Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



sexta-feira, 31 de maio de 2013

Músico




Rítmicos dormem
num fantástico concerto
de roncos e uivos
ranger de molas,
roçagar de roupas.

E eu, desperto
rejo a orquestra
pela noite fora
e sinto-me rei
e sinto-me maestro
sabendo que sei
que nem para musico
presto.

Tomboco,  63

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Paredes de lona




Nas três paredes de lona
que formam o meu quarto
passeiam fantasmas
habituais.

Estranharam o meio
e os animais
que comigo dormem.

Roncos selváticos
cortam o silêncio,
são homens que dormem,
ou antes feras
que preparam a carnificina.

Que estranha sina
ter de andar sempre acompanhado
de fantasmas antigos
e dormir acordado
noites inteiras...

Tomboco,  63

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Aflição




Que tremor meu Deus
é este que sinto
e me invade a alma
de escuridão?

Oh pensamentos
de negra paixão,
alvíssaras se oferecem
a quem os quiser.

A meu lado
a cova vazia do colchão
é fria e negra também.

Onde foste?

Onde estás?

E em ondas frias
vem a recordação
pôr traços vivos
a correrem-me a cara.

Porque choro eu?

Oh meu Deus,
porque choro eu?
  
Saberei amar
ou será apenas
que, sem coração,
não passe nunca
de um macaco de imitação?

Tomboco,  63

terça-feira, 28 de maio de 2013

Menina Rosa da Esquina


  
Com os olhos fixos no tecto como se lá estivesse uma reprodução do da Sixtina, mantinha-se imóvel horas a fio sem dar quaisquer mostras do que o rodeava.
De vez em quando uma enfermeira entrava no quarto, verificava os tubos, os cabos, os sensores e toda a parafernália que o mantinha ligado aos inúmeros aparelhos com luzes a piscar continuamente, curvas luminosas que ora se mantinham estáticas ora efectuavam movimentos ascendentes e descendentes, umas vezes rápidas outras intermitentes.
Passava as mãos pela frente dos olhos mas nem pestanejava. A respiração quase se não sentia e a enfermeira, preocupada, colocava o dedo indicador da mão esquerda – porque era canhota – na carótida até sentir uma ténue pulsação sanguínea.
Depois ajeitava o lençol que cobria o seu corpo nu e retirava-se com um último olhar profissional.
Não sabia há quanto tempo aquilo durava ou o motivo que o levara a tal situação. A sua actividade cerebral estava muitíssimo limitada. Não tinha memórias, nem estímulos de qualquer natureza… nada!

Na sala de atendimento um numeroso grupo de jornalistas de gravadores, telemóveis e outras aparelhagens aguardavam impacientes. Duas das três equipas de televisão já se tinham retirado deixando apenas um repórter encarregado de as chamar em caso de novidade.

A porta abriu-se e imediatamente toda aquela gente se precipitou para quem acabava de entrar com os aparelhos em riste, prontos a fazer centenas de perguntas, obter detalhes, informações.
Os holofotes das televisões focavam-se na figura do médico, alto, algo franzino, de uns espantosos olhos verdes meio esbugalhados que, levantando a mão esquerda – era canhoto – avisou:

- Sou o Doutor Casa e não vou responder a perguntas mas e apenas fazer uma declaração com a qual, para já, terão de se contentar. As perguntas poderão depois fazê-las à assistente da menina Rosa da Esquina. O que tenho a dizer é simples e rápido: A operação correu muito bem a recuperação será rápida. Tudo como previsto e planeado. Esperamos que, amanhã, pelas catorze e vinte e três possa ter alta e regressar a casa. É tudo.

Dando uma volta completa – peço desculpa… meia volta – retirou-se por onde tinha entrado.

Dentro da sala o caos instalou-se, vozes excitadas falavam aos telemóveis, os repórteres diziam coisas para as câmaras como se o Doutro Casa tivesse falado durante meia hora e não durante, exactamente, cinquenta e seis segundos.

Nova agitação! Entrava pela porta – pela janela seria praticamente impossível porque a sala ficava num sétimo andar – a assistente da menina Rosa da Esquina. Caíram-lhe, literalmente, em cima, quase sufocando-a até que com um grito estridente a assistente da menina Rosa da Esquina remeteu toda aquela gente ao silêncio.
Com uma voz pausada e estudadamente elaborada, disse:

“A menina Rosa da Esquina foi submetida a uma operação algo melindrosa mas absolutamente necessária dado o seu estatuto de actriz. Foi-lhe retirado do queixo um pelo encravado que estava a tornar-se num ponto negro de razoáveis dimensões. Correu tudo muito bem e a menina Rosa da Esquina, regressará amanhã a sua casa apenas para recolher algumas coisas pessoais antes de apanhar o avião para umas pequenas férias em Punta Cana. Por agora é tudo, amanhã antes da partida serão distribuídas fotos recentes da menina Rosa da Esquina que poderão publicar. Muito boa tarde e obrigado por terem vindo”

E… prontos, conformados, os tipos dos media retiraram em boa e atabalhoada [i] ordem.

Mas, se quiserem, podemos voltar ao quarto anterior a ver  como estava o sujeito.

Voltemos:

Com os olhos fixos no tecto como se lá estivesse uma reprodução do da Sixtina, mantinha-se imóvel horas a fio sem dar quaisquer mostras do que o rodeava.

Quem era?

Não faço a menor ideia nem isso interessa para nada.

(ama, 2013.05.04)



[i] Não sei se há aqui uma contradição mas com o pessoal dos media nunca se sabe…

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Pudor




A inacção
que é meu mal
e a minha fantasia
de trabalhador,
não é senão
a vontade
eminente,
de não querer mentir
sem um certo pudor.

Lisboa,  62

domingo, 26 de maio de 2013

Mãos postas




Pobres palavras
mal formadas
e mal dispostas.

De mãos postas
rezo.

Do homem
que me prezo
só me restam
as mãos postas
que me não convencem
e as pobres palavras
mal formadas
e mal dispostas.

Lisboa,  62

sábado, 25 de maio de 2013

Abuso




Tenho-te finalmente a meu lado
e o coração
doido como um fuso
baila loucamente
no meu peito.

Ah! eu sei que normalmente
o abuso
da solidão
só traz esta calma
que é quase uma oração.

Lisboa,  62

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Morrer




Pudesse eu morrer
levar comigo senão
poucas lágrimas
e
alguns sorrisos
de satisfação.

Pudesse eu morrer
sem que de mim restasse
que
recordação vaga
de cálculo insatisfeito.

Pudesse eu morrer
e levar-te comigo
alma minha
rústica.

Pudesse eu antes matar-te
e depois morrer.

Pudesse eu morrer...


E, afinal,
morrer para quê
ou porquê,
se para mim não há vida,
se eu já não vivo,
se para a medida
que me impõem,
nunca sirvo.

Santa Margarida,  62

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Incompatibilidade




E sem querer,
quase sem me dar conta,
a minha pobre cabeça tonta
vai arquitectando coisas.

Em vão pretendo parar.

A minha mão febril
vai transformando o papel
num amontoado tropel
de uma recordação senil.

Assim incompleta
ficará a pobre ode.

Ninguém manda ser poeta
aquele que viver não pode.

Santa Margarida,  62

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Agonia




Quando me sento e escrevo
e tu vens muito doce
muito compassivamente,
assistir à minha agonia
eu julgo que a minha alma
não verá mais outro dia.

E eu sei também
Que, passados momentos,
uma onda de infinita calma
torna sãos meus pensamentos
e a pena se torna mais leve
a cabeça mais vazia
e que o sono virá breve
transportando-me a outro dia.

Santa Margarida,  62

terça-feira, 21 de maio de 2013

Primeiro de Maio


(Descobri que, precisamente há cinco anos, escrevi esta coisa.
O que está a acontecer agora, terá alguma coisa a ver com isto que escrevi? Ou será pura coincidência?)

* * *
Amanhã é, dizem, o 'DIA DO TRABALHADOR' e, singularmente, neste dia, ninguém faz nenhum.

Isto é muito interessante e instrutivo e, eu, habituado que vou estando a estas 'singularidades' da 'democracia', ainda pasmo com a coisa.

Há uns anos, houve um 'esperto' que resolveu propor ao 'povo deste País' oferecer um dia de trabalho para... já não me lembro bem o quê.
Foram uns larguíssimos milhares de fervorosos trabalhadores que 'engoliram' este bem amanhado isco e vá de dar o respectivo pré para o tal 'saquinho' solidário.
Veio-se a saber que o destino do dinheirão arrecadado terá ido directamente para os bolsos do tal 'esperto'. Foi uma coisa, como dizer... interessante, porque as consequências de tal aldrabice foram exactamente nenhumas!
Disse interessante porque, na verdade, o que se passa no dia a dia no 'jardim à beira-mar plantado' é exactamente o mesmo: uma grande parte - a maioria - do pessoal esfalfa-se a trabalhar para pagar as prestações da casinha, do pópó, da máquina de lavar roupa e a de lavar loiça, da tv-cinema-em-casa, e do mais que está para aí à disposição dos carentes desses confortos, em condições muito vantajosas e absolutamente irrecusáveis.

Claro que se a coisa corre mal - e quase sempre corre péssimamente - há umas outras beneméritas organizações que oferecem créditos, dinheiros, muitos ou poucos, a pagar depressa ou devagar - à escolha do parceiro - e... já está... tapa-se o buraco abrindo um muitíssimo maior.

O que é que isto tem a ver? Tudo, tem tudo a ver!

Um tipo pode ser um teso que mal tem para comer mas, se tiver um emprego certo, isto é se for, oficialmente 'trabalhador', tem acesso garantido a estas maravilhas e... prontos, depois é só aguentar com os juros de vinte e tal... trinta por cento e viver feliz para sempre...

Conclusão triste a que chego: o melhor é não ser 'trabalhador' e viver um permanente 1º de Maio.

Assim fica-se a coberto de tantos benefícios e dorme-se um pouco mais tranquilo.

(ama, 2008.04.30)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Escrever para quê?




E eu penso:

Agora só,
com aquilo que é meu
e me pertence verdadeiramente
eu, descansado
e em paz,
sinto o desejo latente
de escrever sem parar.

E escrever porquê
ou para quê
se cada momento
é um pouco de mim que parte
e sem saber se sou outro,
vou agindo igualmente
sem um esforço
ou uma duvida
que me altere verdadeiramente.

Alpiarça,  62

domingo, 19 de maio de 2013

Lema




E eu tenho tudo!

Simplesmente,
o som
não me acompanha
e eu, só
e desmembrado,
sinto-me um pouco a mais
nesta campanha
familiar.

De mim
não resta um egoísmo,
de mim
não ressalta um orgulho
e aquilo que há de exotismo
na posição que tomo
na atitude que assumo,
é-me grata
e sabe bem.

Serei assim amanhã?

Quem sabe o que serei
e, Deus meu,
sofrer será um hábito
se a dor
é o lema que Deus me deu.

Alpiarça,  62

sábado, 18 de maio de 2013

Sozinho




Ouve querida:

Esta noite
que passei sozinho
foi como se o mundo
tivesse parado
no caminho.

O poço sem fundo
que há muito tinha sondado
esgotou-se enfim.

Olha amor:

Não te quero mais a meu lado,
ninguém que já amou
pode dizer com justiça
não sendo (por isso)
desleal ou mesquinho,
a felicidade que se sente
quando se dorme sozinho.

Stª Margarida,  62

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Violência




Eu sei que a violência
é o meu lema
e que o dilema
da sobrevivência
é violento também.

É violento
que te amo e quero
e quando estou triste
e morro lentamente
o ultimo alento
também é violento.

Santa Margarida,  62

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Quando?




E quando,
meu Deus,
quando será o dia
em que partirei
e para trás de mim
só olhares de admiração
repoisem no meu cadáver?

E quando o cortejo
onde ninguém vá
tristemente curvado
chorando silencioso?

E quando a cova escura
onde, descansado,
terei o meu repouso?

Santa Margarida,  62

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Quem




E se eu morresse
quem choraria.

Quem, de braços abertos,
clamaria
em altos brados
pela justiça de Deus?

Quem, de luto pesado,
daria condolências
verteria lágrimas
e fecharia as janelas
em casa dos meus?

Quem, ás borlas do caixão,
teria um ar triste
e circunspecto?

Quem, curvado pela dor,
ficaria sem comer
e quem, Deus meu,
num sentimento correcto,
quereria morrer
em meu lugar?

E,
se não for assim,
que me há-de importar
se no fim
quem morre sou eu?

Santa Margarida,  62

terça-feira, 14 de maio de 2013

Narrativa medieval


D. Javier de López y Guantes estava pronto a assumir o comando do pequeno corpo expedicionário especialmente reunido para a missão de resgate.

Os cavaleiros impantes nas suas armaduras cada qual ornada com o lenço de cor verde preso na ombreira esquerda, tentavam refrear as cavalgaduras também elas ricamente ajaezadas com o que de melhor havia do género. Por ordens expressas de D. Javier de López y Guantes as caudas e as crinas estavam entrançadas com fitas de seda da mesma cor. Era, sem dúvida um luzido naipe de cavaleiros. O armamento, também por ordens expressas de D. Javier de López y Guantes resumia-se às espadas longas embainhadas nos arções. Apenas dois dos cavaleiros e, isto também obedecendo a ordens expressas de D. Javier de López y Guantes, empunhavam as massas constituídas por bolas de ferro eriçadas de picos, presas por correntes de cerca de oitenta e três centímetros e meio a grossos punhos de madeira trabalhada por sua vez, presos por loios de bom cabedal aos punhos dos ginetes. Estes dois ocupavam o centro dos quinze ginetes o que se tinha revelado uma tarefa de relevante dificuldade porque, como bastante gente sabe é impossível dividir quinze cavaleiros – com cavalgaduras ou mesmo sem elas – ao meio. Quer dizer, para que a coisa funcionasse haveriam de ser catorze cavaleiros e, assim, teríamos seis deles de cada lado dos dois centrais, ou então dezasseis o que poria nas alas oito ginetes.

Mas tal não fora possível. Em primeiro lugar o promitente décimo sexto cavaleiro não tinha montada e não ficava bem um cavaleiro apeado no meio dos outros quinze além de que dificilmente acompanharia os ginetes mesmo que estivesse treinado na maratona de Roncesvales (lugar do mesmo nome onde se deu uma famosa batalha conhecida pela Batalha de Roncesvales onde, dizem, morreu Rolando a tocar num corno de carneiro de todo o tamanho – o corno, claro – e, depois, deu aso a numerosas histórias e romances de cavalaria e, mais recentemente, uma recomposição histórico-científica levada a cabo pelo eminente catedrático da Universidade de Deusto que se situa em Espanha, como é do conhecimento de numerosos espanhóis e, até, pessoas de outras nacionalidades.

Mas, então, porque eram quinze os cavaleiros e não apenas catorze?
Há a que convir que nas sagas medievais muitos pormenores ficam por esclarecer, ocultos nas brumas da História ou, então, porque o escrivão de serviço simplesmente se esqueceu de os revelar. Sabe-se que, nesses tempos, escrever era uma tarefa maçadora e estafante, as penas de pato partiam-se com enorme facilidade, os pergaminhos eram caríssimos e difíceis de obter, a própria tinta – para escrever – era de péssima qualidade… enfim, uma coisa mesmo aborrecida e pouco atraente e, além disso, muito mal remunerada. 

Mas, felizmente, neste caso, conseguimos descobrir o importantíssimo motivo da quinzena de cavaleiros expressamente reunidos, lembramos, para a missão de resgate.

D. Javier de López y Guantes não fora capaz de negar a D. Bártolo de Porras y Salcedo a insistente insistência de fazer parte do grupo de cavaleiros expressamente reunidos para a missão de resgate.
Nem a pouca idade de D. Bártolo de Porras y Salcedo – dezasseis anos acabados de completar – e a sua pouca experiência como cavaleiro de lides de cavalaria (isto não soa muito bem mas não me ocorre neste momento outra forma de explicar a coisa) e outros inconvenientes como ser completamente estrábico, tinham conseguido que o jovem D. Bártolo de Porras y Salcedo vencesse a relutância de D. Javier de López y Guantes em deixá-lo integrar o grupo de cavaleiros expressamente reunidos para a missão de resgate.
Dava-se o caso singular de a jovem e linda prisioneira D. Mecia de Porras y Salcedo se a irmã mais velha – aliás, a única irmã – de D. Bártolo de Porras y Salcedo e, sendo tanto ela como o irmão, completamente órfãos de pai, cabia ao irmão o sagrado mister de salvar a mana integrando o grupo de cavaleiros expressamente reunidos para a missão de resgate.

Esclarecidos estes detalhes de relevante importância, passemos então, à narrativa propriamente dita.

Vamos então passar à narrativa propriamente dita:

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Rezar



Apesar de tudo
esta tarde é calma
e eu posso rezar.

A minha alma
serena
e vai desfiando
orações simples.

Eu rezo-te amor meu
e ofereço-me a ti.

Esta saudade
que Deus me deu
que me faz
rezar-te à tarde.

Santa Margarida,  62

domingo, 12 de maio de 2013

Não serei eu



Na madrugada
não será o meu vulto
que percorrerá as sombras.

Quem te procura
já não é a minha mão.

Não será minha
a cova a teu lado
no colchão.

Estendido,
hirto,
já terei partido
sem alardes
nem estertores.

Ter-me-ei finado
sem que tremores
convulsos,
te tenham acordado
e a sorrir,
por já estar esquecido,
sentir-me-ei contente
por ter morrido.

Santa Margarida,  62