Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



terça-feira, 30 de abril de 2013

TIMOR 1


STOP! Gritou o “austrália” de arma em riste bem apontada ás trombas do GNR 

O portuga entendeu que aquilo queria dizer:

- Alto aí com o andor senão levas um fogacho no trombil...e prontos...; vai daí, parou hirto que nem estátua.

O Timor que segurava pelo cachaço nem piava; olhava de um para outro, os olhos em bico, a boca aberta, o sorriso cavado nos dentes branquíssimos, pensando com os rasgões da camisa (não podia pensar com os botões porque...não os tinha):

“Isto ainda vai sobrar para mim, estou tramado. “

Como este pensar além de íntimo foi em linguagem Lorosae, os outros não deram por isso. Fitavam-se com raiva e sobranceria mas, talvez, sim, talvez, um bocadinho apardalados com a situação.

- Eu venho trazer um prisioneiro, um sujeito apanhado a roubar, no "loot", compreendes, pá?

- You have no authority, so...go back and go to hell!

É claro que isto era uma maçada muito grande porque, mal se apercatassem os dois personagens, tinham ali uma "situação" internacional delicadíssima que, na melhor das hipóteses, haveria que requerer uma deslocação "relâmpago" del Grande Freitas a Camberra para resolver a coisa com a costumada eficiência.

O GNR é que não esteve para chatices, deu meia volta sempre com o Timor ao dependuro, e ala que se faz tarde.

Depois da curva do caminho, deu um xuto no cu do desgraçado mandando-o para o meio de umas moitas, e foi-se todo lampeiro a assobiar "Dei-te quase tudo" e, só à noite, ao jantar, é que contou o episódio.

(ama, 2006.06.08)

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Brilho



Podia escrever-te amor
a dizer
que é noite finalmente.

Tudo dorme
só eu,
confuso
e inconstante,
velo
e te escrevo.

A certeza distante
que já fui bom
e tive paz,
não me consola
nem o sono me acode.

Em turbilhão
os pensamentos,
eles são
recordações,
devaneios
e sinais tristes,
transfiguram-me o silêncio
impudicos
e invulneráveis.

Em vão me defendo
e te escrevo.

Debalde me distraio
e fecho os olhos,
o sono não vem
e o cansaço,
meu derradeiro apoio
e abrigo
destas horas mortas,
atormenta-me também,
fechando-me as portas
da sonolência.

Desculpa amor
que te faça testemunha
da minha noite
mas eu,
Ah! eu já quase não existo,
se é existir
o viver por habilidade
e o manter-se por equilíbrio.

Mas tu
que és
a minha estrela fulgente,
não deixes nunca
que a tua imagem se converta
nas esteira rápida e triste
de qualquer estrela candente.

Monte Real,  62

domingo, 28 de abril de 2013

Jogo



Só,
mas sincero,
sinto-me a mais.

Não faço falta.

Não sou preciso.

Do jogo importante
não sou peça.

A ninguém
a minha vontade,
ou opinião,
interessa.

Só,
insisto
e não venço,
mas nem assim,
desisto,
ou me convenço,
que chegou o meu fim.

Lisboa,  62

sábado, 27 de abril de 2013

Para ti 2



Para ti
vai o cansaço
que ponho em cada palavra
que escrevo.

Para ti
este torpor
em que me deleito
quando no meu leito
me sinto só.

Para ti
o engano
de te querer
e o insano
esforço
em conquistar-te.

Para ti
todo este amor
que hoje
me leva a odiar-te.

Lisboa,  62

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Loira e fria



Solene
e triste,
no seu fato preto
já coçado,
o pobre tolo
esquecido,
seguia de o cortejo
e distraído,
cantarolava
em voz baixa.

Na sua caixa
branca
seguia,
loira
e fria,
a derradeira ilusão
de uma tarde
calma
de verão.

Loira
e fria
ia a enterrar,
levando como epitáfio
a ultima elegia,
pobre e confusa,
da sua loira
e já morta musa.

Lisboa,  62

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Para ti



Para ti
vão as canções
e os risos
e o meu sono
reparador.

Para ti
vão as tardes calmas
e as noites sós.

Para ti
vão a embriaguez
e as convulsões
do meu fim.

Para ti
vão os versos sem forma
que restarem
de mim.

Lisboa,  62

quarta-feira, 24 de abril de 2013

F r e i t a s 2


Nota: Já não me lembra quando escrevi isto. Sei que, na altura, o Freitas do Amaral era o impante Ministro do Negócios Estrangeiros do Governo chefiado pelo Sócrates que se resolvera a ir falar com Miterrand… armado em parvo…)

Mais mon cher Premier Ministre: La France (este: "France" tem um som profundo, redondo, líquido, cheio de requebro e eco...La Frrrraaance...), nas pas besoin de vos services bien estimables qui'ls puissent être. Vous savez.. Mais, Monsieur Le Président, deixe-me dizer-lhe que esta oferta é totalmente desprovida de segundo sentido. Isto é, não desejamos nada em troca. (Acabado de regressar de Angola, depois de horas e horas de negociatas, trocas e baldrocas, toma lá isto e dá-me aquilo, o Nosso Primeiro achou que convinha esclarecer a coisa). A nossa longa experiência - expérience, tá a ver? - está inteiramente à disposição dos nossos amigos franceses.

(O homem tinha sido repetidamente avisado para não pronunciar nunca as palavras "mon ami", porque, o diabo tece-as, poderia haver um súbito relembrar de tempos passados em que os interlocutores eram outros, os tempos também e as saudades de uns e de outros nenhumas).

Mais...voyons, monsieur, mais voyons nous! Expérience vous dites! Ça m'étonne. Vraiment, ça m'étonne beaucoup. Vous vous moquez de moi?


Mas não, de forma alguma! - replicava o Portuga depois de confirmada a tradução pelo ajudante dos Negócios Estrangeiros - eu, o que queria dizer era que, durante estes últimos anos, o Governo Português acumulou uma vasta experiência de negociação quer com os sindicatos quer com as próprias massas trabalhadoras e, é essa experiência que, graciosamente repito, venho pôr à disposição de Vossa Excelência.

(Afastado dez passos Amaral comentava : O tipo está a espalhar-se ao comprido. Porque é que não me deixou falar a mim? E o pior, sussurrava-lhe o ajudante, é que nem isto acaba e nem a gente almoça)

A salvação veio de um alto funcionário do Matignon que puxava pela manga de Chirac: Monsieur le Président: Madame la Chanceller d'Alemagne est a l'appareil. Cést urgent...

Pela escada abaixo o Primeiro comentava, agastadíssimo: Isto é uma afronta de todo o tamanho! Interromper assim uma conversa de Estado! Nem tempo tive para o convidar para uma visita oficial de três dias a Lisboa! Mas quem é que o tipo julga que é!?

Com o melhor dos seus sorrisos untuosos, Amaral explicava: Homem! Ele é o Presidente da França e está-se nas tintas pr'á gente, percebe?


(ama, não sei quando)

terça-feira, 23 de abril de 2013

De ti



De ti
bebo a taça prenhe
dos ópios da insatisfação.

De ti
estas cicatrizes alvares
que me riscam o coração
em quadriculados.

De ti
esta fúria de esquecer-te
e aos teus manjares
de erudição.

De ti
esta raiva de querer-te
sem poder
estender-te a mão.

Lisboa,  62

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Superficial



Nem os jardins,
nem as flores,
nem fogos fátuos,
de antigos
e derradeiros
amores,
nem o tremor
da ansiedade
ou o rubor
da virgindade
recatada,
nem o espirito brando,
nem nada,
nem nada
encontro em ti
que me prenda
exalte ou confunda,
ainda que tentes
parecer subtil,
distante e profunda.

Lisboa,  62

domingo, 21 de abril de 2013

Espera



Se ainda me escolhes
eu estou à tua espera
e, ao meu peito,
a flor branca
espera que a desfolhes
a teu jeito.

Lisboa,  62

sábado, 20 de abril de 2013

Elegia



A ti
dedico
a calma
das horas mortas
e do nascer de sóis.

A ti
ofereço
as flores murchas
do meu peito deserto.

Por ti
sofro
o dilema
de viver
dia a dia.

Para ti,
meu amor,
escrevo
esta elegia.

Lisboa,  62

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Freitas 1



(Nota: Já nem me lembra quando escrevi isto, Sei que, na altura, o Freitas do Amaral era o impante Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo chefiado pelo Sócrates e que, uns quantos emigrantes portugueses, tinham sido mandados embora do Canadá. O Freitas, como lhe competia, foi resolver o caso..)



Levantando-se subitamente da cabeceira da mesa de seis metros de comprimento, o canadiano deixa cair do alto do seu metro e noventa e dois:

My dear Amaral: I’m so sorry but I must warn you that twenty minutes is the all time I’ve spared for this meeting.

O homem estava alarmadíssimo com a profusão de pastas, dossiers, papeis, livros, anotações que, já lá iam dez minutos, o outro espalhava pela mesa.

Bom… então…vamos a ver: Eu tenho que explicar a Vossa Excelência as verdadeiras razões porque eu acho – o meu governo acha – que a atitude do Governo Canadiano para com os meus compatriotas é inaceitável. Eu…

Just a moment, interrompeu o outro com veemência, não há aqui aceitar ou não aceitar. As leis do Canadá são do Canadá e você não tem que aceitar ou deixar de aceitar, you see?

Oiça, meu caro, não se esqueça que os portugueses estiveram mais de quinhentos anos em África e que…

Como posso esquecer, diga-me? Todos os dias, de há vinte e tal anos para cá, nos chegam notícias dessa gesta. São mortos, feridos, estropiados, milhões de deslocados, a ruína, a corrupção, a desgraça mais completa. Tell me, How can we forget?

Bom…, quer-se dizer… isso são coisas que aconteceram mas que até são normais nos processos de transição para a democracia, como Vexa muito bem sabe. Eu, aliás…

Pois, pois…mas, adiante, diga-me o que quer. My time is running out!

Bem, o que eu queria dizer, responde o Amaral começando a guardar a tralha nas várias pastas com a chapola diplomática, o que eu queria dizer, é que considero uma injustiça…

Diz bem, Amaral, diz bem: “Queria dizer”. Queria… mas não quer, pois não? Porque você é um sujeito inteligente, até já foi Presidente da Assembleia-geral da United Nations – embora ninguém queira saber disso para nada – sabe perfeitamente que os seus fellows portugueses têm andado a endrominar as autoridades canadianas com pedidos de asilo etc. e tal. Mas a “mama” acabou, está a entender. Para nós é simples: ou estão no Canadá legalmente e tudo bem, God speed, ou então têm de ir andando que isto aqui não é o da Joana.

Bom… bom… balbuciava Amaral.

Well, well digo eu, minister. Para mim e neste caso, os portugueses são como quaisquer outros: europeus, asiáticos, africanos… o que for. A lei é para todos.

Absolutamente desfeito, Amaral, contemporiza: Você está a ver, se eu regresso sem nada na manga vai ser um pincel de todo o tamanho. Deixe-me ao menos dizer aos jornais e ás televisões que consegui uma moratória, uma reapreciação do caso, qualquer coisa, entende?

Ok, Amaral, Ok. Então pode dizer que vamos estudar uma moratória de…digamos, trinta dias. Mas, aviso-o já, a decisão é irreversível.

Muito obrigado a Vossa Excelência. Eu fico muito grato a Vossa Excelência. Permita-me Vossa Excelência que lhe transmita, em meu nome e do meu Governo, o alto apreço em que temos o Canadá, o excelente povo canadiano, o Governo e, em especial, Vossa Excelência que tão bem o representa. Mais expressaria o desejo do meu Governo e meu pessoal, de ver Vossa Excelência em breve, em Lisboa, para uma visita de Estado. Muito grato a Vossa Excelência.

Momentos de pois, cá fora, ao microfone que o senhor Bicudo (o dos Açores) lhe espetava nas bochechas, Amaral declarava:

Correu tudo muito bem. O Senhor Ministro compreendeu as razões da parte portuguesa que tive ocasião de expor amplamente, e que muito apreciou, tendo prometido ir avaliar o assunto. Deposito muita esperança no seu critério, que será, estou certo, o mais justo e adequado à situação.

Entretanto, peço desculpa, mas tenho já pouco tempo para apanhar o avião e ainda queria passar pelo Corte Inglês cá de Toronto para levar umas coisas que o Zé me encomendou.

(ama, não sei quando)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Perdição



Serias tu
a escolhida
pela minha alma
sôfrega
de amor.

Perdida
foste do impudor
que te consome,
e trôpega
de infame.

Que a tua miséria
clame
tão alto
que jamais
se aproximem de ti
ou digam o teu nome!

Lisboa,   62

terça-feira, 16 de abril de 2013

Dor aguda




Serei teu um dia,
gosto de pensar,
e assim pensando,
embora triste,
sinto-me satisfeito
e é menos aguda a dor
que persiste
no meu peito.


Lisboa,   62

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Ensaio sobre o suicídio



A amargura do seu olhar pôs manchas húmidas na suavidade da noite.
Lentamente, silenciosas, como que temendo sobressaltá-lo, duas lágrimas grossa rolaram pela sua face onde as outras ainda não tinham deixado sulcos visíveis e caíram sobre a corda a seus pés.
Pairou-lhe um ténue véu em frente das pupilas como se a noite estivesse enevoada e a lua não definisse as árvores nem fizesse coscurar as pequenas ondas do rio.
O monótono ruído da noite, de todas as noites calmas, não era mais que o suspirar cansado da última aragem que descera da colina.
Não havia nenhum cavalo no meio do prado mas, talvez entre as raízes dos pinheiros suavemente apoiados na encosta, algum coelho se aprontasse para partir à procura de sustento.
O seu pensamento, errava disperso por visões dos seus passados sem que tentasse reuni-los para construir alguma ponte para o futuro. Realmente não se pode pensar no porvir pois nada de bom deve haver para além de uma noite calma, em que as sombras lembram procissões de antepassados.
Pensou que nunca mais o nascer do Sol lhe traria uma sensação de alívio porque, recordaria sempre, daí em diante, uma noite serena.
Por isso a noite não acabou quando se ergueu e enxugou as lágrimas às costas da mão.
Lembrou-se que alguém deveria ter dito que quando se está triste as lágrimas rolam silenciosas sem produzir sensação de frio.
Debateu-se na dúvida mas estava demasiado disperso para poder juntar-se numa provável verdade já passada.
Sabia que não estava triste porque nada havia a impressioná-lo a não ser um enorme desejo de serenidade.
Assim não pediu que continuasse a noite até ao nascer do Sol, porque, o Sol, quando nasce é porque é gerado e não pode ser morto na gestação.
Para isso julgava ele ter poder.

E, de facto, o Sol não pôde nascer quando a dor o obrigou a fechar os olhos, queimados pela escuridão, para lhe iluminar os primeiros passos ensaiados na noite.

(ama, Lisboa, 1958)

domingo, 14 de abril de 2013

Paz



É sem dor
que vejo a minha paz
partir de mim.

O mal que me faz,
sentir-me assim,
é tão grande
que não dói.

Esta paz
que possuí a custo
e com ardor mantive,
é o ultimo alento
de quem já não vive.

Lisboa,  62

sábado, 13 de abril de 2013

Não sei amar



Por te querer
sou irreverente,
torno-me ousado
já que te amo.

Que a voz
com que te chamo,
para o vendaval
de projectos que arquitectei,
definhe
e morra.

E, afinal,
morra eu, também,
já que amar não sei.

Lisboa,  62

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Desaparecido!



Não! Ninguém o tinha visto! A pobre rapariga corria de um lado para o outro ao longo da praia interrogando as pessoas que passeavam à borda de água, os que estavam deitados a apanhar o sol ainda quente daquele dia de Agosto tão irregular.

Àquela hora da tarde já pouca gente o fazia, mas há sempre uns que teimam em aproveitar até ao último minuto.
Algumas respostas – quase todas – limitavam-se a um abanar de cabeça, outras, secas e sem nenhuma simpatia, mostravam bem o incómodo que lhes causava aquela inoportuna. Havia alguns, porém, que se mostravam solidários e enchiam-na de perguntas, solicitando pormenores, pedindo detalhes.

Mas, o resultado, era sempre o mesmo: Nada!

Num desespero, começou a dirigir-se aos que ainda se aventuravam na água, aos que estavam mais longe, por sinais, aqueles que dela saiam – os homens - encolhendo as barrigas e inchando o peito procurando ostentar um porte atlético que não tinham, as mulheres, ajeitando os fatos de banho alguns dos quais não eram que pequeníssimas amostras de tecido que não tapavam nem o essencial quanto mais o excessivo que era muito. Figuras de Bolero gordas e cheias de celulite com pretensões à estilizada de Mileto. (Será que não têm espelho em casa? Se calhar… têm… o que lhes falta é vergonha ou, pelo menos, sentido estético!)

A praia era pequena, uma enseada entre rochas que se percorria de uma ponta à outra em poucos minutos. A alta falésia deixava apenas um estreito acesso em degraus de terra batida à estreita língua de areia.

Já olhara várias vezes para ali na esperança de o encontrar embora lhe parecesse – tivesse quase a certeza – que, por ali, ele não se aventuraria sozinho.

Amargurada, voltou ao lugar onde deixara a toalha e os pertences e onde estivera a dormitar. Como se penalizava! Se não tivesse adormecido ele não teria desaparecido!

E agora? Que fazer?

Decididamente juntou a tralha e dirigiu-se para as escadas de terra. Não tinha nem mais remédio nem mais tempo. Tinha de ir às autoridades participar o ocorrido. Quanto mais depressa melhor, nestas situações não se deve perder um tempo que pode ser precioso.

A meio da subida estava um sujeito cuja vermelhidão no rosto não se devia a sol a mais mas a coração a menos, como bem o demonstrava a respiração ofegante.

Tentou mais uma vez e lá perguntou:

Quer conhecer a pergunta? Quer?

Então:


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Lenitivo



Mais só
e também mais triste,
me sinto.

Nem a amargura,
meu lenitivo
de horas mortas,
me assiste.

A desventura
que me persegue
e não desiste
de fechar-me as portas
da Eternidade.

Lisboa,  62