Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 35º episódio


O terceiro membro desta interessante tribo era um fulano já com idade para ter juízo mas que não tinha.


Manuel Silva – não se sabe se este era o seu verdadeiro nome – vivia em Braga desde que, com quinze anos, fugira de uma casa de correcção no Cernache. Com uma mão à frente e outra atrás, logo arranjou poiso num armazém de bacalhau onde diligentemente foi subindo na consideração do proprietário, que viúvo e diabético em altíssimo grau, lhe foi passando a gerência do estabelecimento. Tão bem se houve que passados cinco anos no meio dos fardos de bacalhau e escamudo, que vendia como se fosse aquele aos tansos que por lá apareciam em profusão dada a fama da casa, com vinte aninhos feitos resolve-se a casar com a Maria dos Prazeres, a feiosa filha e único rebento do patrão. Não teve, parece, prazer nenhum na coisa porque a rapariga era um estafermo estrábico e gordo já com trinta e tal anos de idade. Mas foi muito conveniente e, o Manuel Silva, era muito dado a fazer coias que lhe conviessem. Aconteceu que o sogro resolveu, finalmente, sucumbir a um coma diabético. Não se sabe se se teria safo se o genro o tivesse levado a tempo ao Hospital de S. Marcos, mas uma súbita avaria no automóvel demorara mais que o esperado, sobretudo quando se deve ao facto de os cabos da bateria estarem, convenientemente, desligados.
Assim, o Manuel Silva viu-se, aos vinte e poucos anos, dono de um armazém de bacalhau já com uns quinze empregados, para dar vazão ao movimento, de umas sete ou oito contas bancárias - que o falecido sogro não era homem para ter os ovos todos num único cesto – cujos saldos o deixaram de boca aberta e as mãos a tremer. Além disso ainda tinha a dilecta esposa, Maria dos Prazeres o que, embora não lhe desse prazer nenhum, como já se informou, lhe mantinha o doce lar em razoável estado de asseio e conforto. As verdades dizem-se portanto, convém dizer que a Maria dos Prazeres não fazia a menor ideia por onde o marido passava as noites e, se, com alguém, porque a primeira - e última – vez que lhe perguntara, o Manuel Silva depois de lhe assestar um quenco no olho bom, que ficou pior que o outro, lhe disse em inglês: “Close the ruber”. [i]

Fim do 35º episódio

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.




[i] Em português: Cala a borracha!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 34º episódio


Leite Araújo tinha uma empresa de construção, negócio que montara com a ajuda do padrinho que, arrependido com o mau momento de há vinte e tal anos atrás, resolvera redimir-se emprestando o carcanhol necessário para o empreendimento. Porém avisara:
“Isto fica por aqui, ouviste? Trata de fazer a tua vidinha sem contares mais comigo”.


O Leite Araújo era um espertalhão de grosso calibre e rapidamente aprendeu como é que se faz fortuna como construtor civil.
Não é preciso ter ideias mas é necessário ter amigos bem colocados.
Os amigos do Poio eram os fiscais das Câmaras municipais, aqueles sujeitos que conhecem de cor os PDM'S e que se movimentam com à vontade nas intrincadas teias das autorizações e todas as trapalhadas burocráticas criadas de propósito para que ninguém, a não ser eles próprios, conseguirem entender a coisa.
Um fiscal que se preze sabe muito bem que um determinado terreno plantado de couves e batatas, portanto inscrito no PDM como rústico embora a escassa distância da cidade ou vila em questões, pode de um momento para o outro, ser considerado como de construção. Trata de informar o amigo Leite Araújo, este compra por um punhado de Escudos a propriedade que, num abrir e fechar de olhos passa a valer trezentas ou quinhentas vezes mais.
Evidentemente que todos ficam muito contentes, o dono do terreno que já não tinha nem idade nem saúde para plantar couves e sachar batatas, o Leite Araújo que fez um negócio de todo o tamanho, o fiscal da Câmara com os milharzitos que o Poio lhe pôs no bolso, o presidente da Camara que por ter rabiscado a papeleta de alteração ao PDM, recebeu um Mercedes novinho em folha além de umas férias pagas em Punta del Este.
Só que a coisa raramente se ficava por aqui porque havendo eleições é da praxe haver umas obras de vulto e, entre estas, descobre-se a necessidade de um novo acesso à Vila ou Cidade e, absolutamente por acaso, o traçado necessita do terreno. A custo o Leite Araújo é convencido a deixar-se expropriar pelo justo valor de um terreno para o qual já existe um projecto de grandioso volume urbanístico e, ainda, a cedência gratuita de um outro terreno propriedade camarária que, pode muito bem acontecer, venha a passar pelo mesmo transe passados uns anitos.
Resta dizer que as despesas do Leite Araújo, nestes claríssimos processos, se resumiam a um pagamento ao arquitecto - o projecto é sempre o mesmo – o arrendamento do pequeno escritório e o ordenado da Arminda, zelosa secretária que pouco ou nada fazia a não ser polir e pintar as unhas e pouco mais, porque o Leite Araújo nunca na vida construiu fosse o que fosse.
Ora isto funcionava muitíssimo bem e o arrecadado aumentava consideravelmente todos os anos.

Fim do 34º episódio

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 33º episódio


Quando, passados dias o dinheiro não apareceu nas respectivas contas os gerentes telefonaram ao Valente e, pedindo muitas desculpas pelo incómodo, quiseram saber o que se passava com os cheques por pagar… mas, este, não se lembrava de nada.
Como na altura era proibido ter contas no estrangeiro não convinha nada aos bancos falarem no assunto, as respectivas Administrações engoliram em seco, despediram os gerentes e não falaram mais no assunto.


Mas nem todos procederam de igual modo houve um 'chico esperto', administrador de um dos maiores bancos, resolveu levar o Valente a Tribunal exigindo a reposição da quantia adiantada com base no ‘tal cheque’ mais, claro está, o pagamento do monumental ‘descoberto’ acrescido de juros. A coisa foi tão ridícula que nem vale a pena contar em detalhe, em síntese, foi assim:

Os do banco apresentaram as contas, descreveram a ‘manobra’, enfatizaram a sua boa-fé duramente lesada. O Juiz de olhos muito abertos e a boca também, mal acreditava no que ouvia.
O Valente ouviu tudo com uma calma fria e imperturbável. No fim disse ao Juiz:

“Isto tudo parece uma história da carochinha! O banco que apresente o cheque em questão e, eu... pago, sem cheque... nada feito!”

É claro que, ao Juiz não lhe restava saída que ordenar a apresentação da prova, ou seja, o ‘tal cheque’ que, evidentemente o banco não tinha. Aliás… ninguém tinha.
Aos do banco não lhe ficou alternativa e dar o caso por encerrado pedindo a todos os santinhos que o Valente não tivesse a lata de apresentar queixa por difamação e exigir uns largos milhares para encerrar o caso.
Claro que o Valente sabia muito bem que há uma medida para o risco que convém não ultrapassar e, com os bolsos cheios... ficou-se por ali.

Passemos ao próximo:
O Leite Araújo - nunca consentia que se soubesse o seu primeiro nome: Poio! O padrinho tinha-se zangado com o seu Papá por causa de umas águas de rega desviadas numa noite de Agosto e, vai daí, não achou melhor vingança que dar este nome ao afilhado.
Tentara por todos os meios alterar o nome mas a lei – ‘dura lex’ - só admite mudar apelidos e nunca nomes próprios a menos que estes indiquem conceitos xenófobos ou sejam ofensivos da moral pública. Como é óbvio, o primeiro caso não se aplicava e, quanto ao segundo, depois do 'vinte-e-cinco do coiso', para ser considerado ofensa à moral pública tinha que ser um nome do tipo: Hitler, Pinochet, Franco, Salazar, Mussolini ou quejandos do mesmo nível.
Assim, o Poio, exigia que o tratassem por Leite Araújo e os mais chegados por Araújo.
Assim salva-se 'a honra do convento'.

Fim do 33º episódio

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 32º episódio


A ideia de ser sócio de um couto de caça convinha-lhe bastante para poder convidar uns sujeitos a quem devia uns favorzitos além de que os milhares necessários eram 'trocos' para a sua tesouraria pessoal.


O Valente fora capaz de ludibriar - segundo se constou - uma série de entidades bancárias, isto anos antes de haver Net, Skypes e outras modernices do género. O método foi de uma simplicidade só ultrapassada pela eficácia e que se pode resumir em quatro 'passos'.
1º Passo: abrir conta nos três bancos alvos e começar a movimentar grossas quantias.
De facto só uma das contas - chamada 'conta mãe' é que tinha sido aberta com um depósito avultado. Depois era passar cheques de uns para os outros bancos, sempre com os mesmos fundos, está-se a ver, até ganhar a confiança dos gerentes das instituições.
2º Passo: começar a fazer depósitos com cheques de um banco das ilhas Caimão (ou outra qualquer). Os cheques eram sempre pagos com toda a regularidade pelo que nenhum dos responsáveis das instituições bancárias se lembrou de verificar a real existência do tal banco.
Ao fim de uns seis meses o hábito estava criado.
3º Passo: nesse ano o dia de Natal calhava a uma terça-feira e na quinta-feira anterior foram depositados nas três contas cheques do 'tal banco' no valor de larguíssimos milhares.
Na sexta-feira seguinte, pouco antes dos bancos fecharem para o fim-de-semana prolongado, apresentou-se sucessivamente nos três bancos e, sob o pretexto de uma necessidade urgente para um negócio entre mãos, sacar quase toda a massa deixando apenas uns trocos. Claro que os gerentes nem hesitaram em 'abastecer' a carteira do Valente com o carcanhol solicitado adiantando dos fundos dos ‘tais’ cheques. Quando o 'tal banco' abrisse na quarta-feira seguinte logo pagaria os cheques sacados.
4º Passo: o Robinson, um amigo da Gâmbia que o Valente conhecia há anos, que era o único 'representante' do 'tal banco' que evidentemente não existia, recebeu as cartas com os cheques enviados daqui, abriu-os e chegou a chama do isqueiro aos cheques que, rapidamente, deixaram de o ser.
O Valente recebeu um telegrama do Robinson que muito o tranquilizou e que rezava assim:

“PRONTOS!”

Fim do 32º episódio


Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Sentimento

Este é o sentimento,
sincero e puro
e não deturpado
por falsas companhias,
ou veleidades
de fazer bem.

Este é o sentimento
que me anima,
que dentro ri,
contente e puro
e me lembra
que devo pensar
em ti.

Lisboa,   61

sábado, 26 de janeiro de 2013

Tentação


Sei que és tu quem procuro
e que
devasso todas as horas.
Sei que és tu que me tentas,
a ser pior,
a ser melhor,
a não sentir
senão
angustia
de ser verdade
este meu dúbio desejo,
esta minha forte,
avassaladora,
veleidade
que não posso usar
ás claras
sem pecar!

Lisboa,   61

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 31º episódio


Combinaram um encontro num restaurante nos arredores de Vila Verde e lá compareceram.
O Alcino explicou:


“Os futuros sócios da Sociedade de Caça da Herdade das Pretas eram, aliás são, dez mas só podem comparecer oito, para já, porque dois estão com problemas com a Justiça… sabe como é, pessoas inocentes acusadas por inveja das mais torpes malfeitorias. Como neste momento estão a decorrer recursos para as instâncias superiores, enquanto a coisa não se resolver acharam melhor não darem a cara para evitar falatórios. É claro que, em qualquer caso, tudo deve ficar em ‘águas de bacalhau’ porque, entretanto, a maior parte dos crimes de que são injustamente, diga-se, acusados, está a prescrever.”

Um a um foi apresentando, as distintas personalidades presentes:

Valente Pereiro, Leite Araújo, Manuel Silva, Carolino Xuza dos Santos, Julinho Borrego, Isaurino Mortais,

O painel de amigos do Alcino não era extenso mas… era de ‘estalo’, por isso e para bem desta fantástica blogue novela, convém determo-nos um pouco em cada um.

Começando a deter-nos…

O Valente Pereiro, um dos primeiros a aderir à ideia do couto de caça era um sujeito que, logo depois do ‘vinte-e-cinco-do-coiso’, fizera fortuna com electrodomésticos. Comprava por atacado grandes quantidades de máquinas de lavar roupa e loiça, secadores para o cabelo - até chegou a comprar uma fábrica de mármore sintético - seja lá o que isso for - e transformar os tanques e prensas da mistela em maquinaria apropriada para produzir os pequenos aparelhómetros. Ninguém conseguiu perceber como mas o negócio foi um êxito embora de vida curta pois o Valente, desistiu dos secadores de cabelo e atirou-se valentemente a uma empresa têxtil completamente falida convertendo a coisa num êxito financeiro.
Pelo meio ainda teve tempo – e olho – para comprar uma loja de gabardinas cujo dono tinha para cima de noventa anos sendo o stock e a própria loja da mesma idade.
Vendeu por tuta e meia o stock a uns feirantes, arrebentou com aquilo tudo, deixando o espaço comercial limpinho e pintado de fresco. Foi só esperar umas semanitas e logo apareceu uma cadeia de ‘fast food’ interessada no local pelo qual esportulou umas vinte ou trinta vezes mais que o que o Valente tinha pago ao velhote.
O Valente era de facto um sujeito de enormes recursos, considerado por invejosos um aldrabão mas, o que é facto é que sobrevivia a todos os vendavais e furacões levantados pelos numerosos inimigos.

Fim do 31º episódio

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 30º episódio



Não nos chegou nenhum comentário assinado por um fulano ‘esquisito’. Aliás não o teríamos publicado.

Teremos muito gosto em publicar o seu, se for a dizer bem… claro!

Somos imparciais!


A esta altura o Senhor Engenheiro já está completamente à rasca e diz-lhe que… muito obrigado pela sua atenção, cá estarei para o receber quando lhe for possível etc., e tal e coiso…


E o Catorze diz: Pois… Senhor Engenheiro, de facto a coisa é grave, aliás, gravíssima e nem quero pensar no estardalhaço que uma inspeção destes serviços iria provocar, de maneira que não tem nada que agradecer. O pior é o tal assuntozito que tenho entre mãos…
E o outro: mas meu caro amigo, quando quiser e, já agora, esse assuntozito que diz ter entre mãos… é alguma coisa que eu possa ajudar? É que terei muito gosto…
Chegado a este ponto, o Catorze desbobina: Bem é um amigo que precisa de construir um hotel rural etc., etc. e etc. E está um bocado aflito com as licenças e as burocracias. Além do mais o custo que a construção possa ter, embora não seja numa exorbitância, também levanta alguns problemas.
E o engenheiro: mas meu caro, ainda bem que me fala nisso porque tenho um conhecido que pode encarregar-se da coisa sem nenhum problema. Ah! Quanto ao custo… depois falamos… quer dizer… esqueça isso. Está bem?
Claro que o Catorze responde: o Senhor Engenheiro é muito amável. Muito obrigado.
O Engenheiro: e a tal investigaçãozinha?
O Catorze: Ó Senhor Engenheiro! Esqueça isso… está bem!
E o Alcino, entusiasmado com a sua performance continuava:
A seguir é a mesma cena mas, desta vez, com o presidente de uma grande construtora. O paleio é mais ou menos o mesmo com uma alteração, desta vez, o dinheiro pago, com a generosidade costumada do Governo, por uma obra pública qualquer, ultrapassou umas vinte vezes o orçamento inicialmente aprovado, foi distribuído por uns sobrinhos, uns primos, uma cunhada já falecida e transformado em apartamentos na Linha, barcos de recreio de alto gabarito, férias nas Maldivas e outras ninharias do género.
O resultado é o mesmo: o Presidente do Conselho de Administração garante ao Catorze que tem o maior gosto em mandar uma das suas muitas empresas tratar da questão das reparações necessárias no couto de caça, o aramado, as tabuletas, enfim tudo, e, até, pela muita consideração que o Catorze lhe merece, mandar promover o repovoamento cinegético do dito couto. O amigo Marcos tá a ver como é?”

A propósito, ou mesmo sem ele, o Alcino resolveu que era ajustada a altura de apresentar a Marcos os seus amigos mais chegados os quais estariam também muito interessados na Sociedade de Caça:

Fim do 30º episódio

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 29 episódio

Não nos chegou nenhum comentário assinado por um fulano ‘esquisito’. Aliás não o teríamos publicado.

Teremos muito gosto em publicar o seu, se for a dizer bem… claro!

Somos imparciais!


 “É o seguinte: Tu e os teus capangas destruíram aquilo tudo, as casas, a capela, empanturraram-se com os carneiros que valiam milhares, enfim… uma razia completa! Aqui o Senhor Doutor tem de ser ressarcido disto tudo, não te parece? Mas, é claro, porque é uma pessoa de esmerada educação e fino trato não quer aproveitar-se da situação. No entanto, acrescentou olhando para Marcos com um olhar que queria dizer (esteja calado), o Senhor Doutor está a pensar aproveitar o que resta para construir um hotel rural que também servirá de apoio ao couto turístico. Ora bem: para isto é preciso um ror de papelada, licenças, projectos, autorizações, pareceres de não sei quantas entidades… o costume. Você podia facilitar a coisa não?”


O Catorze não se mostrou admirado, como se já estivesse à espera e, assim. Só disse: “Vou ver o que se pode arranjar.”

“Olha, olha! Você arranja tudo num abrir e fechar de olhos, isso tenho eu a certeza” rematou o Alcino.

Sozinhos, Marcos, que em toda a reunião, não dissera uma única palavra, aventou:

“Um hotel rural! Mas que raio de ideia!”

“Olhe alembrei-me disto ontem. Que lhe parece? Uma boa ideia não?”
“Bem… de facto… não me tinha ocorrido tal coisa. Mas você acha que o Catorze vai na conversa?”
“Já lhe disse e repito: O Catorze vai dançar a música que a gente tocar, tá a perceber? Não tem outra saída e, como já lhe disse, ele não gasta um cêntimo, é só uns telefonemas a este e àquele e já está. Quer que lhe diga qual vai ser a próxima acção? Vai ser mais ou menos assim:
Chama secretária diz-lhe: Ligue-me para a secretária do Engenheiro tal e tal e diga-lhe que eu preciso de falar com urgência com ele e acrescente: assunto altamente confidencial. Nem passarão dois minutos tem o fulano ao telefone e começa: Como está Senhor Engenheiro? Desculpe estar a incomodá-lo mas é que me apareceu aqui uma ‘ordem de serviço’ para destacar uma brigada de inspectores à sua empresa para averiguar de uma situação, que, a ser verdade, é altamente irregular: uma coisa qualquer com uns dinheiros… ora deixe cá ver… uns quarenta e tal milhões de euros que apareceram numa conta nas ilhas Caimão. Esta conta está, aparentemente, em seu nome. Mas, é claro, dada a consideração que o Senhor Engenheiro me merece achei que deveria poupá-lo a esta maçada e falar, eu próprio directamente consigo. Desejava fazê-lo ainda hoje mas tenho aqui um assuntuzitos entre mãos e…

Fim do 29º episódio

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 28º episódio

Não nos chegou nenhum comentário assinado por um fulano ‘esquisito’. Aliás não o teríamos publicado.

Teremos muito gosto em publicar o seu, se for a dizer bem… claro!

Somos imparciais!



Acrescentou ainda: “Ah! Já me esquecia: contratei – quer-se dizer – a empresa contratou uma empregada diária para todo o serviço da casa. É pessoa de toda a confiança e sabe cozinhar muito bem e todos os serviços caseiros. Se ela achar que é preciso mais alguém para a ajudar ela própria se encarregará de resolver o assunto”.

Por fim já com um pé fora da porta sacou do bolso da camisa um cartão e, meio envergonhado, entregou-o dizendo:
“O amigo Marcos não me leve a mal, mas eu sei das suas dificuldades, que, pelo que me contou devem ser muitas. Tem aqui um cartão de crédito sem limite para usar como quiser. E estas chaves são de um carrito – um Mercedes, desses mais pequenos – para o meu caríssimo amigo usar como quando desejar. Não se preocupe: está tudo em nome da empresa.” E desandou.

Só passados uns bons minutos, Marcos pareceu acordar de um ensimesmamento profundo e entrou em casa fechando a porta atrás de si. O estrondo foi enorme porque a porta era daquelas maciças cheias de ferrolhos e trincos à prova da ladroagem mais sofisticada.
Sentado no larguíssimo e confortável sofá, olhando o mar ali a dois passos deu largas ao pensamento. Aquilo tudo teria, fatalmente, de ter um preço, mas, qual? O quê? O Alcino bem sabia da sua desastrosa condição financeira… o que é que o homem queria?
Depois, percebeu. Tudo aquilo se devia ao futuro couto de caça. O que ele queria, de certeza, era ser o arrendatário do couto! Logo se veria… agora… desfrutar enquanto durasse!

No dia e no local aprazado lá se encontraram os três, Marcos, Alcino e Fernando Catorze. Este dirigiu-se logo ao Alcino como se fosse a pessoa mais importante que ali estava. Até o tratou por: Caríssimo Senhor Alcino Freitas! Era evidente que este acertara em cheio e que o Catorze já sabia sobre a sua vida tudo quanto havia para saber.
Abriu uma volumosa pasta e começou a sacar documentos.
Era só assinar aqui e ali, rubricar acolá, e… prontos… o couto turístico seria uma realidade dentro de quinze dias o máximo. Havia até uma verba – não despicienda - disponível para reparar o aramado, os postes de sinalização, as tabuletas informativas e toda a parafernália necessária. Até constava o nome da empresa já contratada, a custo zero, para efectuar os trabalhos. Uma maravilha!
Muito satisfeito com a missão cumprida, pondo na pasta a papelada assinada e rubricada, preparou-se para abalar.

“Espero que esteja tudo a contento. Se for preciso mais alguma coisa é só dizer…”
E o Alcino: “Ó Catorze, espera aí um bocado pá!”
O outro nem se deu por achado com a familiaridade e tornou a sentar-se.

Fim do 28º episódio

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 27º episódio


Não nos chegou nenhum comentário de Nafarros. Aliás não o teríamos publicado.

Teremos muito gosto em publicar o seu, se for a dizer bem… claro!

Somos imparciais!


No dia seguinte Marcos tocava à campainha de um terceiro andar de um prédio de categoria. Aberta a porta logo subiu no elevador até ao destino onde o esperava um Alcino sorridente e muito bem-disposto. Dirigi-o para uma porta que dava acesso a uma pequena saleta de onde passaram a um salão de avantajadas dimensões com uma enorme janela de correr donde se avistava o mar a uns escassos cinquenta metros de distância. De facto, era um andar em cima da praia. O resto da casa era de igual calibre. Divisões generosamente amplas, não sei quantas casas de banho, uma cozinha de hotel, lavandaria… Estava completamente mobilada, ao gosto do decorador contratado pelo proprietário e, se bem que houvesse uns detalhes um bocado, digamos, pirosos, até nem estava nada mal. Era, até, muito confortável.

Na cozinha o conjunto frigorífico-congelador de última geração, que até tinha na porta torneiras para água gelada e para tirar gelo moído ou em cubos, estavam cheias, a abarrotar, de comida de toda a qualidade. A garrafeira a condizer, ostentava uma profusão vinhos tintos e brancos, whiskeys, conhaque francês, etc., etc. O Alcino, não havia dúvida, passara a manhã às compras!
Olhando para aquilo tudo, Marcos não podia deixar de pensar que, tanta largueza e generosidade havia de ter um preço, mas deixava-se conduzir pelo espaçoso andar e, como um zombie, acompanhava o Alcino que excitadíssimo lhe mostrava as gavetas e armários cheios de roupa de cama, lençóis de banho, toalhas de mesa, vários serviços de loiça, de copos, de talheres…
Por fim, respirou e perguntou:
“Que tal? Convém-lhe? Há alguma coisa que não goste? Porque se há é só dizer e manda-se arranjar como meu amigo desejar.”
Marcos conseguiu articular:
“Ó Alcino, de facto, você é um tipo extraordinário que nem sei como descrever. Como é que poderei, alguma vez, agradecer-lhe tudo isto?”
E o outro já caminho da porta:
“Agradecer? Nada, meu amigo, nada de agradecimentos. Eu sou assim, sabe. Quando gosto de uma pessoa…”

Depois tirando do bolso um molho de chaves explicou a serventia de cada uma: a porta de entrada, a porta do elevador, o comando automático da garagem, da caixa do correio… Ainda disse que o telefone deveria ser instalado ainda nesse mesmo dia e que não se preocupasse com a conta, aliás, com nenhuma conta nem da água, nem do gaz nem da eletricidade porque estava tudo em nome da empresa.

Fim do 27º episódio

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Nada!!!


Escrita 3.3.3.jpgEu sou
o que escreve
sem sentido,
sem rei,
sem nada.
Sou eu
quem escreve,
quem quer
escrever,
para disfarçar
este terror
de morrer
e ficar
nada.

Lisboa, 61

sábado, 19 de janeiro de 2013

Ser

Escrita 3.3.3.jpg
Como eu,
inconsciente e nebuloso,
são meus pobres versos
de pé quebrado.
A vida que tenho levado,

(que me tem levado)

não me deixa tempo para ser eu.

Eu não sou,
e, sinceramente,
não creio que alguém seja,
como também não acredito
que se possa ser
sem morrer.

Lisboa, 61

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 26º episódio


Não nos chegou nenhum comentário de Boliqueime. Aliás não o teríamos publicado.

Teremos muito gosto em publicar o seu, se for a dizer bem… claro!

Somos imparciais!

“Mas você não tem receio deste tipo? Com os meios que ele tem…”
“Não! A esta hora já ele sabe tudo sobre mim, coisas até que eu já me esqueci. Mas não há problema nenhum que não se resolva. Sabe… tenho um sócio, isto é, uma pessoa conhecida, andaluz de boa cepa, que é capaz de com a naifa vazar o olho esquerdo de um gato a vinte metros e, além disso, tem uns colegas que nem lhe conto nem lhe digo. Onde eles aparecem fica tudo caladinho num sossego que até dá gosto! Mas não vai ser preciso pedir ao Zurrón, assim se chama o andaluz, para ter uma conversinha com o Catorze. Neste momento, tenho a certeza, também já sabe da sua existência e das nossas boas relações. Vai ver… não se preocupe.”
Marcos olhava para o Alcino como se o visse pela primeira vez. Quem seria aquele tipo?

O outro, depois de pedir mais uma rodada, prosseguiu:
“A sua história, que teve a gentileza de me contar, tem muito que se lhe diga. O meu caro amigo já passou muito, sofreu demais por causa destes filhos da p. Vamos pôr isto direito e, garanto-lhe, vai ser compensado. Para já e peço-lhe desculpa da sem-cerimónia, o meu caro amigo vai morar para um apartamento que tenho, novinho a estrear. Quer dizer… não é bem um apartamento… é um andar com umas seis ou sete divisões e cá com uma vista para o mar que não lhe digo nem lhe conto. Que me diz?”
Marcos ficou de boca aberta com esta tirada, sem dúvida generosa mas que, talvez, trouxesse água no bico.
“É que, sabe, eu não tenho possibilidades de pagar um arrendamento e logo por uma casa dessas! Nem pensar! Muito obrigado, agradeço-lhe muito mas tenho de recusar.”
“Mas homem! Quem é que falou em arrendamento? O meu caro amigo muda-se para lá e fica o tempo que quiser e não tem nada a pagar. Era o que faltava!”

Mais conversa daqui, mais argumento dacolá e Marcos acabou por dizer que sim, que aceitava. Despediram-se e combinaram uma hora para o dia seguinte para mostrar a casa e entrega das respectivas chaves.
E assim foi.

Fim do 26º episódio

Aviso da redacção:
Aos Sábados, Domingos e Feriados por questões de programação a blogue-novela não se publica, o que é uma peninha…
Então até Segunda-Feira, se Deus quiser, neste mesmo local, à hora que mais lhe convier, que isto está sempre a dar…

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Blogue-novela: Ti Bisnaga 25º episódio


De Mogofores chegou-nos o seguinte comentário:

“Poderosa novela bem urdida. Todo o seu enredo se desenvolve no pós revolução de Abril e na nova sociedade repleta de arrivistas, oportunistas e outros ‘istas’, que se permitem toda a sorte de diatribes e embustes como jamais se viu.”

Por ser muito interessante, desvanecidamente, se publica.

Está bom de ver que o facto de ser ou não ser inocente não lhes interessa para nada, há-de haver sempre quem investigue o seu passado, que é que fez numa terça-feira de uma semana qualquer de Junho de há quatro ou cinco anos, como é que comprou o apartamento onde vive, como arranja o carcanhol para ir passar férias ao Brasil – embora, talvez você nunca tenha ido mais longe que a Zambujeira do Mar – enfim, homem, perguntas e mais perguntas, suspeitas e mais suspeitas e, no final de tudo, você já não serve para a Secreta porque não há cão nem gato que não saiba quem é, o que fez, o que faz e o que se suspeita que terá feito, o Fernando Catorze e… adeus emprego, adeus amigos, adeus a tudo. Tá a ver a coisa? E não pense que eu estou a brincar, não! Tenho amigos e conhecidos que são peritos em montar uma história bem urdida que os tais meios de comunicação agarram com unhas e dentes lambendo os beiços. Ah… e para que fique tudo claro como água da fonte, daqui a uma semana, encontramo-nos aqui, neste mesmo local, a esta mesma hora, para saber as novidades, quer-se dizer… os resultados!”
O outro ia a dizer qualquer coisa mas, o Alcino, era duro como uma marreta e afiado como um punhal e não contemporizou:

“Não é preciso dizer mais nada! O recado está dado, a missão claramente definida portantos… andor que se faz tarde!”

O Catorze levantou-se logo e nem se atreveu a estender mão a nenhum dos dois, ia a chamar o empregado para pagar a bebida mas o Alcino fez-lhe um gesto a dispensá-lo de tal e desandou dali para fora.

Marcos ficou de boca aberta a olhar para o Alcino que, satisfeito da vida tinha mandado vir dois whiskeys.
“Mas você é uma maravilha, homem! Acredita mesmo que o tipo vai fazer o que lhe disse?”
“Se acredito? Tenho a certeza meu caro amigo. A esta hora já deve estar ao telemóvel a falar sabe-se lá com quem, a dar os primeiros passos no caso. Você nem imagina o poder que estes tipos têm, sabem tudo e mais alguma coisa sobre pessoas importantes e, quanto mais importantes mais sabem: o que comem, o que bebem, com quem dormem, se dão umas facadas no casamento e com quem, onde e a que horas, quanto carcanhol têm nas off shores… enfim… tudo e mais alguma coisa. Um ‘pedido’, entre aspas, de um gajo destes a um ‘truta’ qualquer é como uma ordem de um general a um soldado raso: nem se discute ou pergunta. Eu não me chame Alcino Freitas, se daqui a uma semana o Catorze não se apresenta aqui com tudo arranjadinho e pronto.”

Fim do 25º episódio

Nota: A criação, o grafismo, a composição… enfim… tudinho desta pepineira é da exclusiva autoria de ama.