Coisas simples, de importância e interesse muito, muito relativos mas boas para "descomprimir".

Coisas de interesse muito relativo, que vou escrevendo,



quinta-feira, 30 de junho de 2011

Passar uma esponja

Escreve o jornal i – hoje -  que na semana que antecedeu a tomada de posse do novo Governo, entre 13 e 17 de Junho, os funcionários dos gabinetes dos Ministérios das Finanças e da Economia ficaram sem informações nos computadores com que trabalhavam, os e-mails profissionais deixaram de ter histórico ou lista de contactos e os discos rígidos foram limpos.
A ordem, tendo em conta testemunhos ouvidos pelo i, era a de não deixar qualquer informação nos computadores profissionais.
Esta operação de limpeza foi executada pelo Ceger, organismo responsável pela gestão da rede informática do Governo e que está na dependência do Conselho de Ministros.

Ora aqui está como se deve proceder quando não se tem a certeza – ou se tem – que é melhor não deixar vestígios das trapalhadas e “outras coisas” que durante seis anos se foram arquivando!
ama

O vinho

Dizia um velho colega e amigo de Coimbra que vinho é tinto, e branco… uma bebida.
Veio-me isto à ideia – e muitas coisas mais, como me acontece quando começo a rebuscar a caixa das ideias, ao ler a notícia, mais uma, sobre as virtudes do vinho tinto para a saúde.
Sim, sim, eu sei que não falta quem se empenhe tanto nestas virtudes que uns quantos litrinhos por dia é capaz de achar poucos se menos que quatro ou cinco. Por exemplo, se Portugal ganhou à República Checa por 3-1, por que não festejar com 3+1=4? Mas parece que o vinho tinto é mesmo um dos responsáveis pela benignidade da dieta mediterrânea quando se compara a outras de conteúdo calórico semelhante.

E não pude deixar de recordar o vinho que se fazia na casa do Teixoso, quase todo tinto, naturalmente, e a festa que era viajar nos carros de bois que traziam as uvas. Os caminhos eram uma espantosa sucessão de covas e pedregulhos, que se iam vencendo com o enorme esforço dos bichos e a arte dos rendeiros que os conduziam. A propósito, recordo os livros de Guareschi que se liam por essa altura com as aventuras do D. Camilo e do Pepone. Numa das histórias havia a férias um emigrante na América, o “Mericano”, como lhe chamavam.
De um físico colossal, mas pouco dotado de outros atributos, dizia dele o autor que “atrelado a um carro de bois não faria má figura, embora o boi lhe ganhasse em agilidade e inteligência”.

As uvas lá chegavam a casa e como as lagariças eram mais fundas do que as que se viam habitualmente na vila, eram trituradas numa maquineta e não pisadas por homens. Também se usavam uns rodos de madeira para agitar a massa durante a fermentação, até que o engaço vinha ao de cima e ficava às tantas com uma consistência que nos permitia andar a pé por cima sem enfiar as pernas no mosto. Era costume fazer algumas medições, como a da acidez, e de vez em quando tinha de se juntar uma certa quantidade de ácido tartárico dissolvido numa pouca de água. Estava nessa altura bem longe de adivinhar como esse ácido me havia de dar no goto.

Acontece que para a minha Química e Bioquímica vim a saber que Pasteur, químico de formação, começou por trabalhar numa vinificação, onde se entreteve exactamente com o meu velho conhecido ácido tartárico. E numa série de experiências fabulosas trouxe à luz conhecimentos sobre a estrutura a características desse composto, nomeadamente dos seus cristais, que rasgaram horizontes para a compreensão da estrutura das moléculas. E, de passagem, diga-se que, ainda por cima, era um notável pintor, e embora preferisse as artes à ciência, o pai empurrou-o para esta, com os resultados que se conhecem. E não me esqueço como o Prof. Carvalho Guerra, meu professor de Bioquímica, evocava um episódio em que Pasteur foi interrompido no seu gabinete por alguém que, ao vê-lo absorto nos seus pensamentos, lhe disse: “Mestre, até parece que estava a rezar”. Resposta de Pasteur “E estava!”

Finalmente, jorrava o vinho, quente, vermelho e cheiroso, que se bombeava para depósitos ou pipas, onde aguardava a trasfega, uns meses mais tarde, para então se guardar e ir vendendo. Os compradores que mais admirava eram os que vinham com um burro e dois odres de pele de cabra. Eram cozidos com o pelo para dentro e o vinho deitava-se pelo que tinham sido as goelas do bicho, um ou dois almudes por cada odre, uma maravilha! E para que nada se perdesse, o engaço residual das lagariças era escorrido numa prensa que o apertava com um tampo de madeira e um dispositivo de parafuso que o ia comprimindo com um tlique-tlaque das cunhas de ferro que soavam a música nos serões da adega. No fim, o engaço era colocado numa lagariças mais pequenas, batido e coberto com folhas de videira e terra por cima. 

Passado o tempo de fermentação conveniente, esse engaço era enfiado em alambiques para destilar e obtinha-se aguardente de bagaço, a qual servia, entre outras coisas, para fazer jeropiga, a qual com umas castanhinhas assadas…

fernando senna esteves, Inconveniências,

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A Grécia e o Soares

De vez em quando o grande homem, não consegue ficar calado e, então, fala!

É uma pena porque são raríssimas as vezes em que não diga asneira.

Agora saiu-se a dizer que era uma “vergonha” o tratamento que as instituições da União Europeia estão a dar à Grécia, dizendo que a Europa não tem líderes à altura dos tempos. “A Grécia é a pátria e a inventora da democracia”. [1]

O que o vetusto Soares não diz é que os socialistas que governaram a Grécia fizeram trinta por uma linha com as contas, aldrabando de tal modo os orçamentos que, o resultado, é o que se vê.

Portanto o personagem entende que pessoas como Durão Barroso não servem para exercer o cargo para o qual foi eleito pela esmagadora maioria dos países da União e, isto, só porque não despeja ainda mais dinheiro na pobre Grécia.

Ser a inventora e a pátria da democracia não lhe acrescenta senão responsabilidades o que, pelos vistos, não é capaz de assumir, deixando “gregos” os que lhes emprestaram larguíssimas somas de dinheiro.


[1] citando Mário Soares, Público 2011.06.28 pg 18, 

A solução

Dizia-me o sujeito com um ar de quem finaliza um assunto:

“É como lhe digo, estamos tramados!”

Por acaso não tinha que fazer nenhum esforço para concordar, mas, confesso, não gostava nada daquele ar professoral de quem diz verdades como punhos, daquelas que não admitem discussão.

Não obstante arrisquei uma pergunta:

"Mas não há, mesmo volta a dar?"

Respondeu condescendente:

"A única volta possível era liquidar todos os doentes terminais e aqueles com mais de setenta anos. Está a ver? Não quero dramatizar ou parecer pouco humano mas, porquê investir em tratamentos ou numa cirurgia caríssima em alguém que, mesmo que se recomponha, não irá produzir riqueza nenhuma?"

Realmente, pensei, sendo assim talvez fosse possível arrecadar uma considerável soma.
O assunto interessava-me por isso voltei:

“Faz alguma ideia de quantas pessoas estamos a falar?”

"Isso não interessa muito, não lhe parece? Se vamos falar de números levanta-se logo uma polémica de todo o tamanho e, como sempre, acabamos por não fazer nada e o sistema está - sabe-se – falido."
Concordei. Parecia-me acertado, talvez um pouco excessivo mas...acertado.
O elevador do hospital chegara ao piso da saída, em jeito de despedida perguntei:

"Veio aqui visitar alguém de família...?"

"Sim, sim...o meu Pai..., coitado está aqui já lá vai um mês e, melhoras...nada..."

Repliquei:
Ah!

"Pois - continuou - mas eu já lhe disse que só volta para casa quando estiver totalmente recuperado"

Decidi-me a um derradeira questão:

"Seu pai que idade tem"

"Pois faz setenta na semana que vem".

Fiquei a pensar que, ao pobre pai, pelos critérios do extremoso filho, lhe restava uma semanita de vida.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Uma memória, uma emoção, uma gratidão

Quando eu era menino, aliás mesmo já antes de eu nascer, vivia em casa dos meus pais, uma senhora, sim uma senhora, que tendo sido empregada em casa dos meus avós paternos, (que nem a minha mãe os conheceu pois morreram no principio do século xx, com o surto, salvo o erro, da pneumónica), nunca saiu de perto do meu pai, ficando assim a viver lá em casa.
Mais velha do que o meu pai, (que nasceu em 1899), nunca quis deixar de trabalhar e assim tratava sobretudo da capoeira e, lembro-me bem, era quem embebedava o peru para o Natal.
Era carinhosamente tratada por Ti Pedrosa, e recebia sempre dois beijos de cada um de nós, meninos estudantes em Lisboa, sempre que regressávamos a Monte Real para os diversos períodos de férias.
Era família, tão família como qualquer avó muito querida, e que, mesmo tendo um pouco de seu, e mesmo depois dos sobrinhos da Argentina a quererem vir buscar, nunca quis sair de nossa casa, pois era ali que era a sua casa, a sua família.
De quando em vez fugia-lhe a palavra para o antigamente e tratava o meu pai por menino Olympio, numa ternura incapaz de aqui reproduzir, sobretudo por ver aquele homem grande enternecido por aquele tratamento tão íntimo.

Neste momento, já perguntam os meus “camaradas de armas” o que é que tudo isto tem a ver com a Guiné!
Perguntam, porque já não temos a mesma paciência que ela tinha em esperar pelas férias, para ver como tinham crescido os seus meninos e quase obrigar as galinhas a porem os ovos amarelinhos, (que agora já não existem), para nós comermos estrelados em azeite, numa frigideira tão velha que já tinha a gordura “incorporada”.
Pois nos idos do mês de Abril de 1972, (mais para a frente ou mais para trás do dia 6, data do meu aniversário), recebi no Xitole uma carta, cujo envelope escrito com caligrafia vacilante, tinha inscrito no remetente: Ti Pedrosa – Monte Real.
A letra não era dela, que não sabia escrever, mas de outra empregada que a seu pedido me dava os parabéns pelos meus 23 anos e servia de cobertura a uma nota de 20$00, para eu comprar o meu presente.
Calculam como o meu coração, já de si tão mole e sensível, enviou aos meus olhos a ordem para, com uma qualquer água, afastar o pó da Guiné e lubrificar a minha vista.
Claro que aquilo não era lágrimas, eram apenas os meus olhos a protestarem pela luz tão intensa da Guiné.
Foi um oásis de ternura, na brutalidade da guerra.
Mais tarde, uns meses mais tarde, julgo que ainda na Guiné, recebi outra carta, agora com a letra redonda e bem tratada da minha mãe, que me enviava, a pedido da Ti Pedrosa, uma fotografia sua, tirada nos seus oitenta ou noventa anos, que infelizmente a memória já não me deixa lembrar com precisão.
Dizia a minha mãe que a Ti Pedrosa tinha feito questão de tal envio e de que me dissesse da sua grande preocupação que o “benjamim” da família andasse por terras tão estranhas, a fazer coisas tão perigosas.
Que me cuidasse muito, tivesse cuidado com as temperaturas e que voltasse depressa e bem.

E porquê esta história agora?
Porque hoje tive uma insónia povoada de sonhos amargos, coisas da Guiné, e no meio da perturbação, da agitação, veio ao meu pensamento, (ou seria ao coração?), a imagem, a lembrança da Ti Pedrosa que lá no Alto olha por mim, tanto que pouco depois adormeci calmamente.
Claro que não podia deixar de lhe fazer esta homenagem, contando os seus gestos de ternura, que tanto amenizaram durante uns tempos, a dureza da minha vida na Guiné.

No meio das emboscadas, das minas, dos tiros, das dores, dos horrores, das horas amargas que aqui neste nosso espaço se vão desfiando, deixo-vos esta lágrima de amor, esta gota de ternura, este gesto de carinho, esta memória, esta emoção, esta gratidão.

Abraço-vos fortemente, meus “camaradas de armas”, com um sorriso nos lábios, porque no peito de todos os combatentes, dos ex-combatentes, endurecidos pela guerra, empedernidos pela morte, ainda bate um coração sensível, que se alegra e enternece com os gestos de carinho, de amor, daqueles que por cá penaram a nossa estadia na Guiné.

Monte Real, 20 de Maio de 2009 

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Carta aberta III

Senhor Zé:

Há um ror de tempo que não lhe escrevo umas linhas mas, tenho a certeza, entenderá porquê...depois de eu lhe explicar, claro:

Via-o muito ocupado em espatifar o que ainda restava do torrão natal de maneiras que achei que não tinha tempo para me ler.

Aliás chego à conclusão que nunca me leu quando não tinha arrepiado caminho e tinha-se posto a milhas à um ror de tempo.

Oh ZÉ! Mas então você deixou chegar as coisas a este ponto, homem!

A discursata que compôs para a noite do desastre não valeu de nada, bolas…

Já só lhe bateram palmas uns quantos envergonhados que o que, de facto, queriam era dar-lhe umas palmadas.

E agora, Zé? Já se sabe…vai ser um festival de patadas pela malta toda que vai ficar sem as prebendas – algumas…tremendas – que tão magnanimamente andou a distribuir durante os seis anitos de des-governação.

Ouvi dizer que se preparava para partir para a Albion a ver se arranja quem lhe forneça, por um preço jeitoso, uma licenciatura em filosofia, e, devo desde já dizer-lhe que acho uma excelente ideia.
Por duas ou três razões principais:

A primeira é que estando por lá safa-se de levar umas bolachadas de algum sujeito pouco democrático mas muito à rasca;

A segunda é que por aqui já não será muito provável arranjar mais nenhum diplomazito;

A terceira é, talvez, a mais conveniente: quem não aparece…esquece e você o que deve querer, mas querer a sério, é que o pessoal se esqueça.

Não é?

"INCONVENIÊNCIAS"

CARVIDEX tem muito gosto em recomendar o livro “INCONVENIÊNCIAS”, uma compilação de artigos escritos por Fernando Sena Esteves no jornal “VERDADEIRO OLHAR”.

Acerca do mesmo, diz o Prof. Dr. João César das Neves:

“Ler uma colectânea de artigos é como comprar um sortido de doces. Nunca se sabe o que sai, mas temos a certeza da variedade Pode-se petiscar daqui e dali, com a garantia que cada texto, sendo pequeno e independente dos demais, tem o seu paladar próprio. A grande vantagem é que, se não se gosta de um, ele acaba depressa e vem logo outro de sabor completamente diferente. Por isso há quem prefira esta alternativa ao lauto banquete literário de um romance, mais sólido e requintado, mas mais monótono.”

Para adquirir a obra enviar para geral@verdadeiroolhar.pt o nome e morada: como resposta será emitida uma referência para efectuar o pagamento via Multibanco  (12€ cada exemplar). Após o pagamento será enviado pelo correio o número de exemplares solicitado.

Como “aperitivo” aqui vai um delicioso exemplo:

Como dar um comprimido a um gato

Esta peça circula pela Net já há uns anos, mas pode ser que alguém a não conheça, e por isso aqui vai.

Pegue no gatinho e aninhe-o no seu braço esquerdo como se segurasse um bebé. Coloque o indicador e o polegar da mão direita nos dois lados da boquinha do bichano e aplique uma suave pressão nas bochechas enquanto segura o comprimido na palma da mão. Quando o amorzinho abrir a boca atire o comprimido lá para dentro. Deixe-o fechar a boquita e engolir.

Recupere o comprimido do chão e o gato de detrás do sofá. Aninhe o gato no braço esquerdo e repita o processo.

Vá buscar o gato ao quarto e deite fora o comprimido meio desfeito.

Retire um novo comprimido da embalagem, aninhe o gato no seu braço enquanto lhe segura firmemente as patas traseiras com a mão esquerda. Obrigue o gato a abrir as mandíbulas e empurre o comprimido com o indicador direito até ao fundo da boca. Mantenha a boca do gato fechada enquanto conta até dez.

Recupere o comprimido de dentro do aquário e o gato de cima do guarda-fatos. Chame a sua esposa do jardim.

Ajoelhe-se no chão com o gato firmemente preso entre os joelhos, segure as patas da frente e de trás. Ignore os rosnados baixos emitidos pelo gato. Peça à sua esposa que segure firmemente a cabeça do gato com uma mão enquanto força a ponta de uma régua para dentro da boca do gato com a outra. Deixe cair o comprimindo ao longo da régua e esfregue vigorosamente o pescoço do gato.

Vá buscar o gato ao suporte do cortinado e retire outro comprimido da embalagem. Tome nota para comprar outra régua e reparar as cortinas. Varra os cacos das estatuetas e dos vasos do meio da terra e guarde-os para colar mais tarde.

Enrole o gato numa toalha grande e peça à sua esposa para se deitar por cima de forma a que apenas a cabeça do gato apareça por debaixo do sovaco. Coloque o comprimido na ponta de uma palhinha de beber, obrigue o gato a abrir a boca e mantenha-a aberta com um
lápis. Assopre o comprimido da palhinha para dentro da boca do gato.
Leia a literatura inclusa na embalagem para verificar se o comprimido faz mal a humanos, beba uma cerveja para retirar o gosto da boca. Faça um curativo no antebraço da sua esposa e remova as manchas de sangue da carpete com o auxílio de água fria e sabão.

Retire o gato do barracão do vizinho. Vá buscar outro comprimido. Abra outra cerveja.
Coloque o gato dentro do armário e feche a porta até ao pescoço para que apenas a cabeça fique de fora. Force a abertura da boca do gato com uma colher de sobremesa. Utilize um elástico como fisga para atirar o comprimido pela garganta do gato abaixo.

Vá buscar uma chave de fendas à garagem e coloque a porta do armário de novo nos eixos.
Beba a cerveja. Vá buscar uma garrafa de whisky. Encha um copo e beba. Aplique uma compressa fria na bochecha e verifique a data de quando apanhou a última vacina contra o tétano. Aplique compressas de whisky na bochecha para desinfectar. Beba mais um copo.
Atire a T-Shirt fora e vá buscar uma nova ao quarto.

Telefone aos bombeiros para virem retirar o raio do gato de cima da árvore do outro lado da rua. Peça desculpa ao vizinho que se estampou contra a vedação enquanto tentava desviar-se do gato em fuga. Retire o último comprimido de dentro da embalagem.

Amarre as patas da frente às patas de trás do gato, com a mangueira do jardim e de seguida prenda firmemente à perna da mesa da sala de jantar. Vá buscar as luvas de couro para trabalhos à garagem. Empurre o comprimido para dentro da boca da besta seguido de um grande pedaço de carne. Seja suficientemente bruto, segure-lhe a cabeça na vertical e despeje-lhe um litro de água pela goela abaixo para que o comprimido desça.

Beba o restante whisky. Peça à sua esposa que o conduza às emergências e sente-se muito quieto enquanto o médico lhe cose os dedos, o antebraço e lhe remove os restos do comprimido de dentro do seu olho direito. A caminho de casa contacte a loja das mobílias para encomendar uma nova mesa de jantar.

Trate de tudo para que a protectora dos animais venha buscar o maldito gato mutante fugido do inferno. Telefone para a loja dos animais e pergunte se têm tartaruguinhas.

Fernando Sena Esteves

domingo, 26 de junho de 2011

Um erro ingrícola

Aí estávamos nós, nas férias grandes, (quando elas eram mesmo grandes), nos campos da província, que tanto gostávamos de correr e percorrer.

A caminho do rio, (que nesse tempo tinha a água límpida que até se viam os peixes), para um mergulho no açude, apanhando a fruta das árvores e comendo-a directo, sem qualquer medo ao tratamento do sulfato, “caçando” uma rã aqui outra acolá, ou até para maior aventura uma cobra de água, lá íamos desfrutando tudo aquilo que não nos era dado em Lisboa, terra dos estudos.

Claro que, se apesar de tudo sabíamos distinguir uma maçã de uma pêra, um milho de um trigo, um estorninho duma rola, outros frutos, outras culturas, outros animais, revelavam-se mais difíceis de distinguir.

Também, tínhamos de “aprender” tudo no Verão e não nos esquecermos no resto do ano!

Mas até dava gozo chegar a Lisboa e por vezes ser gozado pelos outros como provincianos, mas depois nas aulas, quando se tratava das coisas práticas ligadas com a “ingrícola”, um tipo dar uma de conhecedor, até para além daquilo que os próprios professores conheciam realmente.

Pois bem, um dia os meus primos, (companheiros permanentes de férias), e eu, durante uma dessas deambulações pelos campos, deparámos com um campo carregadinho de saborosos melões, e que sabíamos pertencentes ao meu pai, pelo que “estávamos em casa”.

Logo tomamos a decisão de abrir um para experimentar e logo também se colocou a pertinente dúvida:
Serão melões, ou abóboras?

Os nossos conhecimentos “ingrícolas” não chegavam a tanto e então eu, como filho do proprietário, senti-me empossado na autoridade de poder dar umas ordens, que logicamente foram no sentido de experimentar a abrir um/uma e depois logo se via.

A primeira era obviamente uma abóbora e disso não restavam dúvidas, mas a sede e vontade de comer, a graça que tinha partir aqueles frutos numa pedra para ver o interior, e a certeza inabalável de que o meu pai com certeza ali teria melões, levou-me a continuar e “autorizar” que a busca do melão continuasse.

Passado algum tempo sem encontrarmos nenhum melão, parámos a procura, e foi então que nos deparámos com um campo de abóboras completamente devastado pela ignorância “ingrícola” de um bando de rapazes que tiveram de se render à evidência que passavam mais tempo em Lisboa, que na província.

Mas agora era preciso dar uma explicação ao verdadeiro proprietário, que para além de não ser pessoa que gostasse de mentiras, tinha umas mãos que pareciam umas pás.

Aí, os meus primos chegaram à brilhante conclusão de que sendo eu filho, me competia a mim arrostar com as consequências, já que eles tinham a noção de que a coisa também iria chegar aos ouvidos do pai deles e assim escusavam de levar duas vezes.

Pareceu-me justa a explicação e decidi então que eu sozinho iria explicar ao meu pai o inexplicável.

Quando cheguei perto dele e vi o seu olhar, do alto do seu metro e oitenta e cinco, percebi que embora ainda não tivessem sido inventados os telemóveis, a notícia tinha corrido célere e que ele já estava de posse de todos os dados da “façanha” do seu filho.

Perante esta constatação não hesitei e contei a verdade nua e crua, pois para além da “estragação“ feita, tive de reconhecer a minha incapacidade de conhecimento no campo da “ingrícola”.

Olhou para mim e deu-me um estalo, tentando controlar a sua força, mas que mesmo assim me levou de ventas ao chão.

Quando me levantei, olhou para mim com um ar muito sério, embora me tenha parecido também um pouco trocista, e disse:
«Levas um estalo, não por causa do estrago que fizeste, mas por não seres capaz de distinguir uma abóbora de um melão. Que vergonha!»

Voltou as costas e afastou-se de mim e eu ia jurar que o tremer das costas dele era porque se ia a rir de mim.

Não sei o que me doeu mais no momento, se o estalo, se a vergonha de não ser capaz de distinguir uma abóbora de um melão!!!

Joaquim Mexia Alves
4 de Novembro de 2008