Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



domingo, 25 de setembro de 2011

Novela antiga – 11º episódio

Durante alguns jogos pensou que se tratava apenas de mera pouca sorte sua, ou excesso de sorte do adversário, propondo-se batê-lo, irremediavelmente nos dias seguintes. Arquitectara jogadas sobre jogadas, fazendo esquemas e avaliando probabilidades, chegando à conclusão que usando atrevimento e audácia, misturada com a sorte indispensável, bateria, sem apelo nem agravo, o seu opositor. Assim, planeou duas ou três jogadas para atingir as paradas mais altas o que lhe permitiria recuperar o que já tinha perdido.
A primeira jogada decorrera tal como planeara, arrecadando grossa maquia, respirando aliviado. Agora, que as coisas estavam de novo no seu lugar, poderia fazer o jogo do costume com os resultados habituais.
A jogada seguinte começara alta. Alguns dos jogadores protestaram, em vão, já que Marcos tinha insistido que seria a única forma de tanto ele como só outros, terem uma oportunidade de recuperarem as perdas e equilibrarem as contas.
Evidentemente que não se jogava com dinheiro na mesa. Havia que ter cuidado com a polícia que podia aparecer inesperadamente. Jogava-se com fichas e, um encarregado da confiança de todos, tomava nota das dívidas de cada um.

Subitamente, sem que nada o fizesse prever, as luzes apagaram-se mergulhando a sala na mais absoluta escuridão.
Sentiu uma ligeira deslocação de ar atrás de si como se alguém se tivesse aproximado rapidamente.
Teve consciência de umas mãos calçadas de luvas que lhe enfiavam pela cabeça um saco de plástico, enquanto outras mãos poderosas o imobilizavam contra as costas da cadeira.

Debateu-se em pânico, sentindo-se sufocar. Em vão!

sábado, 24 de setembro de 2011

Novela antiga – 10º episódio

Via muito bem a deferência com que o gerente da Filial tratava os clientes com contas importantes e o ar de indiferença com que cumprimentava, ou por vezes até fingia ignorar, outros clientes normais, isto é, aqueles cujas contas, apresentavam números que se escreviam com poucos algarismos.
Mas, o dinheiro em que Marcos pensava, não tinha dimensão ou grandeza do seu salário, não. Era um dinheiro grande, grande, que estava em qualquer parte do mundo esperando por ele. Que seria, um dia, seu, com certeza. Pensava no que faria com esse imenso dinheiro, no que compraria, nas pessoas que poria às suas ordens, no poder que escorreria do mais simples gesto que entendesse fazer.
Naquele Verão, no Algarve, tinha tido um vislumbre do que era esse dinheiro. Essas quantias grandes que algumas pessoas usam e movimentam com à vontade como se o valor intrínseco do dinheiro não seja coisa a ter em conta mas apenas algo de confortável e sempre à disposição, quando necessário. Fora fácil dar-se conta, que era possuidor de quantia que só ao fim de alguns anos de trabalho, sem despesas, poderia pensara em reunir. Todos os dias o seu pecúlio aumentava sem dificuldade, como que por milagre. Marcos percebera que o jogo era, para ele, uma maneira fácil e rápida de ganhar ou obter o “Tal Dinheiro” que secretamente visionava. Porém, as coisas não tinham corrido exactamente como previra.
Um dos parceiros de jogo, um tipo de barbas, de apelido Azevedo, tinha-o aliciado para uns jogos entre amigos, numa estalagem fora da zona de povoações. Marcos aceitou o convite. Por duas ou três vezes, ganhara sem dificuldade importâncias consideráveis. Tinha desenvolvido a sua própria estratégia de jogo que consistia praticamente em arriscar bastante, fazendo bluff nas jogadas altas e abstendo-se quando as paradas eram de baixo valor. Isto dava aos parceiros a impressão de que se tratava de um jogador cauteloso e muito seguro, que raras vezes se saia mal. Tudo parecia correr muito bem até que, nos últimos dias aparecera um indivíduo jovem que Marcos nunca tinha visto que jogava forte e sem parecer dedicar grande importância, quer ao que perdia como ao que ganhava. Contra este indivíduo era impossível fazer bluff e, assim, Marcos passou a ter, quase sempre, um opositor nas jogadas grandes. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Novela antiga – 9º episódio

Escolhera aquele emprego por causa da proximidade de casa, assim, teria menos trajecto a efectuara diariamente. Apesar de tudo, fora a irmã que falara com o antigo gerente, agora reformado, da Agência onde trabalhava. Fora ela quem o apresentara descrevendo os seus predicados, as suas qualificações académicas. Marcos ficara sentado, praticamente sem abrir a boca durante toda a entrevista. O gerente, querendo ser agradável à jovem, não resistindo à sua insinuante simpatia, procurara arranjar uma colocação. Porém, a dificuldade residia no facto de este ter uma enorme dificuldade nas relações humanas, quer com clientes quer com os próprios colegas e, assim, pensou que o melhor local seria sem dúvida o de “caixa” em que o contacto com os clientes era restrito e, ainda, porque o carácter introvertido do rapaz e o seu meticuloso cuidado em tudo quanto fazia o indicavam para um lugar que, naturalmente requeria uma pessoa com as suas características.
Assim fora que, Marcos, entrara para o seu trabalho e o desempenhara sempre a contento. A tarefa era fácil, tratava-se apenas de receber e pagar, manter as contas certas, a papelada em ordem. Ninguém tinha nada a dizer sobre o seu trabalho, sempre impecável. Não tinha de tomar decisões nem lhe eram pedidos rasgos de dinamismo, tratava-se de um trabalho rotineiro, sempre igual e, no fundo, era isto que lhe convinha.
No entanto, Marcos sendo assim estruturalmente, tinha uma outra personalidade, escondida e secreta. A de um homem rancoroso, odiento e invejoso. Tinha inveja, velha de anos, dos outros, dos colegas, dos homens e mulheres com quem falava e com quem tinha de privar ou conviver. Todos eles eram pessoas normais, bem constituídas, sem defeitos físicos, sem nenhuma anomalia que provocasse nos outros sorrisos de troça ou comiseração. No segredo do seu quarto, à noite, pensava que um dia teria a sua vingança vendo a seus pés os idiotas dos colegas, todos, até o próprio gerente. À força de lidar com dinheiro, todos os dias, durante tantas horas, Marcos tinha posto perante si mesmo que a mola real desta vida e deste mundo é o dinheiro. É ele que comanda as pessoas e as coisas. Sem ele, nada se faz nem nada se produz. Com ele, tudo é possível, todas as portas se abrem.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Novela antiga – 8º episódio

O seu espírito aberto tinha-a levado a participar activamente na política, sendo militante assídua e importante de um agrupamento político conotado com a Direita, ao qual, dedicava grande parte do seu dinamismo e persuasão dos outros.
Ao contrário, Marcos, era um ser introvertido e tristonho. O seu defeito físico e a falta da Mãe em pequeno, tinham marcado a sua vida. De cabelo preto e olhos negros, muito pequenos, que pareciam permanentemente assustados, raramente conseguindo encarar de frente a pessoa com quem falava, Marcos arrastava uma vida intensamente particular, metido consigo, viajando de casa para o trabalho e do trabalho para casa, sem para sequer num café para uma simples troca de impressões com colegas ou conhecidos.
Marcos era franzino e enfermiço.
No Inverno as constipações gripes eram constantes, trazendo permanentemente o nariz vermelho e congestionado. Sabia que os colegas o alcunhavam de “narigudo” por via disso. Para disfarçar, deixara crescer uma espessa barba, bem contra a vontade da irmã. A barba ao invés de camuflar o seu proeminente apêndice nasal, realçava-o ainda mais fazendo-o parecer desmedidamente vermelho e enorme.
Marcos era uma criatura sem destino ou futuro à sua frente. Tinha sido um aluno brilhante. Estudava noites inteiras e com este sistema conseguira superar de uma forma falsa, a sua inferioridade perante colegas de estudos que o detestavam e, normalmente o excluíam das brincadeiras e convívio.
Mas as altas classificações e a formatura com resultados brilhantes, não tinham conseguido mais que um lugar de empregado numa agência bancária. Marcos fora incapaz de concorrer a um emprego melhor, provavelmente, melhor remunerado e mais de acordo com as suas capacidades e curriculum. Fosse como fosse, o que ganhava era suficiente e ainda sobrava para o seu parco sustento e, juntamente com o que a irmã ganhava, conseguiam ter uma casa confortável e bem abastecida.
Para Marcos bastava. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Novela antiga – 7º episódio

Clotilde, nessas ocasiões, não conseguia reter as lágrimas e abraçava-se ao irmão com a maior ternura que de facto sentia.
Pensava que o irmão via nela mais que a irmã a Mãe, que lhes tinha faltado tão cedo. Clotilde pouco mais velha era que o irmão, no entanto, quando a Mãe morrera, este era ainda muito pequeno e, talvez por esse motivo, a falta da Mãe, o tivesse traumatizado tanto e marcado por toda a vida, vendo na irmã uma substituta da Mãe desaparecida.
Clotilde tinha esperança de encontrara para Marcos uma rapariga capaz de o querer e modificar, trazendo alegria e interesse à sua vida, Não havia semana que não levasse a casa uma nova amiga que apresentava a Marcos, sempre na esperança de vislumbrar no seu semblante sombrio, uma réstia de interesse.
No entanto, era difícil que tal sucedesse. Seu irmão era um rapaz não só tímido por natureza como um inibido com um defeito físico. Com efeito, Marcos, tinha nascido com uma perna mais curta que outra o que o obrigava a usar calçado ortopédico e a andar ás sacudidelas e claudicando.
Não eram só estas as diferenças entre Clotilde e Marcos Saldanha.
Ela era uma rapariga alta, bem feita de corpo e esbelta, com uns olhos verdes grandes e luminosos que pareciam olhar o mundo e a vida de frente e com um sorriso de boas vindas e confiança.
Nunca fora um estudante excepcional, nem sequer muito boa, mas conseguira tirar um curso de secretariado que lhe permitira ter acesso a um lugar de grande destaque, como secretária de Administração numa importante empresa.
Na verdade, sabia que devia este lugar, mais à sua presença física e ao seu à-vontade que à sua eficiência profissional, mas, fosse como fosse, podia considerar-se bem colocada, numa posição que lhe garantia não só uma excelente remuneração, mas também prestigio e consideração entre superiores e colegas.
Era uma mulher franca e aberta, sempre pronta a ajudar uns e outros, sem contudo perder um certo ar de altivez e distante que punha os eventuais conquistadores perante situações de embaraço.
Clotilde esperava pelo seu príncipe encantado, como ela dizia. Tinha arquitectado para si mesma, um futuro com um homem a seu lado, um homem escolhido por si evidentemente, com quem constituiria uma grande família feliz.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Novela antiga – 6º episódio

De facto, o chefe, tinha ficado bem impressionado com o seu gesto e tinha até dito aos seus colegas que tal prova de pundonor e preocupação profissional muito o honravam e que traduziam uma mentalidade correcta, preocupada com a imagem de seriedade e incorruptibilidade que um bancário tem de dar de si.
Sabia bem que, alguns colegas, os pertencentes ao Partido, tinham comentado à boca pequena, o acontecimento, insinuando até que se tratava, não de um tio, mas sim de um Partido de Direita, onde parecia que Marcos militava, em paga de elevados serviços prestados.
Marcos não se dera ao trabalho de rebater essas insinuações, não só por serem costumeiras da parte de quem vinham, mas também por não ter a menor simpatia por partido político nenhum, fosse qual fosse, de Esquerda ou de Direita.
Sempre tinha vivido uma vida ferozmente particular, privada, fechado consigo, praticamente sem amigos. Apenas a sua irmã tinha alguma da sua confiança mas, mesmo essa, era repartida por pequenas coisas. Marcos era, o que se podia chamar, um solitário, vivendo consigo mesmo e para si mesmo. Nunca tinha tido um namoro, não frequentava nem bailes nem festas e, raramente saía à noite. Quando o fazia, a insistência da irmã, era invariavelmente para ir a um cinema ou a outro espectáculo igualmente inocente.
Sua irmã, bem ao contrário, era uma mulher extraordinariamente dinâmica. Cheia de vontade e querer, vivia uma vida intensa de amizades e companhias, só perturbada pela misantropia do irmão, a quem queria como uma Mãe, de quem cuidava com todo o carinho e desvelo.
Clotilde sabia muito bem que o irmão necessitava dela. Por várias vezes tinha recusado propostas de rapazes dispostos a casarem-se com ela só para não deixar o irmão sozinho.
Na sua opinião, este era um óptimo rapaz, cheio de atenções para com ela, sempre preocupado com a sua saúde e o seu bem-estar, gastando todo o dinheiro que ganhava em presentes que lhe oferecia com uma espécie de timidez, que era ao mesmo tempo, devoção filial.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Novela antiga – 5º episódio

Marcos começara a jogar há pouco tempo. Nunca percebera como se deixara arrastar para aquele vício terrível que o estava destruindo.
Fora no Verão passado, na praia, durante as férias.
Uns amigos tinham-no aliciado para umas partidas de poker.
Tinha ganho facilmente as primeiras vezes e, o lucro fácil e rápido, tinha-o entusiasmado. Criara até, uma certa fama de homem com sorte no jogo.
Várias coisas tinham acontecido; os lucros do jogo tinham permitido a compra de um pequeno barco a motor, com que descobrira as delicias de um veraneante endinheirado, alem de outras coisas mais, como poder dispor de fundos para convidar amigas e amigos para bebidas, jantares e festas que, só com o seu ordenado e subsidio de férias, jamais teria conseguido.
Foram as melhores férias da sua vida em que, gastara mais em vinte dias do que gastava normalmente em dois anos. E sem grande preocupação.
Voltara para casa com singular pecúlio que aplicara logo, em parte, na compra de um automóvel e noutras coisas de somenos importância.
À sua irmã, Clotilde, vestira-a dos pés à cabeça com o que havia de melhor em lojas e boutiques, sem olhar a preços, bastando que fosse moderno, bonito e das melhores marcas.
Por causa das suspeitas, ou para evitar rumores desagradáveis, depositara o dinheiro noutro banco que não o seu, aparentando, todavia, no seu trabalho e perante os colegas, a mesma conduta e o mesmo nível de vida que tinha levado até então.
Quanto ao automóvel, dera uma explicação ao próprio gerente da agência onde trabalhava, que se tratava de uma oferta de um tio que tinha insistido em presenteá-lo.
Achara esta desculpa um pouco forçada e correndo o perigo de o chefe vir a descobrir que ele, afinal, não tinha nenhum tio, nem de resto, parente algum que pudesse oferecer-lhe tal presente, mas, pensou também, que o facto de ter tido esta explicação com o gerente, o tinha colocado numa posição de funcionário consciente e preocupado com os aspectos inerentes ao seu trabalho e seriedade de conduta.

domingo, 18 de setembro de 2011

Novela antiga – 4º episódio

Um dos clientes, uma senhora de certa idade, jazia inanimada no chão. Desmaiara provavelmente com o susto. O Gerente estava louco ao telefone, tentando estabelecer ligação com a Policia, à porta juntavam-se populares atraídos, como moscas, pelos gritos dos funcionários que tinham corrido para a rua assim que tinham percebido o automóvel afastar-se.
Viviam-se momentos de confusão e excitação, em que todos pareciam fora de si, falando ao mesmo tempo, dando e pedindo explicações, aventando hipóteses, discutindo o assalto e os assaltantes.
Marcos sentara-se numa cadeira, perfeitamente imóvel, com ar aparvalhado e de infinita preocupação espelhado no rosto.
O Gerente, homem enérgico e dinâmico, conseguira impor a calma e mandara fechar as portas do estabelecimento para que não entrasse nem saísse ninguém até à chegada das autoridades.
Estas não se fizeram esperar.
Com grande aparato de automóveis, sirenes tocando, guardas armados e homens à paisana, depressa chegaram ás portas da agência bancária, tendo cortado toda a circulação na área exterior.
Um deles, à paisana, que deveria ser o chefe, irrompeu correndo pela agência dentro gritando:

- Ninguém mexa ou toque em nada. Coloquem-se exactamente nos mesmos locais em que se encontravam no momento do assalto. Quero silêncio, por favor. Terão tempo e oportunidade de falar e me contarem, cada um por sua vez, as vossas impressões e o que observaram e podem concluir. Por agora, temos de deixar agir os peritos.

Esta ordem não se destinava a Marcos, que permanecia no mesmo lugar, sem mexer sequer um músculo.
Pela sua mente, em tumulto, passavam os mais perturbadores pensamentos.
Via-se enviado para uma prisão, por largos anos, depois de um processo nos tribunais que o condenariam, sem apelo, pelos actos praticados. E, tudo isto, por pura e manifesta falta de sorte.

sábado, 17 de setembro de 2011

Novela antiga – 3º episódio

Um deles, um tipo alto e magro, todo vestido de negro, com a clássica meia tornando irreconhecíveis as feições, estava já dentro da zona do balcão e dirigia-se para a “caixa”.
Com um gesto, fez sinal a Marcos que se afastasse. Munido de um saco de matéria plástica, que trazia enrolado debaixo da camisola, começou a recolher os maços de notas, amarrados com elásticos que Marcos tinha disposto há pouco nos respectivos cacifos.

As ordens actuais eram no sentido de que o máximo montante que os “caixas” deveriam ter no balcão, deveria ser duzentos contos, mas, Marcos, que tinha chegado um pouco atrasado, não tinha tido tempo de ordenar todo este dinheiro e, assim, o que estava à vista, deveria somar uns cem mil escudos, quando muito. O resto permanecia ainda na caixa de folha que estava numa prateleira no interior da “caixa”.

O assaltante pareceu surpreendido com o parco montante em notas que tinha posto já no saco de plástico. Deveria ser um homem treinado e capaz de reconhecer num golpe de vista, pelo volume, o montante. Olhou em volta e para baixo, tendo visto a caixa de lata e a pasta de Marcos que estava na mesma prateleira.
Rapidamente, abriu a primeira e extraiu dela o dinheiro.
Marcos, apavorado, viu-o depois abrir a sua mala, espreitar o interior e, seguidamente, com um sorriso, passá-la ao companheiro.
Com um breve sinal aos outros comparsas, deu a entender que estava completa a missão e, com um salto por cima do balcão, dirigiu-se para a porta, sempre a coberto das armas com que, os outros dois, mantinham em respeito os funcionários e os clientes.
Em breve desapareciam pela porta de vidro e se ouvia o ruído de um automóvel em aceleração precipitada pela rua acima.

Toda esta operação não tinha levado mais que três minutos. Todavia, a Marcos, tinham parecido séculos, o tempo decorrido desde que dera pela arma apontada ao peito, até agora, ao crescente ruído de excitação de colegas e clientes.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Novela antiga – 2 episódio


A sua reacção ao ver o cano de uma arma apontada directamente ao rosto, foi de espanto e surpresa. Imediatamente percebeu que se tratava de um assalto.  
Muitas vezes, quando os colegas discutiam e comentavam os frequentes assaltos a Agências bancárias, que, ultimamente, se tinham convertido numa autêntica praga, imaginara qual seria a sua reacção se, por acaso, se visse confrontado com um caso destes.
Arquitectara mil e uma atitudes de alternativa e, não lhe restavam duvidas que reagiria com determinação e, talvez até, com violência, a qualquer acto desse tipo.
Porém, agora, contemplando o buraco negro do cano da arma que um indivíduo embuçado numa meia de nylon, lhe apontava, apenas conseguia ficar, ali, estático, de pedra, sem dizer palavra ou atrever-se a um gesto.
Pequenos gritos e expressões abafadas, foram as únicas demonstrações de que algo de anormal se estava passando.
Um dos mascarados, em poucas, mas incisivas, palavras, dissera o que queriam e estavam dispostos a fazer: Queriam o dinheiro existente e estavam dispostos a tudo para o conseguir, não admitindo interferências ou delongas.

Não houvera tempo de accionar o alarme.

Os indivíduos pareciam conhecedores dos cantos da casa, já que, um deles se colocara, exactamente, no ponto do balcão onde estava situado o botão que accionava o alarme exterior.
Havia outros locais onde o contacto era possível, mas que estavam fora de alcance.
O sistema estava ainda a ser montado e tanto o alarme como o sistema de abertura retardada do cofre, estavam ainda em regime de ensaio e montagem.
Os assaltantes pareciam saber disto, já que agiam com grande à-vontade e despreocupação.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Novela antiga – 1º episódio

Logo após a abertura da Agência Bancária, seriam talvez cerca das nove horas e dez minutos, não havia ainda muito movimento de clientes.
Duas ou três pessoas aguardavam junto ao balcão que as atendessem e apenas um homem, com uma pasta preta na mão, se encontrava junto ao “guichet” do “caixa”, provavelmente, para fazer algum depósito.

Marcos Saldanha, o “caixa”, estava bastante nervoso aquela manhã.

Este, ia ser o dia que, decidira, veria resolvido o grande problema que, ultimamente nem o deixava dormir.
Não o podia fazer já, contudo, teria de aguardar que o movimento de clientes se intensificasse e que os depósitos tomassem vulto, para fazer aquilo que tinha de ser feito.
No dia anterior, o Gerente do Balcão, tinha avisado todo o pessoal que uma inspecção da Sede do Banco era esperada essa tarde e, embora estas inspecções fossem meros actos de rotina, queria que tudo estivesse em ordem e não houvesse qualquer falha.
Marcos Saldanha agradecia a boa sorte que lhe permitia livrar-se à justa de uma situação muito perigosa.
Contava mecanicamente o dinheiro e verificava os cheques que o primeiro cliente tinha feito passar sob a abertura do vidro que o separava do público. Como habitualmente, de há uns tempos atrás, o dia amanhecera frio e chuvoso e ele continuava de casaco vestido. Não o tiraria enquanto o ar condicionado não tivesse reposto a temperatura ambiente normal.
A seus pés repousava a maleta que tinha trazido com todo o cuidado e precaução, nessa manhã.
A um reparo de um colega que, por causa da maleta lhe chamara “administrador”, respondeu que iria aproveitar a hora do almoço para pôr em ordem várias coisas da sua vida particular e que, por isso, tinha trazido a pasta com documentos pessoais.
Absorvido na sua tarefa, Marcos Saldanha nem se deu conta que a dupla porta de vidro da Agência se abrira, dando passagem a três homens de rapidamente se aproximavam do balcão.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Caça ou Pesca?

Segunda-feira, dez e quarenta e cinco da manhã

Era um bocado tarde para o que tinha a fazer, mas, dormira mais que o habitual. De facto, na noite anterior tomara um comprimido que, embora fraquinho, lhe dera uma noite inteirinha de sono. Que tão precisado andava… Há mais de um mês que andava naquilo, dormia mal, acordava ainda de noite e, depois, adormecer nem pensar. Ficava para ali, às voltas na cama até já não aguentar mais e ter de se levantar. O que é que se pode fazer às cinco da manhã?
Agarrava-se ao horário como um cadastrado e começava a cumprir o determinado com três horas e meia de avanço. Às vezes punha-se apensar porque carga de água é que havia de ter um horário! Não tinha que dar contas a ninguém do que fazia ou deixava de fazer, não tinha nenhuma encomenda ou compromisso a satisfazer… mas, tinha de ter um horário e bem rigoroso, por sinal. Se não… era um descalabro, andava todo o dia às voltas com mil coisas, começando isto e mais aquilo acabando sempre por não completar nada.

Hoje era um dia “especial”, o horário ficara por cumprir já que uma tarefa importante surgira para aquela manhã de segunda-feira. Só que, começara mal, o combinado, consigo mesmo, claro, é que às dez em ponto faria o que tinha a fazer e, já eram dez e quarenta e cinco!

Começava a enervar-se… quando se começa mal…

Voltou-se para a montra da loja de ferramentas e, mais uma vez, conferindo a sua imagem reflectida no vidro, perguntava-se: O bigode postiço parecia real? Os óculos escuros não seriam um pouco grandes de mais? As mãos calçadas de luvas estavam bem firmes? O cachecol em volta do pescoço não lhe tapava demais a cara? Não seria suspeito?

Tentou tranquilizar-se. Ensaiara em casa vezes sem conto toda a manobra que tinha a executar, tinha cronometrado todos os passos. Era um tipo meticuloso, concentrado, não deixava nada ao acaso.

Alterar agora as coisas só porque se atrasara uns minutos seria uma patetice. Nem podia adivinhar quando estaria disposto, outra vez, a repetir tudo. As coisas não eram assim tão fáceis, Havia que concentrar-se, escolher o dia e a hora e, depois, para a afrente com determinação e sem hesitações.
Não…não, iria para a frente com a coisa e pronto, que se lixasse o atraso!

Ajustando melhor as abas da gabardine cheia de nódoas – o desgraçado com quem a trocara por um sobretudo quase novo, ficara a olhar para ele como se fosse o Pai Natal – atravessou a rua com passo incerto dirigindo-se à porta da agência bancária que segurou amavelmente dando entrada a uma mulher ainda jovem empurrando um carrinho de bebé. Aquilo foi uma complicação porque, com o carrinho, mal cabiam entre o espaço das duas portas de segurança e a verdade é que, a segunda porta que dava acesso ao interior não se abriria enquanto a primeira não se fechasse.
Mais um contratempo, pensou, agora toda a gente vai reparar em mim. Mas não houve mais tempo para tergiversações, um funcionário, diligente, tendo-se a percebido da situação, abria a porta do lado de dentro.

A rapariga empurrando o carrinho à sua frente entrou primeiro e, logo, sem a mais breve hesitação seguiu-a entrando na agência bancária onde se encontrava apenas mais um funcionário além daquele que abrira a porta.

‘Bom… isto está bom, pensou, vai correr que nem ginjas’

Resolveu esperar que a jovem se dirigisse ao balcão a fazer o que tinha a fazer para depois actuar. Com uma rapariga e ainda por cima com um bebé, nunca se sabia e ele não queria complicações.

Apertou com mais força a coronha da arma que guardava no bolso da gabardine revendo mentalmente todo o plano. Teve o cuidado de não olhar nunca para a câmara de vigilância que “varria” o interior da agência. Não obstante o disfarce era melhor não facilitar que, hoje em dia, os tipos tinham técnicas apuradas para descobrir coisas que deveriam estar escondidas.

A rapariga ainda não tinha dito uma palavra. Encostando o carrinho ao balcão debruçou-se sobre o mesmo como que para acariciar o bebé que parecia estar a dormir com a cara quase tapada com uma pequena manta azul e um gorro, também azul, enfiado até aos olhos. Quando se endireitou trazia na mão uma pistola que apontou ao caixa.

O funcionário ficou branco como cal e perguntou com voz ligeiramente rouca o que pretendia.

Sempre sem articular palavra, a rapariga apontou para as gavetas do dinheiro ao mesmo tempo que punha em cima do balcão um saco, desses onde as jovens mães costumam transportar as fraldas e demais apetrechos para o bebé.

Atónito, via o funcionário encher o saco com as notas que aparentemente estivera a contar. Parecia ser um bocado de massa.

Mas que raio de azar! Rapidamente pensava no que iria fazer, pois… tinha de fazer qualquer coisa.

O outro funcionário ficara imóvel como uma estátua, encostado à porta que acabara de fechar. A situação era tão insólita quanto imprevista. Não constava nos seus planos. Nem poderia constar, caramba! Quem é que poderia prever uma coisa destas!

A rapariga já recolhia o saco com o dinheiro e voltava-se agora para trás, para ele com ar de quem vai fazer uma pergunta qualquer. Provavelmente exigir-lhe também os valores que levaria consigo. Ao ver o seu ar miserável, a gabardina suja, o aspecto desleixado, deve ter concluído que não valeria a pena o incómodo e deixando o carrinho do bebé onde estava, dirigiu-se para a saída em passo rápido.

Sem saber o que fazia, deu consigo a dar um berro: alto aí!

Na sua mão a pistola apontava agora para a rapariga que já com a mão no trinco da porta se voltava para ele com a surpresa estampada no rosto.

O olhar doce e sorridente de jovem mãe fora substituído por um olhar frio como o aço. Com um sacão atirou-lhe com o saco que lhe acertou em cheio na cara fazendo-o recuar um passo ou dois.
Tropeçando no carrinho que estava a trás de si caiu desamparadamente para trás batendo violentamente com a cabeça no balcão. Meio tonto, viu o bebé, que não passava de um boneco de plástico, cair no chão e a rapariga a abrir a porta e a desaparecer em corrida rápida.

Ficou ali estendido no chão, com um dos funcionários debruçado sobre si, tentando reanimá-lo. O outro discava freneticamente um número no telefone enquanto o alarme disparava com um barulho ensurdecedor.

E ali ficou pensando na grande complicação em que se metera.

Como é que iria explicar à polícia que deveria chegar em minutos, o que acontecera, quem era, onde morava, porque é que levava um bigode falso e se atrevera a fazer frente a uma perigosa assaltante com uma inofensiva pistola de plástico…

E, curiosamente, a única explicação que encontrava, a verdadeira, era que se tinha atrasado uns minutos.

domingo, 4 de setembro de 2011

Tranvia!!!

A última vez que viajara de comboio fora há tantos anos...

Apanhava o comboio em Alfarelos às 6 da manhã para desembarcar em coimbra às sete e meia. Dali...a butes para o quartel o que ainda era um "esticão".

Claro que quando se têem vinte anos e se anda na tropa, isto de "esticões" é uma brincadeira.


As carruagens, quer dizer, os vagões para os passageiros, tinham bancos de pau e costas direitas o que nem chegava a ser um incómodo porque era raro sentar-se já que nunca havia espaço entre o pessoal que ia para a feira semanal no Calhabé, devidamente acompanhado de cestos de legumes, sacos de feijão, galinhas, frangos e coelhos, pevides, tremoços, sardinhas salgadas, sacos com pão escuro e broa...
Enquanto na estação, o comboio era sujeito a algumas operações importantes como um funcionário munido de um martelo com cabo muito comprido que passava dando umas marteladas nas rodas como que a sentir se estavam em condições, uma vez por outra puxava de uma almotolia com um bico também muito comprido e injectava um óleo negro no veio da roda.
Um outro funcionário acendia os candeiros do tecto da "carruagem". 

Pois... eram a petróleo...

Tudo em ordem soava o apito do chefe da estação de olhos cheios de sono. Aliás o pijama que espreitava por debaixo do uniforme fazia prever a sua próxima actividade.

O maquinista também tinha direito a manifestar-se e três tremendos e demorados apitos do comboio acordavam toda gente da povoação.

Logo que ganhava alguma velocidade o comboio regressava à pálida visibilidade da madrugada porque os candeeiros há pouco acesos apagavam-se com a corrente de ar.
Os que estavam acordados punham-se às janelas a conversar com os que viajavam lá fora pendurados nos estribos e que eram quase tantos como os que viajavam dentro.
Estes "passageiros" não eram "especiais", mas a verdade é que nunca chegavam a pagar bilhete. 

O comboio viajava à extraordinária velocidade de 20 ou 30 quilómetros por hora e parava em todas as estações e apeadeiros , por isso demorava hora e meia a percorrer os 45 quilómetros da viagem.
Não pagavam mas nem por isso a CP deixava a coisa em claro (no verdadeiro sentido do termo); nas curvas da via férrea que parecia um caracol rodeando hortas e terras de cultivo, o fumo negro que saía em espessos rolos da chaminé deixava o pessoal completamente "africano".

Este comboio tinha um nome muito interessante: TRANVIA!

Nunca soubera o que aquilo queria dizer nem de resto lhe interessava. A CP tinha - parece que sempre teve - misteriosos modos de dar nomes às coisas.
Por exemplo: "assagem de nível" não é como o nome poderia fazer supor, uma mudança de nível mas apenas um local onde a via férrea é atravessada por outra via que não  seja férrea porque, se o for, é um "entroncamento".

O revisor a bater-lhe no ombro fê-lo despertar das suas recordações. Olhou em volta e não viu nem feirantes nem galinhas ou sacos de feijão, os passageiros eram gente bem vestida, a falar ao telemóvel ou a dedilhar os PC portáteis, as confortáveis cadeiras tinham encosto regulável... 

Enfim... Outros comboios, outros passageiros, outra idade... 

Contabilidade Maia