Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



quarta-feira, 31 de agosto de 2011

CSI - Porto 1

Conseguia distinguir, pelo menos, marcas de sete golpes de um instrumento cortante. Algumas eram profundas e ainda sangravam abundantemente, outras nem tanto, pareciam mais uns cortes superficiais como se o autor se tivesse divertido a retalhar a vítima.
Levantou-se da sua posição de joelho em terra e olhou para a colega de trabalho que, pálida como cera, segurava o bloco, onde, com mão trémula, anotara o que lhe fora transmitindo.
Excluíra, desde logo, a hipótese de se tratar de mais que um perpetrador. nas largas manchas de sangue que rodeavam o cadáver, apenas se notavam sinais de dois pés calçados com meias. O assassino não tivera a menor preocupação em deixar esses sinais bem como vários outros dos quais, o mais importante, talvez fosse o que escrevera na parede com o próprio sangue da vítima: “O que acontece aos traidores”.
Aníbal Cortina, tinha uma considerável experiência de crimes macabros e, nem por isso, este deixava do impressionar. A sua assistente, ainda com pouca experiência neste tipo de crimes violentos, não conseguia disfarçar o incómodo que lhe causava o cenário dantesco. Por isso achou preferível mandar cobrir o cadáver com um lençol que o policia de serviço retirou da cama desfeita.
 - Não há grandes dúvidas, pois não? Que lhe parece?
A assistente mais calma pela ausência do macabro espectáculo, respondeu:
_ Não há grandes dúvidas! Mas o que quer dizer com isso?
No seu jeito sacudido de falar, Aníbal respondeu:
- Há três coisas que saltam à vista imediatamente e que permitem definir com o que estamos a lidar. Em primeiro lugar a vítima conhecia o assassino; depois este agiu friamente e pretendeu deixar uma imagem de violência que corresponderá a um aviso e, a terceira, é o profissionalismo do ataque. 
A rapariga mirava-o com os olhos muito abertos com expressão de surpresa.
- Eu explico, atalhou o Inspector, cortando cerce as perguntas que pressentia virem em catadupa. É óbvio que a vítima conhecia o assassino, ou, pelo menos, se sentia à-vontade com ele porque não se nota qualquer sinal de surpresa ou reacção. A cama desfeita indica, como certamente os exames periciais virão confirmar, que os dois estiveram deitados, provavelmente, bastante tempo. Parece evidente que o assassino agiu friamente pelos mesmos motivos, isto é, esteve deitado com a vítima e, quando lhe pareceu oportuno perpetrou o crime. É muito provável que a investigação possa descobrir que o instrumento de que se serviu, esteve debaixo da cama, à mão – como costuma dizer-se – até ao momento adequado.
_ A total ausência de sinais de surpresa no rosto da vítima indica que, seguramente, estaria a dormir. A violência do ataque e os ferimentos infligidos são sinais evidentes de que houve, além de profissionalismo na sua execução, um propósito específico e determinado e não o resultado de um acesso de fúria.
- Porquê, respondia a uma pergunta óbvia, porque se nota um golpe profundo no occipital efectuado com precisão quase cirúrgica, o que, também, denota duas coisas, a saber: que a vítima deveria estar deitada de costas voltadas para o agressor, o que também confirma a sua confiança.
- Ora bem, prosseguiu, este ferimento deve ter causado a morte imediata da mulher pelo que, todos os outros são gratuitos e desnecessários. Ou seja, houve a intenção clara de massacrar e martirizar a agredida mesmo depois de ser já cadáver. Isto é, pode crer, um sinal evidente de uma “mensagem”, um “recado” que o agressor quis deixar bem evidente. De resto, a inscrição na parede é reveladora disso mesmo. Portanto… que tem a dizer?
Agora a expressão no rosto da assistente era de surpresa e admiração.
_ Chefe… caramba! Parece tudo tão lógico! Como é que viu isso tudo assim, num instante?!
_ Minha cara amiga, a experiência e o treino, nada mais. Verá que, com o tempo, há-de chegar a este “estado” de percepção quase imediata. Bom, mas adiante; agora há que voltar à base e começar o trabalho de secretária.
_ Mas por onde começar, já agora, o chefe pode dizer-me?
_ A primeira coisa a fazer, claro, é confirmar a entidade da vítima, o que fazia, com quem andava, em que meios se movimentava. De certeza que irá descobrir alguma ligação a gente “da pesada”: drogas, extorsão, latrocínio… sei lá, algo deste tipo. Se, como creio, este assassínio, tal como foi perpetrado constitui um aviso, uma mensagem, há-de destinar-se a alguém, a algum grupo. Tudo indica que esta desgraçada “pisou o risco”, infringiu alguma regra importante e foi castigada de forma a constituir sério aviso a outros.
Dito isto, descalçou a luvas de látex, retirou a tira de plástico suja de sangue em que envolvera o joelho e abalou porta fora.
Na rua respirou fundo e endireitou os ombros. Sentia-se como que a navegar numa nuvem. Estava a ficar velho para estas coisas, pensou. Cada vez os crimes eram mais violentos e os cenários mais caóticos. As coisas estavam a tomar proporções que, há trinta anos, quando entrara para a polícia de investigação, nunca supusera virem a suceder. O pior de tudo é que, como o costume, a investigação iria levar meses e, os resultados…
Os tipos das televisões e dos jornais, estendiam os gravadores, as câmaras, os blocos de notas, atiravam perguntas, chamavam-no aos gritos. Esta era a parte pior. Dizer aos fulanos, contidos pela barreira policial, qualquer coisa que nunca, absolutamente, os deixaria satisfeitos. Depois, já se sabe, haveria de ler nos jornais as especulações à volta do que dissera e ver nas televisões as histórias construídas em redor do caso por esses profissionais que haveriam de falar vários minutos de algo de que nada sabiam. O costume.
A sua relação com o pessoal da informação até era boa, embora fosse comum a acusação que lhe faziam de falar pouco ou melhor, nada revelar. Mesmo assim, quantas vezes uma investigação em curso não foram altamente prejudicada pelas notícias especulativas, as conclusões supostamente credíveis que se publicavam.
Naquele caso, em particular, seria difícil manter uma atitude de discrição absoluta. O cadáver tinha sido descoberto pela mulher da limpeza que, ao entrar no apartamento e deparando-se com o cenário de morte e violência viera para a rua aos gritos, atraindo rapidamente as atenções de quem passava àquela hora movimentada da manhã.
O polícia que ocorrera a inteirar-se do sucedido, fora bastante prolífero nas declarações que prestara aos primeiros jornalistas que, como abelhas atraídas pelo mel, tinham acorrido em pouco tempo.
Adivinhava mais uma discussão entre os chefes das duas polícias sobre os comportamentos a ter em casos destes. Mas, como seria possível ser de outro modo? Como se pode dizer a um simples polícia de giro, que deve manter a discrição, a contenção em casos destes?
Estava, de facto, muito cansado, mas, que remédio tinha senão submeter-se, por breves instantes que fosse, à “tortura” dos jornalistas.
Um deles, furando a barreira policial, aproximara-se dele e segurava-o pela manga do casaco, abando-o com insistência. Percebeu que o chamava pelo nome: Aníbal! …Aníbal!

Voltando-se, abriu os olhos, e, finalmente desperto, encarou a mulher que lhe puxava pela manga do pijama:


_ Oh homem! Olha que já são oito e meia da manhã! Ainda tens de levar o miúdo à escola e, de certeza vais chegar atrasado ao trabalho.


Enquanto se arranjava, à pressa, lá foi pensando como seria bom que o sonho, como tantos outros que costumava ter, fosse a realidade e que, em vez de ir a correr apanhar o transporte para a fábrica, fosse antes no automóvel oficial, com matrícula falsa, para a Central da Polícia de Investigação.




sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Distracção!

Acidente ao frio

Fazia um frio de rachar naquela manhã de Janeiro e nem as duas camisolas, o cachecol e demais roupagem ofereciam conforto que se visse até porque, o motor do carro ainda não debitava calor nenhum.
Nunca acreditara muito nas previsões dos Serviços de Meteorologia, achava que os sujeitos pouco mais faziam que tentar adivinhar e que os instrumentos que teriam à disposição se limitariam a uma ou duas bolas de cristal, o que, por um lado, se justificaria num país de tesos.

Já nos "tempos da outra senhora", quando a televisão fechava o noticiário da noite com um programa meteorológico demorado e aparatoso, com gráficos, desenhos e outras habilidades, e não obstante o ar seriíssimo e convincente do apresentador(a) a coisa funcionava mal, quanto mais agora…

Desta vez… tinham acertado em cheio e o frio era patentemente… frio.

Ao parar no posto de abastecimento para comprar gasolina e tomar um café, entreteve-se a mirar os passantes, encolhidos nos seus agasalhos com o pescoço enterrado nos ombros - como se isso fosse defesa eficaz - e concluiu, uma vez mais, que estava frio.

O automóvel seguia agora entre pinhais espessos que mal deixavam passar a luz do dia, pelo que conduzia com todo o cuidado dado a estrada deserta àquela hora matutina se encontrar escorregadia, perigosa.

A meio de uma ladeira acentuada viu um vulto caído quase junto à berma da estrada. Um pouco atrás uma motorizada preconizava o local onde o motorista deveria ter caído depois de, talvez, ter derrapado.
Parou uns metros antes do fulano, estacionando bem encostado à valeta. Ficou ali uns minutos pensando o que deveria fazer.


Antevia uma série de problemas que não lhe interessava nada vir a ter: àquela hora, com um sujeito inanimado na estrada – talvez morto – sabia lá há quanto tempo, sem passar ninguém… provavelmente teria de o transportar ao hospital mais próximo - que nem sabia onde ficava - depois explicar que não tinha nada a ver com o caso, era um simples passante, declarações, inquéritos, perguntas e mais perguntas…
Estava atrasado para o encontro marcado na véspera e começou a pensar que, como não se via ninguém… talvez fosse aconselhável ignorar o assunto e seguir caminho.


Mas… não, não podia fazer tal coisa. Deixando o motor a trabalhar, lá se apeou e dirigiu para o homem.


O capacete tinha saltado da cabeça que ostentava um ferimento ligeiro com sangue coagulado o que indicava que o acidente se dera há tempo considerável. O homem jazia como que embrulhado sobre si mesmo, Debruçando-se conseguiu ouvir uma espécie de estertor que mais parecia um ressonar de alguém mergulhado num sono profundo.


O homem estava vivo, caramba!


Abanou-o um pouco, chamou mas não obteve qualquer resposta ou movimento.

A perna direita estava estranhamente torcida num ângulo estranho que não augurava nada de bom.
Voltou-o de costas e apalpou a perna tentando descobrir a fractura. Nada, a perna continuava torcida mas, aparentemente, não havia fractura.

Foi quando ao tentar endireitá-la o homem pareceu acordar e resmungou no meio de um bafo espesso de aguardente barata:

_ Deixe lá isso que é de nascença!

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Discurso do Prefeito de Quixeramobim

Mustafá

Nem sentia os pés completamente encharcados. A cada passo que dava ouvia um chocalhar de água. Sapatos…meias…calças, todo ele, enfim, uma sopa!

O estupor do cão estava satisfeito da vida, encharcado até aos ossos, de vez em quando abanava-se e sacudia-se todo, borrifando tudo à sua volta. Pois…por isso lhe chamavam cão de água. Cão de água! Que raio de ideia da Angélica, comprar um cão de água!

Aquilo fora alguma das amigas pirosas, metidas a socialites, que lhe metera na cabeça que era chique ter um cão de água. De certeza!

E, prontos, ali estava o raio do cão. Aquilo não servia para nada a não ser…largar pelos por todo o lado, molhar-se todo na primeira oportunidade – fosse ele uma poça de água na rua ou o chafariz da praça – e, claro, ocupar o seu sofá preferido.

Das primeiras vezes ainda o mandara sair dali, daquele lugar sagrado, mas a intervenção de Angélica – “coitadinho do Mustafá, deixa-o ficar aí que ele gosta de ver a televisão”!

E o bicho, com uma lata de todo o tamanho, até lhe arreganhara o dente!

Depois era: - Vê lá se vais dar uma volta com o Mustafá, querido, que ele coitadinho está mesmo a pedir para passear… Etecetra e tal.

Para o que um sujeito está guardado! Andar ás ordens de um rafeiro!
Já tinha tentado vários truques, de sua autoria, e outros que lhe foram sugeridos pelos amigos do escritório: - Eh, pá; fazes assim, cozido e frito… Qual quê! O Cachorro parecia que adivinhava!

Ainda ontem, quando vislumbrara o autocarro mesmo a chegar à esquina, atravessara a rua a correr na esperança que o bicho o seguisse, mas, em vez da esperada chiadeira dos travões, foi ele quem tropeçou no lancil do passeio e se esparramou pela calçada. O Mustafá, estava do outro lado da rua, sentado nas patas traseiras, a olhar para ele, com a cabeça de lado. Apostava que tinha um ar de gozo no focinho.

Depois de escovado o fato e o orgulho ferido, tentara outras técnicas mais apuradas: Metera por uns becos, subira escadas de incêndio, entrara e saíra de prédios em obras, dera voltas por andaimes e montes de entulho, dera cabo de um par de sapatos, escorregara não sei quantas vezes, fora borrifado com caliça e poeiras das obras, ficara um Cristo…mas…o cãozinho…chiça…! Estava sempre à espera dele, sentado nas calmas ou a abanar o rabo satisfeito da vida!

Estava a tornar-se uma obsessão: Tinha de se ver livre do bicho…isto era ponto assente!

Claro que o problema era que a coisa tinha de ser feita com jeito. Não podia tomar atitudes drásticas, como por exemplo, atira o cachorro pela janela do quarto andar; ou dar-lhe umas cento e cinquenta gramas de estricnina metidas num hambúrguer. Resolveria a coisa e definitivamente mas…e a Angélica! A mulher era doida pelo cão e, no mínimo, reagiria expulsando-o de casa, ou, talvez pior ainda, mandando despedi-lo do emprego; sim, que o escritório, a empresa, era dela, pois claro. Bom…ele era o gerente, mas, na verdade, era um verbo-de-encher, ninguém lhe passava cartão, ou ligava a mínima. Estupendo era o “taco” no fim do mês, o popó e mais umas coisitas de não menor importância como o cartãozito dourado sem limite de crédito, a inscrição no Clube, o camarote no Estádio e assim…mais umas lérias.

Na verdade a Angélica até não chateava grande coisa, não queria saber o que andava a fazer desde que estivesse a horas em casa e não desse nas vistas. Ah! Claro…e que, de vez em quando, a acompanhasse na maçada dos jantares temáticos que ela e as amigas estavam sempre a engendrar.

Quando lhe apetecia dar umas “curvas” bastava convencê-la – com jeitinho – que era tempo de fazer uma estadia numa clínica de emagrecimento, ou qualquer coisa no género – e prontos…ficava com uns dias por sua conta.

Na verdade, sim…na verdade…tinha uma vida porreirinha!

Mas…aparecera o Mustafá e tudo mudara. A Angélica só queria saber do cão, as refeições, o deitar e o levantar aos fins-de-semana, por exemplo, eram ditados pelos horários do animal e, ele, claro, era o pau para toda a obra no que respeitava aos cocós e aos chichis do animal.

Aos Sábados, chegava a levantar-se ás sete e meia da manhã, chovesse ou fizesse Sol, para ir pôr o cãozinho a fazer a sua mijinha matinal! Isto era demais…mas não era o pior…não senhores!

O pior era o seu sofá convertido em trono do estupor do canídeo!

Mas ainda mais! No outro dia a Angélica tivera a lata de mandar mudar o canal da televisão porque – “Sabes…o Mustafá não gosta de futebol”! Ficara de boca aberta, claro, mas mudara de canal…claro.

Agora, ali estava ele, naquela tarde de Inverno, debaixo de um dilúvio, remoendo ideias, arquitectando esquemas, congeminando planos para acabar com aquilo de forma drástica, definitiva e…ao mesmo tempo sem que a Angélica lhe pudesse assacar qualquer responsabilidade.

Uma brilhantíssima ideia começou a surgir, um plano astucioso, maquiavélico, um ardiloso esquema começaram a tomar forma, a delinear-se cada vez com maior clareza e detalhe. No próximo Sábado, daí a dois dias, a coisa resolvia-se de uma vez por todas!

Com esta convicção bem instalada, esta certeza de êxito profundamente arreigada, ficou de tal forma eufórico que até, sem dar por isso, fez uma festa na cabeça encharcada do cão. Este mirou-o admiradíssimo e, pelo sim pelo não, arreganhou-lhe o dente.

Resolveu deixar passar a coisa em claro e voltou para casa assobiando uma das suas áreas favoritas: _ “Dei-te quase tudo e quase tudo foi demais

A sua boa disposição não abrandou ao chegar a casa, limpar o cão esfregando-o com a sua tolha privativa, escovando-o com a sua escova especial, limpando-lhe o olho do rabo com o paninho verde reservado para esse efeito. Sim…que a Angélica, nisso, era irredutível: Olho do rabo tem de ser bem limpinho depois do animalzinho fazer as suas necessidades!

Nem protestou, nem fez má cara nem nada quando o bicho saltou para o seu sofá. Calmamente foi sentar-se noutro lugar e fingiu-se interessadíssimo numa revista qualquer.

Angélica ainda o olhou com um ar um tanto surpreendido mas, depois, voltou à importante conversa que há meia hora mantinha com uma amiga qualquer pelo telemóvel.

Ficava sempre abismado com o tempo infindável que a mulher passava ao telefone! Claro que as contas nem eram assim muito grandes, já que o móvel era da empresa que tinha um plano de tarifas muito favorável com a operadora. Mas…mesmo assim…as “continhas” tinham sempre seis dígitos!

O dia seguinte fora passado, a maior parte, a afinar o plano, rever detalhes, avaliar prós e contras, prever imponderáveis. Á noite, o esquema apresentava-se brilhante, fulgurante, espantosamente nítido…claríssimo.
À noite, em casa, preparou Angélica:

- Amanhã de manhã vou com o Mustafá à “outra-banda” visitar a estátua do Cristo Rei.

- O quê? Perguntou Angélica sem perceber.

- Sim…à estátua do Cristo Rei, nunca lá fui e, agora que foi restaurada, dizem que a vista é fantástica. Olha…sempre é uma coisa diferente, que andar a passear com o cão no jardim, a cheira os cócóses dos outros e a querer à viva força meter o nariz nos caixotes do lixo.

Angélica ainda ficou a olhar um momento como se fosse dizer alguma coisa mas, depois, limitou-se encolher os ombros e a dizer:

_ Tá bem. Vê lá se tomas bem conta do Mustafá, prende-lhe bem a trela não vá ele soltar-se e fugir.

_ Está descansada, sei muito bem isso tudo, caramba!

Se sabia, dissera para dentro de si mesmo, se sabia…

Aparcada a carrinha Mercedes, antes de deixar o cão sair, pôs-lhe uma coleira que tinha comprado na véspera. Era uma coleira em bom coiro entrelaçado com nylon, extremamente resistente. A trela de material idêntico foi presa à coleira com um mosquetão em aço.
O conjunto, garantira-lhe o vendedor, aguentaria com um peso ou um esforço de umas centenas de quilos.

Para maior segurança, a trela terminava numa espécie de laçada corrediça que ajustada ao punho tendia a apertar evitando que a mesma saltasse da mão.

Dirigiu-se para o elevador que leva os mirones até aos braços e à cabeça da estátua. Àquela hora matutina poucas pessoas por ali estavam interessadas em gastar uns euros para ver as vistas, ainda por cima, numa manhã nevoenta e a ameaçar chuva.

O tripulante do ascensor quis discutir a impossibilidade de transportar um cão: era proibido.

- Oh homem! Argumentara ele, mas se não há mais ninguém que mal faz. Evidentemente que ao dizer isto, deixava ver uma tentadora nota de cinquenta Euros. As dúvidas do ascensorista desvaneceram-se num ápice, mandando entrar uma meia dúzia de rapazes e raparigas que entretanto chegara com as suas as mochilas, uma guitarra e as trapalhadas do costume que a malta nova costuma carregar às costas quando vai de fim-de-semana acampar a qualquer lado, carregou no botão, as portas fecharam-se e aí vai ele...

Estava tudo a correr como planeado. Aliás, o seu plano era muito simples: Lá em cima, num dos braços do Cristo, o Mustafá haveria de fazer tais diabruras que acabaria por se desequilibrar e cair daquela altura enorme…sem salvação possível. Os jovens seriam umas testemunhas fantásticas e muito a propósito.

Na verdade, o Mustafá nunca mostrara ter medo de coisa alguma, mas, na verdade também, nunca tinha estado a uma altura de vertigem como aquela de modos que, quando saiu atrás do pessoal jovem para o estreito corredor que, no exterior, percorre a todo o comprimento o braço da estátua, a altura, o nevoeiro, a aragem forte foi algo superior a tudo a que, na sua breve vida de canídeo de luxo, já tinha experimentado.

E, vai daí, fincou bem as quatro patas no chão e não houve quem o movesse.

Puxou, puxou pela trela, mas nada, A malta das mochilas ria e falava alto sem prestar atenção nenhuma ao que se estava a passar.

Aliás foram as gargalhadas que o acompanharam na queda, quando a trela se partiu e, ele perdendo o equilíbrio, galgou o varão de ferro de protecção e despencou por ali abaixo.

No voo em aceleração, teve tempo para pensar que o vendedor o tinha enganado quanto à resistência da trela.

E também ainda teve um bocadinho de tempo para ver o Mustafá, com a trela pendurada ao pescoço, olhando para ele a abanar o rabo.



quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Proposta


ADMITAMOS QUE ESTA PROPOSTA   REFLECTE UMA TRISTE REALIDADE

Colocar os nossos idosos nas cadeias, e os delinquentes fechados nas casas dos velhos.

  • Desta maneira, os idosos teriam todos os dias acesso a um duche, lazer, passeios.
  • Não teriam necessidade de fazer comida, fazer compras, lavar a loiça,  arrumar a casa, lavar roupa etc.
  • Teriam medicamentos e assistência médica regular e gratuita.
  • Estariam permanentemente acompanhados.
  • Teriam refeições quentes, e a horas.
  • Não teriam que pagar renda pelo seu alojamento.
  • Teriam direito a vigilância permanente por vídeo, pelo que receberiam assistência imediata em caso de acidente ou emergência, totalmente gratuita.
  • As suas camas seriam mudadas duas vezes por semana, e a roupa lavada e passada com regularidade.
  • Um guarda visitá-los-ia a cada 20 minutos e levar-lhes-ia o correio directamente em mão.
  • Teriam um local para receberem a família ou outras visitas.
  • Teriam acesso a uma biblioteca, sala de exercícios e terapia física /espiritual.
  • Seriam encorajados a arranjar terapias ocupacionais adequadas, com formador instalações e equipamento gratuitos.
  • Ser-lhes-ia fornecido gratuitamente roupa e produtos de higiene pessoal.
  • Teriam assistência jurídica gratuita.
  • Viveriam numa habitação privada e segura, com um pátio para convívio exercícios.
  • Acesso a leitura, computador, televisão, rádio e chamadas telefónicas na rede fixa.
  • Teriam um secretariado de apoio, e ainda Psicólogos, Assistentes Sociais, Políticos, Televisões, Amnistia Internacional, etc., disponíveis para escutarem as suas queixas.
  • O secretariado e os guardas seriam obrigados a respeitar um rigoroso código de conduta, sob pena de serem duramente penalizados.
  • Ser-lhes-iam reconhecidos todos os direitos humanos internacionalmente convencionados e subscritos por Portugal.


Por outro lado, nas casas dos idosos:

  • Os delinquentes viveriam com  200,  fechados, numa pequena habitação com obras feitas há mais de 50 anos.
  • Teriam que confeccionar a sua comida e comê-la muitas vezes fria e fora de horas.
  • Teriam que tratar da sua roupa.
  • Viveriam sós e sem vigilância.
  • Esquecer-se-iam de comer e de tomar os medicamentos e não teriam ninguém que os ajudasse.
  • De vez em quando seriam vigarizados, assaltados ou até violados.
  • Se morressem, poderiam ficar anos, até alguém os encontrar.
  • As instituições e os políticos não lhes ligariam qualquer importância.
  • Morreriam após anos à espera de uma consulta médica ou de uma operação cirúrgica.
  • Não teriam ninguém a quem se queixar.
  • Tomariam um banho de 15 em 15 dias, sujeitando-se a não haver água quente ou a caírem na banheira velha.
  • Passariam frio no Inverno porque a pensão de  200 não chegaria para o aquecimento.
  • O entretenimento diário consistiria em ver telenovelas, a Fátima, o Goucha, a Júlia Pinheiro e afins na televisão.


Digam lá se desta forma não haveria mais justiça para todos, e os contribuintes agradeceriam?

Agrad AG

domingo, 14 de agosto de 2011

Tigres são tigres!!!




"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele ou por sua origem, ou sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender. 
E se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. 
A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta."
(Nelson Mandela)



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Num Zoológico na Califórnia essa Tigresa deu cria a 3 tigrinhos que infelizmente não resistiram as complicações da gravidez e morreram logo após o nascimento. 

A Mãe-Tigresa depois de se recuperar do parto, começou a piorar seu estado de saúde, mesmo que fisicamente ela estivesse bem. 


Os veterinários sentiram que a perda da cria causou uma profunda depressão na tigresa. 

Os médicos decidiram que se a tigresa adotasse a cria de uma outra mae, talvez melhoraria. 
Após checar com vários zoológicos pelo país,
tiveram a triste noticia de que não havia nenhuma cria de órfãos tigrinhos na mesma idade para levar para a mãe tigresa. 


Os veterinários então decidiram tentar algo que nunca teria sido tentado antes em um zoológico. 


Às vezes a mãe de uma espécie cuida dos filhotes de uma diferente espécie. 

Os únicos órfãos que puderam ser encontrados rapidamente foram as crias de uma porquinha. 
Os funcionários do Zoológico e os veterinários
revestiram os porquinhos em pele de tigre e colocaram os bichinhos ao redor da mãe tigre. 


Eles virariam a cria da tigresa ou lombinho??? 


Dê uma olhada... você não vai acreditar nos seus olhos!


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AGORA POR FAVOR, ME DIGA MAIS UMA VEZ:
POR QUE O RESTO DO MUNDO NÃO PODE SE DAR BEM??? 


E MAIS UMA COISINHA:
MÃE É A QUE CRIA, NÃO É MESMO?! 
 
REPASSO ESSE LINDO EMAIL PRA AMIGAS E AMIGOS, SEJAM PAIS, MÃES OU NÃO. 

VALE UM SORRISO!


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O relógio!

A chuva era de tal forma violenta que os limpa vidros mesmo na máxima velocidade não conseguiam afastar as grossas bátegas.
Os faróis do carro mal rasgavam as densas trevas obrigando-o a conduzir a dez à hora.
Que raio de noite!
A seu lado, a maleta de médico já por duas vezes resvalara para o chão quando se vira forçado a travar de sopetão.
Se aquilo era noite para acudir a alguém doente!
Mas, noblesse oblige e, ele, como o único médico num raio de muitos quilómetros, não podia recusar um pedido de auxílio.
A mulher bem tentara dissuadi-lo, que estava uma tempestade tremenda, que era tardíssimo, que havia aquela vaga de assaltos, as estradas esburacadas e ermas... enfim...
Dissera-lhe que teria cuidado com a condução e, quanto aos assaltos… levava a pistola consigo.
Realmente as pessoas andavam assustadas com a patifaria à solta e a Guarda não conseguia sequer uma pista, quanto mais apanhar os tratantes!
Agora a estrada corria entre alas compactas de árvores aumentando ainda mais a dificuldade da condução.
Não obstante conhecer bem o local o facto é que nunca atravessara o grande bosque de noite e, muito menos, numa noite como esta.
Sem querer pensou que era uma altura e circunstâncias ideais para um assalto e, instintivamente apalpou o bolso casaco sentindo o volume da arma.
Mas que coisa...do que havia de se lembrar!
Tão absorvido ia nestas divagações que ia atropelando o homem que lhe surgiu caminhando na berma da estrada. Travou instintivamente e, mais uma vez a maleta de médico foi parar ao chão.
Sem pensar no que fazia abriu o vidro para perguntar: "homem! Nem o via! O que faz aqui a estas horas?
O homem debruçou-se para dentro do carro: "vou procurar um médico para a minha mulher e o automóvel resolveu avariar-se de modo que não tenho mais remédio que pôr-me a caminho"

Instintivamente, sem pensar duas vezes, disse:
“Eu sou médico… entre lá…”

O fulano sentou-se no banco ao seu lado pondo a mala de médico sobre os joelhos. Completamente encharcado tremia de frio. Reparou bem no homem e ficou apreensivo, tinha realmente muito mau aspecto e, não era só por estar naquele estado miserável, era mais qualquer coisa… parecia-lhe… sabia lá o quê… um assaltante? Depois de lhe ter dado a direcção lá arrancou outra vez mas… muito apreensivo. O sujeito não dizia nada, parecia absorto nos seus pensamentos. Nem sequer lhe agradecera ter parado e ter-se disposto a levá-lo a casa para ver a doente.

Que raio de coisa!

Não conseguindo evitar um buraco o carro deu um solavanco e o companheiro quase que se lhe sentava ao colo. Balbuciou um “desculpe” a meia voz e lá se ficou.
Cada vez com mais insistência pensava que o tipo era mesmo um facínora qualquer e, de repente, deu por falta do relógio que levava no pulso! Fora no encontrão que lho roubara. Travou de chofre, meteu a mão ao bolso e apontou-lhe a pistola:

“Passe para cá o relógio senão…”

O outro nem tugiu nem mugiu deu-lhe o relógio, abriu a porta e saltou para a estrada. Arrancou na mecha sem sequer olhar para trás. Safara-se de boa!

Chegado a casa, depois de um duche quente, foi para o quarto onde a mulher já dormia a sono solto.
Foi quando reparou no seu relógio de pulso na mesinha de cabeceira!
Ficou ali, de boca aberta.

Tinha roubado o relógio ao desgraçado!