Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



sábado, 30 de julho de 2011

Planeta Humano II

O Comendador

O secretário perfilou-se frente à secretária do Comendador demonstrando grande nervosismo.

“Que se passa? Que você tem?” Perguntou o grande homem.

“Senhor Comendador, está pela vigésima vez ao telefone aquele homem. Insiste em falar com o senhor Comendador”.

“Mas eu told você que não whant falar com that guy!. Qual é o problem?”

O nervosismo do secretário acentuou-se dramaticamente:

“É que, Senhor Comendador, o sujeito, desta vez, espera uma resposta, ou o Senhor Comendador atende o telefone ou, ainda esta semana recebe uma carta que não lhe irá agradar nada”.

“ My God! Mas quem esse guy julga que é!”

“Senhor Comendador, ele é um dos antigos administradores e...”

O grande homem interrompeu, furibundo:

“I know muito bem quem esse guy é, um incompetente e um scapegrace, um expertalhão, you know! Uma carta, que letter é essa, ele não lhe disse?”

O pobre homem, ganhou coragem e despejou de um fôlego:

Senhor Comendador, ele não me disse exactamente mas deixou entrever que essa carta seria sobre aquele assuntozinho do empréstimo que negociou com o Senhor Comendador quando era administrador da Caixa, e acrescentou que, dessa carta, seria enviada cópia aos media.”

O grande homem, respondeu imperturbável:

“Não querer saber! Mande-o to peeve, chatear outro, percebe?”

O homem fez uma vénia e saiu.

Já no seu gabinete, pegou no telefone e disse:

“Está lá? Sim sim, é outra vez o secretário do Senhor Comendador; ele está muito ocupado neste momento e diz para o senhor doutor Vara ir chatear outro.

ama, 2011.07.21

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quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Gravador!

"Há qualquer coisa que não está bem", dizia a secretária do grande líder arrumando os derradeiros trastes na última das trinta e tal caixas de cartão fornecidas pela empresa de mudanças.

"Mas o quê? Que se passa?" retorquiu a assistente - a secretária da secretária - uma jovem com cara de espertalhona com uma minissaia que mal lhe tapa o rabo.

"Ora", respondeu a primeira, falta aqui uma coisa qualquer só que não sei o que é."

"Mas o quê" repetia  a outra, "empacotámos tudo, não ficou nada esquecido."

"Pois...mas...não sei...há não sei o quê...mas não consigo perceber o que é."

Acabaram o serviço, o transportador levou a última caixa, olharam em volta, soltaram, em simultâneo, um profundo suspiro e sairam fechando a porta.
Já no átrio, junto à porta para a rua a secretária estacou de repente e exclamou: "o gravador! O gravador do chefe! É isso que falta!"

"Tu és tonta ou quê" respondeu rapidamente a da minissaia, então o gravador não foi o chefe que o levou?"

Ainda trocaram mais umas palavras e despediram-se.

Enquanto se afastava no Smart azul, dizia entre dentes: "então querias o gravador para ti não! Passaste estes anos armada em chefe e a mandar para cima de mim com o trabalho todo...pois é...mas nem sonhas o que vão dar pelo gravadorzinho que escondi na carteira..."


terça-feira, 26 de julho de 2011

Sandra!

Parou ofegante e dobrou-se apoiando as mãos nos joelhos.

A T shirt encharcada da transpiração colava-se ao tronco ainda vigoroso. Enfim, apesar dos quarenta anos não estava nada mal...
É claro, tinha de fazer umas paragens mais amiúde quando não os bofes sair-lhe-iam pela boca.

“Mas,” pensou, “porque carga de água é que ando para aqui a correr como um tolinho! Já não tenho idade para estas parvoíces!”

A brilhante decisão de começar aquele disparate das corridas fora a consequência daquele remoque da Sandra "estás a ficar com um "pneu" de todo o tamanho", dissera com aquele ar trocista que ultimamente teimava em usar quando se lhe dirigia.

Resolveu sentar-se num banco do jardim até recuperar a respiração normal.
Outros "corredores" iam passando por ele, uns rápidos e ágeis outros nem tanto.

A Sandra veio-lhe outra vez à lembrança. Pensando melhor...as coisas ultimamente não andavam lá muito bem. Aquelas recepções entusiásticas de outros tempos tinham dado lugar a um beijo maquinal e desprendido.
As dores de cabeça, das costas, de estômago...eram o pão-nosso para o ver pelas costas rapidamente.
E, agora, dava-lhe para troçar da sua figura, que tinha "pneu", que caminhava curvado, um ar cansado...

Até parecia que a rapariga estava farta dele!
Seria possível?

Claro que era possível, afinal tinha muito menos de metade da idade dele!

Começou a pensar seriamente no assunto e, curiosamente, não se sentiu nem irritado nem furioso, pelo contrário, parecia que se instalava algum alívio.

Pois...na verdade também estava um bocado farto daquelas exigências disparatadas e dispendiosas, do nariz empinado, da insatisfação permanente...
"pois bem", pensou, "resolve-se a coisa a contento das partes, tão depressa não me pões a vista em cima e prontos...acabou-se".

Tomada esta drástica decisão, mal chegou a casa disse peremptoriamente à mulher:

“Ouve! Prepara-te para, nos próximos tempos ires sozinha ao colégio porque, eu, tão depressa não vou visitar a Sandra.”


ama, 2011.07.25


Animais de estimação

domingo, 24 de julho de 2011

Morte do cisne

Carta a um amigo meu, emigrante:

Nota prévia:
Esta carta que se publica a seguir, foi escrita há 32 anos e publicada na imprensa. Será actual?

*
Caro Manel:

Aqui estou eu a dar-te notícias frescas da nossa terra.

Afortunadamente, as coisas têm-me corrido bem. Não me posso queixar de nada.

Com efeito, passados que foram uns momentozitos de sobressalto, tudo entrou na normalidade e, pode dizer-se, a vida segue de vento em popa, sem oscilações de maior.
O futuro breve, apresenta-se risonho e não tenho motivos para supor que qualquer situação mais grave venha ensombrar este remanso de paz, concórdia de um povo trabalhador e cordato.

Alem do mais, o meu poder de compra não está nem um pouco afectado porque, se bem que os preços tenham subido um bocadinho, o certo é que o meu vencimento aumentou muito mais e, quando algo assim mais urgente me aflige, recolho ao que, prudentemente, amealhei em divisas estrangeiras.

Posso até dizer-te que isto tem sido óptimo para mim, já que estou valorizando constantemente o meu património.

Quanto à política, pouco sei, não me meto, mas, o meu partido, é dirigido com honradez e lisura por gente que merece toda a minha confiança.
Tenho verificado com prazer que tudo têm feito para cumprir as promessas que foram apregoando, comícios fora, e se têm preocupado em auscultar o que eu e outros anónimos como eu, pensamos que deve ser a linha politica e as prioridades do partido.

Isto, devo dizê-lo, não é só no meu partido que acontece, a verdade manda que se diga que, nos outros, sucede mais ou menos a mesma coisa.

É o que se chama levara sério a vida partidária.

No caso da Assembleia da Republica, por exemplo, não posso estar mais contente.
Todos os deputados, mesmo aqueles por quem sabes não tenho simpatia nenhuma, é justo reconhecê-lo, têm desenvolvido os seus melhores esforços no sentido de encontrar legislação justa e capaz de endireitar tanta coisa que estava mal e que era iníqua.
(Coisas do antigamente que, com o maior denodo e compostura, esses cidadãos sacrificados, têm conseguido, à força de génio e sentido de justiça ímpares, resolver da melhor forma e a contento de todos).

Pessoas com quem tenho falado e com quem mais de perto privo todos os dias, aqui, no sítio onde estou, encontram-se igualmente satisfeitas com o actual estado de coisas e, embora haja pequenas criticas, sobretudo no sector da saúde, o certo é que, de um modo geral, todos reconhecem que as coisas não vão mal e que é difícil exigir mais e melhor em tão curto espaço de tempo.

Sei muito bem que não tenho categoria nenhuma para julgar estas coisas, mas sinto que os governos que sucessivamente têm ocupado São Bento, têm feito o seu melhor para ajudar o País e os cidadãos, sempre com o fito de bem servir, sem favorecer nem este nem aquele, antes procurando o bem-estar e a felicidade de todos, procurando, por todos os meios, administrar convenientemente os dinheiros públicos, de modo a não haver desperdícios nem gastos supérfluos e, sobretudo, mantendo a população informada, com a maior lisura e honestidade, através dos órgãos de informação escrita e falada, que dele dependem.

Decerto que concordas que não seria licito esperar mais de governos tão reduzidos em pessoas que, com tanto sacrifício, têm sobraçado as pouquíssimas pastas ministeriais e secretariais.
É justo reconhecer, e eu sou dos primeiros a fazê-lo, que homens houve que ultrapassaram a sua própria dedicação à causa pública, aceitando, humildemente, várias vezes, a dura tarefa de serem ministros em diferentes ministérios.

Consta até que, alguns desses, estariam, apesar de tudo, na disposição de voltar a sacrificar-se quantas vezes forem necessárias.

Só não percebo porque tu insistes em ficar aí, nesse "atraso" de País, onde te exploram oito horas diárias de trabalho duro, a pretexto de alguns benefícios de somenos importância como salário justo, saúde "à borla", educação para os filhos, etc., etc., em vez de voltares para cá, ocupares o lugar que te compete nesta sociedade nova, viveres na casinha que vais construir com a ajuda dos serviços oficiais e gozares os pingues rendimentos do trabalho que com toda a facilidade encontrarás à tua espera.

Pensa nos teus filhos, homem! Educados na estranja, que, se calhar, nem já falam português!...

É preciso que eles voltem rapidamente e frequentem as nossas escolas, com aulas sempre a tempo e horas e com programas de ensino que tornam qualquer quintanista do liceu, capaz de ombrear com baixareis desse País.

Não tenhas mais preocupações com o que hás-de trazer daí.
Aqui, bem sabes, não te faltará nada, nem pão, nem saúde, nem habitação.

Não demores, homem, olha o exemplo de outros como tu, que estão voltando aos milhares, bem ao contrário do que acontecia dantes, em que tantos portugueses tinham de procurar na estranja o que por cá faltava.

Abraça-te o teu amigo Tóino.


P.S.
Aproveito a ocasião para te pedir que assines o papel que mando junto.
Trata-se de uma petição para que me tirem daqui. Não aguento mais este hospital.

(Afinal, eu já estou completamente curado daquela coisita que me deu na cabeça...)

(Publicado em " A RUA" em Janeiro de 79)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Hoje almocei com o Joaquim Gaspar!

Hoje almocei com o Joaquim Gaspar.

E perguntam aqueles que lêem estes textos neste espaço:
E quem é o Joaquim Gaspar, e o que é que eu tenho a ver com isso???

É muito simples, mas vou complicar um pouco.

O Joaquim Gaspar é do Brejo, entre Carvide e Monte Real, e faz hoje 65 anos!

Manda-lhe a Segurança Social, por carta, que deixe de trabalhar a partir de Segunda-feira, pois fica “automaticamente” reformado.

Ah, e o Joaquim Gaspar trabalha nas Termas de Monte Real há, “apenas“, 54 anos!!!

Hoje, a meio da manhã, bateu à porta do meu gabinete, e timidamente, como é seu feitio, disse-me com um sorriso:
Depois o Sr. Mexia Alves, quando puder havia de passar ali pela “cozinha” para comer um pouco de bolo.

Senti-me apanhado na falta de memória e, claro, já sem dúvida nenhuma perguntei-lhe:
Fazes anos hoje, não é?

Com um sorriso de “criança apanhada”, (ele é assim, não há nada a fazer), disse-me:
Faço 65 anos, e a partir de Segunda-feira tenho de deixar de trabalhar aqui nas Termas, porque estou reformado. Pelo menos é o que diz a carta que recebi da Segurança Social.

Fiquei sem saber o que dizer, porque me inundou um sentimento tão grande tão profundo, que tive medo de me “largar” a chorar à frente dele!

Perguntei-lhe então, com um ar que eu pretendia de amizade e intimidade:
Quantos são, Joaquim?

E ele com aquele seu ar tímido respondeu-me:
54! Há 54 anos que aqui trabalho!

Mais velho que eu três anos, logo me lembrei, quando em garoto, lhe “roubava” a bicicleta, “estacionada” junto ao Hotel para dar uma voltinha.

É que a bicicleta dele tinha mudanças!!!
Nada destas coisas de hoje, em que se vêm uns matulões a pedalarem que nem uns loucos, parecendo que a bicicleta está sempre no mesmo lugar.
Não, senhor, aquilo era uma caixinha com uma espécie de gatilho que tinha três mudanças, que “inté” parecia que davam mais velocidade, sem a gente perceber que afinal o motor … eram as nossas pernas!

Deixei-me ficar ali um pouco a olhar para ele, e nesse instante passaram por mim recordações imensas, que envolveram os meus pais e todos os meus irmãos, e uma grande família feliz, que vivia um sonho de amor e união, que pretendia estender a todos aqueles que com a família trabalhavam num projecto comum.

Perguntou-me então:
Almoça hoje comigo?

Respondi-lhe:
Claro que sim, Joaquim! Claro que sim!

Saiu então do meu gabinete, e ainda bem, porque eu precisava de lidar com uma emoção que avassaladoramente tomava conta de mim.

O que é que eu digo a este homem, pensava eu?
Como exprimir-lhe tudo o que vai dentro de mim?
Como explicar-lhe que ele me pertence, como eu lhe pertenço a ele?
Como afirmar-lhe que eu sou família dele, como ele é minha família?

Bem, pensei, deixa passar agora, que quando chegar o tempo ele sentirá o que tu lhe queres dizer.

E lá fomos almoçar passada mais uma hora, eu com o meu coração nas mãos e ele com o dele também.

E falámos da “ingricola”, e dos tempos passados, e de como esta gente de hoje não sabe o que é a vida, e isto e aquilo…

E quando o almoço acabou, num restaurante de alguém que também trabalhou no Hotel e nas Termas, vieram em alta voz as recordações, a tal bicicleta, e quando os olhos destes “sessentões” se avermelharam, foi só o tempo de dizer adeus, para deixar para mais tarde a homenagem inteiramente devida, inteiramente merecida, mas sobretudo inteiramente desejada.

Pois, perguntam os leitores, e depois o que é que isso interessa?

Interessa, para que esta nossa juventude perceba os tempos em que as pessoas se encontravam, em que as pessoas se conheciam, em que um vínculo de trabalho era um vínculo de amizade, em que as pessoas se preocupavam mais uns com os outros do que com eles próprios.

Interessa, porque é sempre tempo de regressarmos à amizade, á relação entre pessoas, que não seja apenas um contrato que defende uns contra os outros, mas sim um contrato que une uns e os outros.

Interessa, para que se perceba que quando é preciso cortar nos custos de uma empresa, não se vá pelo caminho mais fácil, que é dispensar/despedir pessoas, mas sim cortar no supérfluo que apenas serve uns e deixa os outros de fora.

Interessa, para que os projectos sejam comuns, e não apenas ideias de uns em que os outros são dispensáveis, mas como parceiros de um bem para todos.

Neste momento, os leitores pensarão:
Este indivíduo vive noutro planeta!

E este indivíduo apenas diz:
Se houver um planeta onde se viva e trabalhe para construir um bem comum, e em que as relações de trabalho e as outras sejam alicerçadas no entendimento, na paz e no amor entre pessoas, então é nesse planeta que eu quero viver!

Por enquanto, deixo-me ficar pela recordação, guardando dentro de mim este sentimento bom, de saber que ainda há homens bons, e assim esperar que um dia, perante a indiferença, o homem perceba que é melhor amar do que desprezar.

Do meu coração ninguém tira o Joaquim Gaspar, como acredito que do coração do Joaquim Gaspar ninguém é capaz de me retirar.

Até o seu filho, homem feito agora, por aqui trabalhou também!

Hoje almocei com o Joaquim Gaspar!

Sinto-me muito mais realizado, por o ter conhecido e por ser seu amigo.

É sempre bom, ser amigo de homens bons!

Que Deus o abençoe!

Graças a Deus, e por causa deste almoço, amo mais um pouco a vida!



Joaquim Mexia Alves
Monte Real, 22 de Julho de 2011

Missão

Estava já farto de estar para ali à espera que o sujeito aparecesse. À sua volta o chão pejado de "beatas" testemunhava a sua impaciência.
A noite estava prestes e a chuva miudinha não dava sinais de querer parar. Mal abrigado pelo toldo meio rasgado da velha mercearia, estava a ficar ensopado. Sentia a água escorrer-lhe pela nuca, um incómodo... Se aquilo era Verão! Bolas, estava tudo mudado, até o tempo!
Ao telefone, a voz fora incisiva: «Se quer saber o que o Director anda a tramar com a concorrência, esteja ás seis da tarde em tal sítio...»
Aquilo que parecera uma promessa aliciante, estava a tornar-se em pura troça. Alguém o estivera a gozar, não havia dúvida. Já tinha olhado em volta, para os prédios fronteiros, perscrutando as janelas e vãos das portas a ver se descobria algum mirone, mas sem resultados. O único pateta que naquele Sábado se plantara naquela rua, fora ele.
É claro que lhe interessava, e muito, o que o fulano andava a fazer. Trazia-o debaixo de olho, não que tivesse algo de concreto que o fizesse desconfiar que o outro andasse metido em actividades pouco claras, mas, não sabia bem... algo lhe dizia que por detrás daquela aparente má disposição algo se passaria. Não era só uma questão de feitio, ou das dificuldades do dia a dia...não.
O homem era azedo e fechado como tudo, raramente dizia algo mais que o estritamente necessário e, sempre, sobre assuntos do seu trabalho.
Não obstante as instruções que recebera eram claras: «Está a passar-se algo muito estranho de há uns tempos para cá - dissera o Sr. Fielding -, a concorrência está a lançar no mercado produtos semelhantes, quando não exactamente iguais aos nossos e, o que é mais estranho ainda, é que por vezes isso ocorre mesmo antes de nós próprios lançarmos os nossos no mercado. Veja-me o que é que se passa e, acrescentara, com urgência».
Eram as suas funções: responsável pela segurança da empresa e, este cargo, abarcava tudo, desde os abusos cometidos pelo pessoal, deslocações, gastos etc., como as próprias actividades particulares que pudessem de algum modo colidir com os interesses da empresa. Tinha autorização expressa do Sr. Fielding para investigar toda e qualquer pessoa desde o porteiro até ao administrador mais importante.
A posição que o seu suspeito ocupava na empresa não era determinante para o tornar suspeito embora, na verdade, tivesse acesso a todo o planeamento quer do processo de fabrico quer da comercialização que, com regularidade, a casa mãe em Inglaterra enviava. Aqui limitavam-se a seguir as instruções e pouca ou nenhuma interferência havia na marcha dos negócios. O Sr. Fielding vinha regularmente todos os meses reunir-se com os directores, demorando-se por vezes alguns dias. A sua escolha fora, por assim dizer, ditada mais pela antipatia que o homem lhe inspirava que outra coisa qualquer. Reconhecia que talvez fosse pouco "profissional" da sua parte suspeitar de alguém apenas por esses motivos mas, a verdade, è que também confiava muito no seu sexto sentido, o seu "faro" apurado para este tipo de coisas.
Não poucas vezes essa intuição se tinha revelado decisiva. Aliás fora por isso que o Sr. Fielding lhe dera aquele cargo. Conhecera-o há anos, na devastação da Bósnia onde ele era investigador ligado aos serviços de informação militar e o Inglês comandante de um destacamento da pequena cidade onde ambos se encontravam. Um dia mandara-o chamar ao seu gabinete. Encontrava-se ali uma mulher, com pouco mais de vinte anos, de uma extraordinária beleza. Alta, muito bem proporcionada, as feições correctíssimas deixavam adivinhar uma mistura de raça eslava com outra mais meridional. O Tenente-coronel explicou: «Esta jovem veio aqui queixar-se de ter sido vítima de grave abuso por parte de um oficial deste meu comando. Só que ela não sabe nem como se chama o sujeito nem qual a patente. Diz que, julga, que o oficial em causa não está já aqui, os factos ter-se-ão dado na véspera da sua partida para qualquer outro local. Eu não tolero, de modo nenhum tal coisa e estou disposto a ir até onde for preciso para apurar a verdade e descobrir o responsável, se o houver. Você tem "carta-branca" para investigar como e quem desejar. Quero a verdade, repito, e rapidamente.
Tinha sido mais fácil que o que a principio julgara. A jovem, não obstante o evidente traumatismo, descrevera o caso com uma realidade e pormenor tais que em três dias conseguira descobrir o indivíduo e reunir evidentes provas da sua miserável actuação.
O Comandante ficara surpreendido com a rapidez e a diligência com que dera conta do recado. Convidara-o para almoçar com ele na messe de oficiais e, durante a refeição, quis inteirar-se de pormenores a seu respeito. Nessa longa conversa ficara a saber que, terminada aquela comissão de serviço o Inglês abandonaria a vida militar para se dedicar aos negócios de família. Morrera o seu irmão mais velho e, ele tinha de assumir esse encargo.
Depois disso ainda se encontraram várias vezes, o Inglês sempre muito interessado na sua pessoa e em saber o que pensava fazer quando por sua vez, regressasse a Portugal.
A porta do prédio em frente, da qual mal despregara os olhos durante todo aquele tempo, abriu-se finalmente. Apareceu o sujeito que aguardava. No seu aspecto, nada de conspícuo deixava antever actividade menos correcta, mas... mesmo assim... lá foi seguindo o homem, rua abaixo.
Ao dobrar a esquina apercebeu-se de um automóvel que se aproximando-se de vagar parou junto do homem. Uma porta abriu-se e este entrou. Quando se lembrou de reter a matrícula já o carro ia longe. Uma frustração. Quem seria, ou quem seriam os do carro? Para onde iriam? Pensou um momento em regressar ao seu posto debaixo do toldo rasgado de velha mercearia, mas concluiu que seria uma estupidez. Sabia lá quanto tempo demoraria o homem a regressar. Não! Era Sábado e tinha mais que fazer. Ir para casa, por exemplo, acabar de gozar aquele dia de Verão lendo o jornal ou vendo um desafio de futebol na televisão.
Ao voltar-se para trás, chocou com um indivíduo que se aproximara sem se dar conta. Esboçou um gesto de desculpa mas não teve tempo de o concluir. O aço frio da navalha que lhe penetrou no lado esquerdo do peito cortou cerce, o fio que o prendia à vida e os olhos baços já não distinguiram as feições do oficial que, há anos, prendera na Bósnia.




sexta-feira, 15 de julho de 2011

Galo I

 Com a displicência costumada, entregou os registos do Euro Milhões, Loto e Loto Dois.

Aquilo já era um costume, um ritual. Entregava os papeluchos e nem se dava ao trabalho de ficar a ver a máquina a repetir:

Não premiado…não premiado…não premiado.

Aproveitava aqueles minutos para ler à borla os os periódicos na estante. Lia atravessado, quer dizer, os cabeçalhos e pouco mais.

Daí a pouco, a menina da caixa diria:

"Não tem nada. Posso deitar fora?"

Com um encolher de ombros, responderia:

"Pois claro. Já agora faça-me uns iguais para esta semana, se faz favor."

Ficou surpreendido quando a rapariga lhe tocou no braço chamando a sua atenção:

- Importa-se de chegar aqui um momentinho, se faz favor?

Olhou em volta para os poucos clientes que estavam no estabelecimento e perguntou:

- Mas…que se passa?

- Nada…nada, só lhe pedia para vir ali ao escritório que o Senhor Freitas quer dar-lhe uma palavrinha.

O senhor Freitas era o dono da tabacaria, um sujeito simpático e afável sempre muito bem disposto. Gostava de trocar piadas com os clientes, a maior parte dos quais, conhecia à muito tempo. Como era o seu caso.

Embora estranhando, lá foi a ver o que queria o Freitas.

Mal entrou no apertado cubículo que pomposamente chamavam “escritório” o Freitas puxou-o para dentro e fechou a porta imediatamente.

- Viva, senhor Freitas, como tem passado? Então que há?

- Meu caro amigo, respondeu o outro com a voz um pouco embargada. O que há é que o senhor tem um prémio no Euromilhões.

- Caramba, homem, que raio de coisa, Então e por uns poucos de Euros o senhor faz-me esta cena toda?
Olhe que eu já não sou nenhuma criança, pode dar-me uma coisa, homem!

- Não…não, disse o Freitas. Tenha calma. De facto o senhor tem o bilhete premiado mas não são uns euritos, como o senhor diz, é…o primeiro prémio!

Ficou de pedra a olhar o Freitas…

- Mas…mas…e isso quanto é?

- Então o senhor não sabe? É um jackpot meu caro senhor. O senhor ganhou sessenta milhões de euros!

Sentou-se. Sessenta milhões!

- Mas…tem a certeza?

- Claro que tenho a certeza, por isso é que o chamei aqui dentro, não queria que as pessoas lá na loja se inteirassem do assunto, está a entender?

Entendia.
Quer dizer, entendia e…não entendia.
Podia lá ser!
Nunca na vida ganhara coisa que se visse em jogo nenhum. Às vezes, em férias, lá jogava no casino e ganhava umas massas, mas, norma geral, quando chegava ao último dia estava na mesma como quando começara. Chapa ganha…chapa gasta.

Sessenta milhões! Aquilo até custava a dizer, caramba.

O Freitas continuava de pé, com o papelucho na mão, na expectativa…nem sabia de quê.

- O Senhor desculpe, eu não tenho nada com isso, mas a gente recebe instruções da Santa Casa para, em casos destes, sermos muito discretos de forma a proteger o cliente. Quer dizer, o senhor faz o que bem entender mas, se posso dar um conselho, deveria ir imediatamente depositar o talão num banco…por causa dos imprevistos…está a ver? E, se desejar, eu acompanho-o.
O senhor está com carro, ou veio a pé?

- Oh senhor Freitas, muito obrigado. O senhor é muito amável. De facto…uma coisa destas…a gente não está à espera… Olhe, eu por acaso vim a pé de maneira que, aceito o seu conselho e vou já ao banco ali na esquina entregar esta coisa!

- Mas o senhor não quer que eu vá consigo? Veja lá…sempre é melhor…cautela e caldos de galinha…

- Sim, sim, senhor Freitas, aceito a sua simpática disponibilidade.

E lá saíram da loja, o papel que valia sessenta milhões metido num envelope e bem enterrado num dos bolsos, com a mão direita a agarrá-lo…claro.

Dali até ao banco foram cinco minutos. Lá chegados pediu para falar com o gerente que, passado um momento, estava ao balcão.

Pediu para falarem no gabinete do bancário.
Assunto importante, disse.

A coisa correu lindamente.
O gerente tomou conta do papel, telefonou para a Santa Casa a confirmar e, depois, lavrou um documento que atestava a entrega e depósito do recibo do prémio. O próprio banco se encarregaria de receber o dinheiro e colocá-lo em conta.

- Isto deve demorar uns dois ou três dias, disse, depois eu contactá-lo-ei para saber o que deseja que se faça.

Muito obrigado, muito obrigado (umas três ou quatro vezes).

- Eu acompanho-o à porta.

Ai não!

Despediu-se do gerente, despediu-se do Freitas a quem garantiu que não se esqueceria dele.

Desandou pela rua fora a caminho de casa.
Resistiu à tentação de telefonar à mulher a contar o que tinha acontecido.
Era melhor não…a coitada, primeiro não acreditaria e, depois, quando convencida da verdade, era capaz de desmaiar ou algo pior.
Não. Depois, em casa, com toda a calma, mostraria o papel do banco…sessenta milhões!

Começou a fazer contas, a imaginar projectos, distribuição de dinheiros pelos filhos, a família…

Parecia-lhe que ia pelo ar que nem poisava os pés no chão.

Tão absorto ia, com a cabeça fervilhando como computador, subtraindo, somando, dividindo…que nem reparou no autocarro que lhe passou por cima reduzindo-o a pasta.