiros, a beber grades de cerveja, a dar cabo dos jeeps, a fazer a vida negra aos soldados sob as suas ordens, a jogar à lerpa até altas horas da matina.
E as chatices com o Comandante da Unidade, um profissional qualquer sem visão nem grandeza que a única coisa que desejava era que o tempo passasse depressa e com o menor número de aborrecimentos possível.
O facto é que, acabou por ‘construir’ um passado militar de que muito se orgulhava mas, o problema, o enormíssimo problema, é que não podia falar dele aos amigos porque estes sabiam muitíssimo bem que da vida militar – sobretudo vida militar em teatros de guerra – era o que sabia pelos livros do Lartéguy que devorara com paixão.
Era deveras frustrante não poder partilhar as aventuras – e algumas, diga-se, a roçar a heroicidade – que faziam parte do seu imaginário passado militar.
Tinha pensado, até, mudar-se para uma terra qualquer onde ninguém o conhecesse mas não se podia dar a esse luxo porque a sapataria que herdara do Pai não dava para grandes voos, e, pelo interessante facto de não saber fazer absolutamente mais nada que tentar vender pares de sapatos [2].
Estas as principais razões pelas quais o Ramiro de Sousa Elmano era um sujeito amargurado, triste e absolutamente infeliz.
Disse-se ‘principais razões’ porque havia, de facto outras que também contribuíam, embora com menor importância e impacto, para a sua triste vida.
Sobre essas outras razões não interessa agora falar até porque, como já se comentou, não eram as principais.
O que se passara na noite anterior no café do Lima Tavares fora algo memorável e, Ramiro de Sousa Elmano, mal desperto, ainda na cama, mirava-se no espelho da velha cómoda do quarto de solteiro pensando se acontecera de facto ou não passava de mais um sonho, uma partida da sua fértil imaginação.
Acontecera de facto e a prova era o enorme inchaço que ostentava à volta do olho direito que estava em mutação acelerada para uma bela cor azul-escuro, quase violeta. Isto o que conseguia ver porque o esquerdo, o olho, como estava completamente fechado não lhe garantia uma perspectiva fidedigna do péssimo estado em que se apresentava o trombil.
A culpa, toda a culpa, atribui-a à cerveja, aliás, à quantidade de cerveja que enfardara como se estivesse condenado a nunca mais beber uma sequer, o resto dos seus dias.
Às tantas desatara-se-lhe a língua e começara a falar. Isto já se tornou muito notado porque o Ramiro de Sousa Elmano normalmente estava sempre muito Singer [3] e os amigos calaram-se de repente e prestaram-lhe a maior atenção. E valeu a pena, porque o Ramiro de Sousa Elmano contou uma história por si vivida na guerra ultramarina que deixou todos de boca aberta. Depois trataram de fechar as próprias e também a do Ramiro de Sousa Elmano, só que, no caso deste, sem muita cerimónia e com uns dizeres que nos escusamos relatar ou, sequer comentar.
O pior de tudo é que o Ramiro de Sousa Elmano mesmo com a cara num bolo continuava a debitar factos, acontecimentos, tiroteios, perseguições, capturas, rusgas, golpes de mão… enfim um autêntico El Alamein embora sem carros de combate nem escaldantes areias desérticas.
Parecia que nada conseguia fazer parar o desgraçado de despejar em catadupa quanto fora sonhando, arquitectando, imaginando nas longas noites de Inverno sentado è lareira familiar [4] como se uma onda interior se tivesse, finalmente, transformado em tsunami devastador.
Até que, por fim, o Lima Tavares, coproprietário do café juntamente com uma irmã mais velha e que estava emigrada no Luxemburgo, se compadeceu dele e correu o pessoal à vassourada para fora do estabelecimento.
Cá fora ainda levou mais uns lembretes e uns sopapos juntamente com vários: vai para aqui… vai para ali… etc., etc., sendo certo que o único lugar para onde urgentemente lhe apetecia ir, era para um buraco fundo como a Abissal das Maurícias e por lá se deixar ficar encoralado [5] para o resto da sua triste vida.
Levou tempo a enfardar a tremenda tareia e a monumental vergonha mas foi bem aproveitado porque, finalmente descobriu a forma absolutamente segura e correcta de dar largas à tal onda interior e, ainda por cima, ser pago por isso.
E, se bem o pensou, melhor o fez: agarrou-se ao telefone e logo à segunda chamada o Director do Periódico agradeceu-lhe penhoradíssimo o ter escolhido o seu pasquim para publicar as suas histórias, inéditas, verdadeiras, indesmentíveis, sobre a horrível guerra ultramarina e a descrição dos desmandos, violências e diatribes de toda a ordem cometidas contra os pobres dos pretos que não faziam mal a um mosquito [6] e, aqui temos um Ramiro de Sousa Elmano, herói, guerreiro destemido, combatente intrépido a juntar-se à quantidade de aldrabões iguais a ele que se atrevem a dar largas à imaginação doentia e alarve e que, alguns, poucos todavia, alarves, lêm nos jornais e ouvem nas televisões com avidez e crítica bacoca.

ama, 2013




[1] Nos tempos que correm… nunca se sabe. O nome próprio pode não definir exactamente o sexo da pessoa em causa.
[2] Como se sabe, pelo menos um grande número de pessoas sabe, os sapatos costumam vender-se aos pares.
[3] Inteligente e hábil alusão a uma conhecida marca de máquinas de costura que, como é sabido, não falam. (André Brun gostava muito de usar esta linda imagem)
[4] Bem… isto é uma maneira de dizer porque no segundo andar direito onde morava não havia lareira nenhuma… mas… prontos…
[5] A palavra está certa e bem escrita porque a Abissal das Maurícias tem muito coral.
[6] E, a prova disso, é a quantidade de pacientes de malária que continua a haver por África.